ORGANIZAÇAO CRIMINOSA

Morte de El Mencho pode fortalecer PCC, que é 'mais profissional' que cartéis mexicanos, diz especialista

Grupo criminoso brasileiro estaria bem posicionado para ocupar vácuo deixado pelos mexicanos em rotas de cocaína para Europa e mineração ilegal na Amazônia.

Uchôa aponta que Marcola, do PCC, está preso há anos e organização criminosa segue fortalecida apesar disso -  (crédito: Getty Images)
Uchôa aponta que Marcola, do PCC, está preso há anos e organização criminosa segue fortalecida apesar disso - (crédito: Getty Images)

A morte do poderoso chefe do narcotráfico Nemesio Oseguera, conhecido como "El Mencho", esta semana foi apresentada pelas autoridades do México e dos EUA como um duro golpe ao crime organizado de drogas.

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El Mencho era líder do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG) e um dos homens mais procurados pelo México e pelos Estados Unidos — países que cooperaram na operação que matou o traficante no município de Tapalpa, no Estado de Jalisco.

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Mas para o ex-policial e pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Roberto Uchôa, a operação no México pode agora causar problemas no Brasil.

Segundo ele, facções brasileiras como o Primeiro Comando da Capital (PCC) podem vir a ocupar o vácuo deixado pelo cartel mexicano CJNG — que agora deve mergulhar em conflitos internos para decidir a sucessão de El Mencho.

Uchôa afirma que o PCC já atua em duas áreas em que o CJNG pode estar enfraquecido: a exploração de rotas de drogas sintéticas e cocaína para a Europa; e a mineração ilegal de ouro — e o comércio de mercúrio — na Amazônia.

Além disso, ele acredita que o grupo brasileiro vem se mostrando mais organizado e profissional do que os mexicanos nos últimos anos — sobretudo por conseguir "regular o mercado da violência". Enquanto no México, traficantes entram em confronto direto com o Estado, no Brasil as ações violentas dos criminosos são mais "utilitárias" — calculadas para atingir determinados objetivos concretos.

Além disso, a violência como a que se viu no México esta semana por parte do CJNG — com disparos em aeroportos e ruas do país — pode fortalecer o discurso do presidente americano, Donald Trump, de enquadrar esses grupos como terroristas, dando aos EUA maior poder de ação contra o México em diversas instâncias.

"E é o tipo de coisa que o PCC parou de fazer", diz Uchôa.

Para ele, a estrutura mais descentralizada do PCC — e também de grupos como o Comando Vermelho —, sem grandes líderes simbólicos, faz com que esses grupos sejam mais resistentes a operações que prendem e matam grandes traficantes.

"O PCC mostra um nível de resiliência e profissionalismo no crime muito maior", afirma Uchôa.

Confira abaixo trechos da entrevista do especialista à BBC News Brasil.

BBC News Brasil — De que forma o PCC pode sair fortalecido com a morte de El Mencho?

Roberto Uchôa — Existem três possibilidades após a morte do El Mencho. A mais provável é uma "balcanização" — ou seja, uma fragmentação do cartel — por causa das disputas entre os generais [os comandantes entre os traficantes].

Não ficou uma liderança definida e uma sucessão estruturada para o caso de ele ser preso ou morto. Então, o que provavelmente vai acontecer é um conflito interno ou uma divisão do cartel em células menores — ou até mesmo a absorção pelo Cartel de Sinaloa.

De qualquer forma, sabemos que o Cartel Jalisco Nueva Generación estava usando rotas para a Europa, principalmente para drogas sintéticas e cocaína. E já sabemos que esse cartel estava muito presente em mineração ilegal na América do Sul.

O que eu entendo, também conversando com outros pesquisadores, é que essa possível fragmentação e essa luta interna vão enfraquecer a posição do cartel. Isso vai dificultar a manutenção das rotas para a Europa ou o controle dessas minas.

E isso abriria espaço para organizações como o PCC.

Hoje o PCC já controla grande parte da rota da cocaína para a Europa. Ele está em contínua expansão. Mesmo com suas lideranças presas, isso não enfraqueceu o grupo justamente por causa de uma estrutura diferenciada. O PCC é estruturado como uma empresa. Então, você pode prender uma liderança — o Marcola, por exemplo, está preso há décadas — e ele é apenas um líder da Sintonia Final, que é um grupo de pessoas que decide os rumos do PCC. É uma organização muito mais resiliente ao tipo de combate conhecido como kingpin, que consiste em eliminar ou isolar a liderança.

Na geopolítica criminal, não existe espaço vazio: ele é rapidamente preenchido. Então, acredito que, se realmente ocorrer essa instabilidade e faltar a certeza que os clientes querem, o PCC vai entrar como um fornecedor estável, que também tem acesso à origem da droga na América do Sul e vai fornecer com mais tranquilidade.

