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'Fiscalizar autoridades e familiares de ministros faz parte do dia a dia da Receita, a questão é se houve quebra de sigilo', afirma presidente do Sindifisco

Dão Real critica exposição dos servidores afastados, que tiveram nomes divulgados por Moraes.

Investigação foi autorizada por Moraes dentro do inquérito das Fake News -  (crédito: EPA/Shutterstock)
Investigação foi autorizada por Moraes dentro do inquérito das Fake News - (crédito: EPA/Shutterstock)

A investigação da Receita Federal sobre supostas quebras de sigilo fiscal de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e seus familiares identificou diversos acessos a dados desses contribuintes, afirma Dão Real, presidente do Sindifisco Nacional, sindicato que representa os auditores-fiscais da Receita.

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Desses acessos, ressaltou à BBC News Brasil, foram identificados apenas quatro servidores que teriam buscado informações dessas autoridades e seus parentes de forma injustificada, ou seja, sem uma razão ligada ao trabalho rotineiro de fiscalização.

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"A Receita Federal identificou que houve muitos acessos, mas que a imensa maioria foi plenamente justificada, em razão de monitoramentos, de fiscalizações em andamento. No entanto, apareceram quatro pessoas que realizaram acessos e, após uma investigação, não ficou demonstrada a motivação", afirmou.

Para o presidente do Sindifisco, é normal que o STF peça uma investigação sobre possível quebra de sigilo fiscal após informações de ministros ou familiares terem aparecido na imprensa brasileira.

A determinação veio do ministro Alexandre de Moraes, dentro do controverso Inquérito das Fake News. Segundo Real, foi solicitado que a Receita apurasse o acesso a dados de 100 pessoas, entre integrantes da Corte e seus familiares.

Por outro lado, o presidente do Sindifisco critica a decisão de Moraes de expor o nome dos quatro servidores afastados e colocados sob monitoramento de tornozeleira eletrônica.

Segundo Real, o acesso injustificado a dados fiscais é um ilícito administrativo e não significa que, necessariamente, houve quebra de sigilo. Para isso, ressalta, é preciso haver o vazamento desses dados, algo que ainda está em investigação.

"É importante dizer: a quebra de sigilo fiscal é crime. Cabe ao STF, cabe à Polícia Federal investigar. Mas, enquanto não se prova, presume-se que é inocente e que tem o direito da mais ampla defesa", defendeu.

"Evidente que a exposição na mídia do nome de um colega suspeito de ter vazado informações causa constrangimentos pessoais, familiares e na carreira. Inclusive, na opinião pública, é como se ele tivesse quebrado o sigilo", acrescentou.

Para o presidente do Sinfifisco, causa surpresa a divulgação dos nomes em um inquérito que está sob sigilo.

"Desde janeiro, nós estamos buscando informações sobre este inquérito lá no STF: o que estaria motivando o ministro do Supremo a pedir que a Receita Federal fizesse essa varredura? E a resposta é sempre a mesma: o inquérito corre em segredo de justiça", contou.

"Portanto, há uma seletividade nas informações disponibilizadas para a sociedade. Se disponibilizou apenas o nome das pessoas, sem dizer que tipo de acesso elas fizeram, sem dizer que tipo de elementos estariam sustentando aquelas ações de busca, de tornozeleira eletrônica", reforçou.

O diretor da Unafisco (Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal), Kléber Cabral, foi mais duro na reação ao STF, acusando a Corte de intimidar auditores fiscais.

Em entrevista ao canal GloboNews, chegou a dizer que seria "menos arriscado" fiscalizar a facção criminosa PCC do que autoridades. Depois disso, ele foi intimado por Alexandre de Moraes e depôs na sexta-feira (20/2).

Segundo nota da Unafisco, Cabral foi "ouvido na condição de investigado no âmbito do chamado Inquérito das Fake News, apenas em razão das declarações concedidas à imprensa na quarta-feira, 18 de fevereiro".

"Conforme informado pela autoridade policial, o procedimento tramita sob sigilo, razão pela qual o presidente da entidade não poderá comentar o conteúdo do depoimento neste momento", continuou o comunicado.

Questionado sobre a declaração de Cabral comparando a investigação de autoridades e do PCC, Dão Real disse "não concordar em nada" com o presidente da Unafisco. Apesar disso, o Sindifisco repudiou, em nota, sua intimação por Moraes.

"Caso o filiado tenha sido intimado por conta de suas declarações, na condição de presidente da Unafisco Associação, à imprensa sobre a atuação do STF, consideramos que esta iniciativa é inaceitável, pois fere o direito, previsto na Constituição Federal, à liberdade de opinião".

Dão Real disse discordar das falas do presidente da Unadisco porque avalia que o alvo da investigação do STF não é o trabalho legítimo da Receita, mas esclarecer se houve a quebra de sigilo.

