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Fim da escala 6 x 1: entenda o tortuoso caminho que a proposta ainda tem pela frente no Congresso

Hugo Motta planeja votar votar PEC em maio no Congresso, mas presidentes do PL e do União Brasil querem segurar andamento da proposta

Presidente da Câmara, Hugo Motta, disse que debate sobre o fim da escala 6x1 será uma das prioridades do ano legislativo de 2026 -  (crédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)
Presidente da Câmara, Hugo Motta, disse que debate sobre o fim da escala 6x1 será uma das prioridades do ano legislativo de 2026 - (crédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)

O fim da escala 6x1 — aquela em que o funcionário trabalha seis dias na semana e tem apenas um dia de descanso — começou a tramitar na Câmara dos Deputados, em meio a fortes pressões a favor e contra a proposta.

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O apelo popular tornou a pauta uma das principais bandeiras do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) meses antes da eleição de outubro, enquanto o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos/PB), anunciou a proposta como uma das prioridades do ano legislativo de 2026.

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Na quinta-feira (26/2), ele disse que o fim da escala 6x1 pode ser votado em maio no plenário da Casa.

Antes, a matéria tem que passar pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), responsável por analisar se a proposta está de acordo com a Constituição brasileira, e uma comissão especial, que debaterá mais a fundo os detalhes da proposta.

A redução da escala, porém, enfrenta forte resistência de alguns partidos e de lideranças empresariais, que vão tentar adiar a chegada da pauta no plenário.

Opositores da mudança, os presidentes do PL, Valdemar Costa Neto, e do União Brasil, Antonio Rueda, disseram que vão trabalhar junto a Motta para que a proposta fique emperrada na CCJ. A fala ocorreu durante evento com empresários em São Paulo na segunda-feira (23/2).

"Vamos dar a vida pra isso", reforçou Valdemar.

A leitura dos dois é que, por ser uma proposta com forte apelo popular, será difícil evitar sua aprovação caso a matéria seja apreciada meses antes do pleito eleitoral, quando boa parte dos deputados e dos senadores tentarão renovar seus mandatos nas urnas.

A posição foi acompanhada por Rueda, que disse que o fim da escala 6x1 vai aumentar os custos de produção das empresas.

"Eu tenho uma posição pessoal. Quando você olha para qualquer país desenvolvido, essa proposta é muito danosa para a economia e para o setor produtivo. E ela é posta de maneira eleitoral. Então, é muito claro que isso aí tem por finalidade colher dividendo eleitoral", afirmou, no mesmo evento, segundo o jornal Folha de S.Paulo.

Por ser uma proposta de alteração da Constituição, a PEC precisa ser aprovada com texto idêntico na Câmara e no Senado para entrar em vigor.

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, discursando em evento de abertura do ano legislativo, em Brasília, e 2 de fevereiro de 2026
Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Presidente da Câmara, Hugo Motta, disse que debate sobre o fim da escala 6x1 será uma das prioridades do ano legislativo de 2026

Escolhido para relatar proposta, Paulo Azi diz que mudança por aumentar 'pejotização'

O deputado relator da proposta na CCJ é do partido de Rueda — Paulo Azi (União-BA) será responsável por escrever um relatório sobre a admissibilidade da proposta, ou seja, se ela está ou não de acordo com a Constituição Federal.

Ele foi escolhido com aval de Motta, que previu um prazo de 30 dias para a pauta ser votada na CCJ em março.

Em entrevista ao portal Jota, Azi disse que pretende marcar audiências públicas para debater a proposta, com representantes dos trabalhadores e do setor produtivo. Sua intenção é também ouvir os ministros do Trabalho, Luiz Marinho, e da Fazenda, Fernando Haddad.

Ele também defendeu a discussão de compensações para os setores mais afetados pela eventual redução da escala, como a adoção de benefícios fiscais.

Segundo Azi, sem esse cuidado, por haver aumento da "pejotização" (quando trabalhadores atuam como pequena empresa, em vez de ter sua carteira assinada).

"A informalidade e a pejotização, elas exercem um efeito dramático nas contas da Previdência, porque são milhões de trabalhadores que não contribuem para a Previdência Social e o rombo só faz aumentar. Então, essa alteração pode ter um efeito danoso sobre essas relações de trabalho, sim ou não?", disse ao Jota.

Defensores do fim da escala 6 x 1 dizem que a medida vai melhorar a qualidade de vida e a saúde mental dos trabalhadores, que terão mais tempo de descanso, lazer e convívio familiar.

A campanha pela mudança começou como o movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que tem como liderança Rick Azevedo, vereador do PSOL no Rio de Janeiro. Ex-balconista de farmácia, ele foi eleito após viralizar no TikTok desabafando sobre sua rotina de trabalho, com só um dia de folga por semana.

Em recente entrevista à BBC News Brasil, Azevedo rebateu as queixas de empresários contra a redução da escala de trabalho.

"Eles querem causar esse pânico econômico para continuar sugando o trabalhador seis dias na semana, para apenas um dia de folga, e receber um salário que muitas vezes não dá nem para comer."

"Se eu estivesse falando para você aqui agora, 'vamos acabar com a escravidão no país', os economistas de hoje iriam falar a mesma coisa: que o país não tem estrutura para acabar com a escravidão, que o país ia quebrar", reforçou.

Mulher pagando conta em padaria
Getty Images
Opositores da mudança dizem que aumento de custo será repassado ao consumidor final

Governo apoia redução com jornada de 40 horas semanais

A pauta ganhou visibilidade no Congresso com uma proposta de emenda constitucional (PEC) apresentada pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP) em fevereiro de 2025, que busca estabelecer ao menos três dias de descanso, com a escala 4x3.

Esse texto prevê "duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e trinta e seis horas semanais, com jornada de trabalho de quatro dias por semana".

Caso o fim da escala 6x1 seja aprovado, a tendência é que o Congresso adote uma redução menor da carga de trabalho.

O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, tem defendido a redução da jornada para 40 horas semanais.

"Não vejo o Brasil caminhar rapidamente para 36 horas semanais. Falar de 44 para 36 em uma tacada só não seria salutar e sustentável", disse em janeiro, em entrevista ao programa "Bom dia, Ministro", quando chamou a atual jornada de "cruel".

Lula defende que a mudança seja adotada sem redução da remuneração dos trabalhadores.

"Nosso próximo desafio é o fim da escala 6x1 de trabalho, sem redução de salário. O tempo é um dos bens mais preciosos para o ser humano. Não é justo que uma pessoa trabalhe duro toda a semana e tenha apenas um dia para descansar o corpo e a mente e curtir a família", defendeu, na mensagem enviada ao Congresso no início de fevereiro, sobre as prioridades do governo.

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BBC
Mariana Schreiber - Da BBC News Brasil em Brasília
postado em 27/02/2026 16:36
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