Marcola cercado por policiais
Getty Images
Uchôa aponta que Marcola, do PCC, está preso há anos e organização criminosa segue fortalecida apesar disso

BBC News Brasil — O senhor mencionou que o Cartel Jalisco Nueva Generación atuava em minas na América do Sul. Que tipo de operação de mineração é essa? O enfraquecimento do cartel mexicano abre espaço para o PCC atuar nesses negócios ilegais?

Uchôa — O Cartel Jalisco Nueva Generación tem atuado em mineração ilegal na Colômbia, na Venezuela e no Equador. São operações envolvendo ouro e outros minerais. Inclusive, saiu uma reportagem recente mostrando que o cartel tem participação no comércio de mercúrio, que está envenenando a Amazônia.

A Amazônia se tornou uma terra de ninguém. Ali, você tem várias organizações criminosas de vários países disputando a região — para tráfico de drogas, rotas logísticas e também mineração ilegal. O cartel mantém posições nessa atividade e possui conexões importantes.

Com o enfraquecimento do cartel [mexicano], o PCC passa a ser uma força mais dominante na América do Sul, porque o Jalisco tinha uma presença significativa principalmente no norte do continente, voltado para o Caribe e para o Pacífico.

O PCC não atua diretamente no garimpo ilegal, e o Jalisco também não atuava diretamente. O que eles faziam era oferecer logística, lavagem de dinheiro e estrutura para que essas operações funcionassem. Se o cartel mexicano se fragmenta e se enfraquece — seja por disputas internas ou por conflitos com outros cartéis — ele deixa de conseguir dar atenção a determinados pontos e rotas.

As organizações envolvidas nesses crimes associados ao cartel vão buscar um parceiro mais estável, e o PCC se apresenta dessa forma.

BBC News Brasil — No México e também em outros países, quando uma figura importante do crime organizado, como Pablo Escobar, Joaquín "El Chapo" Guzmán ou o próprio El Mencho, é presa ou morta, o tráfico costuma se reorganizar e surgem novos chefes. Isso não deve acontecer agora de novo? Prende um ou mata um, e logo aparece outro?

Uchôa — A estrutura de lideranças quase ditatoriais nas organizações criminosas — que começa com Escobar nos anos 80 e continua com Guzmán, com o "El Mayo" [Ismael Zambada] e agora com o El Mencho — vem se mostrando cada vez mais suscetível a esse tipo de operação. Elas se reestruturam, mas isso não é simples ou automático. Não é como a reestruturação de uma empresa. Há muita violência e grandes conflitos até que aconteça uma realocação de atribuições dentro dessas organizações.

Por exemplo, o Guzmán concentrou muito poder quando unificou vários grupos no México. Depois, com sua queda, houve fragmentação e violência entre cartéis. O crime vai se reorganizar porque o vácuo não existe — ele é sempre ocupado.

Mas o PCC mostra um nível de resiliência e profissionalismo no crime muito maior.

O PCC, em 2006, realizou aqueles ataques em São Paulo, muito parecido com o que o México está fazendo agora. Na época, foi por causa da transferência de líderes para o Regime Disciplinar Diferenciado. Ali, o PCC entendeu que esse tipo de enfrentamento direto com o Estado é financeiramente prejudicial. É muito mais interessante usar a violência como uma mensagem — de forma utilitária. Ou seja, regular o "mercado da violência". O criminoso só pode matar o outro se houver um julgamento — se "for para as ideias" [gíria para julgamentos entre criminosos].

Se for para matar alguém, é para enviar mensagens — como no caso da morte do Vinícius [Vinicius Gritzbach, delator do PCC morto no aeroporto de Guarulhos em 2024] ou do ex-delegado de São Paulo [Ruy Ferraz, em 2025].

Não é uma guerra aberta contra o Estado, como fazem os cartéis do México e como a Colômbia viveu na época do Escobar.

Na minha visão — e também na visão do Francesco Guerra, que pesquisa o PCC na Universidade de Pisa — podemos estar observando uma mudança nesse modelo de liderança ditatorial, no líder que vira alvo e cuja queda desmantela a parte de cima da organização.

Isso vai acontecer nos cartéis mexicanos? Acho que não. Mas o PCC é um exemplo dessa mudança.

O Comando Vermelho também funciona de forma parecida a um sistema de franquias: há uma cúpula, mas as lideranças locais têm grande independência, e todos permanecem dentro da organização visando benefícios.

Nenhuma dessas duas grandes organizações brasileiras que estão crescendo tem uma liderança ditatorial no estilo clássico — aquela figura que todo mundo quer prender e cuja captura desmantela tudo. No Rio, por exemplo, a cada quatro ou cinco anos surge um novo líder, prendem ou matam, e a vida segue.

Operação ilegal de mineração na Amazônia no Peru
Getty Images
Mineração ilegal na Amazônia é um dos vácuos que cartel mexicano deixa, que poderia ser ocupado pelo PCC, segundo especialista

BBC News Brasil — Se o PCC realmente ocupar os vácuos deixados pelo cartel mexicano — tornando-se mais forte, mais rico, com mais rotas e mais alternativas — as instituições brasileiras, como a Polícia Federal, estão preparadas para lidar com isso? Porque elas já parecem ter dificuldades para lidar com o cenário atual.