"A Receita Federal fiscaliza autoridades de Estado, fiscaliza parentes de ministro, fiscaliza sempre, desde que a fiscalização ocorra dentro dos parâmetros estabelecidos, ou seja, com intimações, com conhecimento do fiscalizado", afirmou.

"Enfim, isso tudo faz parte do dia a dia do trabalho da Receita Federal e não há nenhuma insurgência de parte, nem do STF, nem das autoridades do Judiciário, contra a atuação legítima da Receita Federal", continuou.

Segundo o presidente do Sindifisco, comparar esse trabalho com a investigação do crime organizado "é incabível".

"A fiscalização do PCC, essa é perigosa. Essa põe em risco a vida de quem fiscaliza e a vida dos familiares do auditor fiscal, que recorrentemente recebem ameaças".

"Tanto que, para fiscalizar operações do crime organizado, as equipes trabalham o mais sigilosamente possível. Ou seja, não aparecem os nomes dos investigadores em investigações contra o crime organizado", disse ainda.

Moraes sorri de perfil ao lado de Toffoli e Gilmar. Os três estão sentados em cadeiras de couro amarelo, no plenario do STF. Eles vestem gravatas, ternos e togas de juiz.
EPA/Shutterstock
Investigação foi autorizada por Moraes dentro do inquérito das Fake News

Dois servidores suspeitos de vender dados sigilosos

O presidente do Sindifisco diz que não teve acesso ao relatório sigiloso que a Receita enviou ao STF, mas obteve algumas informações.

Dos quatro servidores que teriam acessado dados de ministros sem justificativa, um é auditor fiscal e dois são técnicos de seguridade social. O quarto é do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), mas estava cedido à Receita.

O auditor fiscal teria acessado uma única vez dados sigilosos de uma familiar de um ministro.

"Ele comunicou à Receita que fez esse acesso por engano ou por curiosidade, algo assim, e a Receita Federal enviou o nome dele para o STF", disse Real.

Outro suspeito, relata, teria visto apenas dados cadastrais, sem entrar em informações sigilosos.

Contra os outros dois, porém, há suspeita de venda de dados.

"As acusações ou a suspeita [sobre esses dois] são bem mais graves, ou seja, que a pessoa teria acessado não apenas uma informação referente a uma declaração do passado, mas que teriam acessado um conjunto maior de informações e havia ali indícios muito fortes de que aquele acesso teria sido feito por encomenda", disse Real.

Operação contra servidores ocorre após vazamentos ligados a Banco Master

A abertura da investigação contra os supostos vazamentos na Receita, ocorreu no momento em que a Corte atravessa uma crise, após veículos de imprensa revelarem, nos últimos meses, supostas conexões financeiras envolvendo familiares de ministros e o Banco Master, instituição liquidada em meio a suspeitas de fraudes bilionárias.

As revelações envolveram diretamente o ministro Dias Toffoli, devido à compra de parte de um resort controlada por sua família por um fundo do pastor Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

A controvérsia em torno dessa operação acabou levando Toffoli a desistir de relatar a investigação sobre as fraudes do banco Master. O caso foi redistribuído na sexta (13/2) para o ministro André Mendonça.

Além de Toffoli, Moraes também sofreu desgaste com a revelação de que o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, tem um contrato com o Banco Master de R$ 129 milhões.

A nova investigação autorizada por Moraes está sob sigilo e, por isso, não há confirmação oficial de que os dados vazados da Receita se referem a essas conexões com o Master.

Segundo nota divulgada pelo STF, as investigações iniciais demonstraram acessos a dados de ministros sem justificativa legal, configurando crime de violação de sigilo funcional.

"Foram constatados diversos e múltiplos acessos ilícitos ao sistema da Secretaria da Receita Federal do Brasil, seguindo-se de posterior vazamento das informações sigilosas", diz o comunicado.

A nota cita ainda trecho da manifestação da PGR afirmando que "o caso não se exaure apenas na violação individual do sigilo fiscal, uma vez que a exploração fragmentada e seletiva de informações sigilosas de autoridades públicas, divulgadas sem contexto e sem controle jurisdicional, tem sido instrumentalizada para produzir suspeitas artificiais, de difícil dissipação".

A íntegra da decisão de Moraes e a manifestação da PGR estão em sigilo e não foram divulgadas.

Na terça-feira, foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. Também foram determinadas medidas cautelares dos quatro servidores afastados, como o monitoramento por tornozeleira eletrônica, o afastamento do exercício de função pública, o cancelamento de passaportes e a proibição de saída do país.

Os quatro também estão proibidos de entrar nas dependências do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e da Receita Federal, assim como impedidos de acessar seus sistemas e bases informatizadas.

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BBC
Mariana Schreiber - Da BBC News Brasil em Brasília
postado em 23/02/2026 08:06
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