Uchôa — Essa é a pergunta de um milhão. Eu trabalhei 20 anos na Polícia Federal, saí recentemente, e é uma instituição que vem se preparando ao longo das últimas décadas. Tem quadros experientes, tem conhecimento tecnológico, sabe enfrentar o problema. Mas sofre com uma carência histórica de infraestrutura e de pessoal.

Pense: somos um país de 220 milhões de habitantes, que abriga uma das maiores organizações criminosas do mundo, que é rota internacional de drogas para Europa, África, Ásia e até para os EUA — e temos uma Polícia Federal com 13 mil profissionais.

Além disso, há problemas na legislação brasileira que dificultam muito o combate ao crime. O governo atual tem tentado fazer modificações, dar ferramentas processuais e jurídicas para melhorar isso. O projeto antifacção foi um deles, mas recentemente foi modificado [no Congresso] antes de ser aprovado, retirando pontos importantes para combater organizações criminosas.

Aumentaram-se penas e reforçou-se a repressão ao "andar de baixo" do crime organizado, mas as ferramentas necessárias para combater o "andar de cima" — a infiltração no sistema financeiro, no sistema político, nos governos, em licitações — foram retiradas.

BBC News Brasil — O presidente americano Donald Trump tem pressionado o México e outros países a combater mais o tráfico de drogas, usando essa pauta inclusive em negociações comerciais. A operação contra o El Mencho, feita com cooperação dos EUA, mostra que essa pressão de Trump está funcionando? Ele está conseguindo emplacar essa agenda?

Uchôa — Para ele, isso é muito interessante. Para ele, é uma vitória. É um troféu. Mas, para o México, isso é apenas a contratualização de um banho de sangue que não vai mudar a realidade.

Os EUA têm um papel central nessa questão. Além de serem o grande mercado consumidor, também são o grande fornecedor de armas para os cartéis mexicanos. Por isso, é curioso que o governo Trump fale em atacar o tráfico, mas não combata o tráfico de armas que sai dos EUA para o México. Eu chamo isso de hipocrisia americana.

É preciso desestruturar o fornecimento de armas, combater os mercados internos onde essas drogas são vendidas dentro dos EUA e oferecer apoio estrutural ao governo mexicano para enfrentar as organizações criminosas.

Do contrário, ocorre o seguinte: os EUA ficam com o troféu — a morte do El Mencho, a extradição do El Chapo, do Mayo, ou dos filhos do El Mencho — mas deixam o sangue e a destruição para o México resolver sozinho.

Essa política de guerra às drogas, que os EUA já implementaram na Colômbia, mostrou-se fracassada. Ela não muda a realidade: os EUA levam seus troféus enquanto a violência permanece na América Latina.

Isso vai mudar a realidade mexicana? Não vai. O mercado consumidor vai continuar. As armas vão continuar chegando.

Ônibus pegando fogo
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PCC já não pratica ações contra o Estado como fez em 2006

BBC News Brasil — Independente de a política antidrogas dos EUA ser eficaz ou não, os governos na América Latina estão mudando sua forma de agir — realizando operações mais ostensivas, como essa — por causa da pressão americana?

Uchôa — Eu não vejo mudança. O Brasil, por exemplo, luta há décadas com esse problema, e a realidade continua a mesma: você segue trabalhando com as estruturas que tem e fazendo o que é possível.

O que acontece é que a pressão dos americanos sobre a soberania desses países faz com que determinadas ações ocorram — mas isso não significa que sejam ações efetivas ou que tragam resultados concretos.

A própria Claudia Sheinbaum [presidente do México] falou, em determinado momento, que iria colocar 10 mil militares para combater isso. Mas em outros anos já tinham dito que colocariam milhares de militares também. Ou seja, não dá para saber se essas operações realmente vão produzir resultados ou se são apenas respostas à pressão externa.

A morte de um líder entrega ao Trump um troféu que ele pode sossegar e, por um tempo, deixar o México trabalhar em paz.

Mas existe um perigo grande: mesmo com a morte do El Mencho, a retaliação promovida pelo cartel pode dar ao governo americano o argumento que ele sempre quis para classificar o cartel como organização terrorista — e isso permitiria aos EUA exercer ainda mais pressão sobre o México.

E o que é interessante é que a própria organização, de certa forma, acaba corroborando o discurso do Trump. Atacar aeroportos e infraestruturas como forma de retaliação são atos terroristas. Isso justifica exatamente o discurso americano.

E é o tipo de coisa que o PCC parou de fazer.

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BBC
Daniel Gallas - Da BBC News em Londres
postado em 27/02/2026 06:03 / atualizado em 27/02/2026 06:45
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