América Latina

Estudantes desafiam o medo e voltam às ruas da Venezuela

Protesto envolvendo milhares de universitários exige a libertação de todos os presos políticos, o fim da perseguição e a mudança de regime. Assembleia Nacional adia debate final sobre anistia ampla e irrestrita para a próxima semana

Pela primeira vez desde a captura do ditador Nicolás Maduro, em 3 de janeiro passado, as ruas de Caracas e das principais cidades da Venezuela ecoaram palavras de ordem, como "Não temos medo!". Nas redes sociais, venezuelanos comemoraram os protestos ecoando versos da cantora chilena Violeta Parra: "Viva os estudantes! Jardim da nossa alegria! São pássaros que não têm medo de animais ou da polícia. E não têm medo de balas, nem do latido da matilha". Enquanto milhares de estudantes aproveitavam o Dia da Juventude para protestar e pedir a libertação de todos os prisioneiros políticos — a imensa maioria dos manifestantes nem sequer tinha nascido quando o chavismo ascendeu ao poder —, a Assembleia Nacional (controlada pelo regime criado pelo ex-presidente Hugo Chávez) debatia um projeto de lei de anistia ampla. Depois de horas de discussões, os parlamentares adiaram para a próxima semana o debate final sobre o texto.  

"Prisioneiros, nossa rebelião se incendeia". A frase estampava uma faixa estendida sobre o arco da entrada da Universidad Central de Venezuela (UCV), em Caracas. Miguelangel Suárez, presidente da Federação dos Centros Universitários da Universidad Central de Venezuela (UCV), disse ao Correio que cerca de 5 mil estudantes participaram dos protestos em Caracas. "As manifestações foram uma oportunidade para que mais jovens possam se somar a nós e erguer a voz. Acho que mais e mais jovens se unirão a nós, ao longo deste caminho. Dentro de alguns meses, seremos dezenas de milhares", garantiu. 

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Representante estudantil da Faculdade de História da instituição, Franco Gil contou ao Correio que o protesto em Caracas foi permeado pela esperança e por um apelo, por parte dos universitários, das mães de presos políticos e da sociedade civil para a aplicação de uma Lei de Anistia. "Queremos que ela não exclua ninguém e permita a volta dos exilados", explicou. "Há muito simbolismo na jornada desta quinta-feira. Os protestos coincidem com o 212º aniversário do 12 de fevereiro de 1814, quando os estudantes da Universidad de Caracas, hoje UCV, e os seminaristas deram as vidas em uma batalha pela independência."

Liberdade

Gil chegou ao local da concentração às 10h pelo horário local (11h em Brasília). "Assim como no passado, nós, estudantes e jovens venezuelanos, estamos nas ruas reclamando nossa liberdade, o fim da repressão e uma transição e que nos leve a um processo em que sejamos uma sociedade livre", concluiu. Segundo ele, os principais gritos de ordem no ato desta quinta-feira (12/2) incluíram "Liberdade para os presos políticos", "Não mais repressão" e "Chavismo fora do poder". 

Para José Vicente Carrasquero Aumaitre, professor de ciência política da Universidad Simón Bolívar (USB, também de Caracas), os protestos estudantis e o ativismo da sociedade "são indicadores claros de que a demanda pela liberdade plena e pela justiça não se resolve com concessões parciais". "O fato de estudantes, familiares e ativistas terem atendido às convocações — especialmente em 17 departamentos (estados) e com consignas como 'anistia total' — mostra que não existe confiança em um projeto de lei que exclui muitos prisioneiros, nem em um processo legislativo que parece fechado e pouco transparente", avaliou à reportagem, por meio do WhatsApp. "Essa mobilização é um reflexo da repolitização de amplos setores da sociedade e da urgência sentida pela cidadania por uma solução integral, que verdadeiramente restitua direitos e liberdades."

"O petróleo começa a fluir", comemora Trump

Em publicação na sua rede Truth Social, o presidente Donald Trump assegurou que "as relações entre Venezuela e Estados Unidos têm sido, para dizer o mínimo, extraordinárias!". "Nós estamos lidando muito bem com a presidente Delcy Rodríguez e seus representantes. O petróleo começa a fluir e vastas grandes quantias de dinheiro, não vistas há muitos anos. Em breve, ajudarão muito o povo da Venezuela", escreveu. De acordo com ele, o secretário de Estado, Marco Rubio, está fazendo um "trabalho fantástico". 

EU ACHO...

Arquivo pessoal - Miguelangel Suárez, presidente da Federação dos Centros Universitários da Universidad Central de Venezuela (UCV)

"Foi um protesto histórico. Creio que foi a maior mobilização desde janeiro de 2025. Os venezuelanos se mobilizaram para apoiar sua juventude em várias cidades do país, nos departamentos de Caracas, Carabobo, Arágua, Bolívar e Yaracuy. Em todo o país houve protestos. As principais demandas dos estudantes são o fim da repressão e a liberdade dos prisioneiros políticos. Também queremos que os jovens tenham a oportunidade de construir um país decente e com oportunidades. Queremos sentar à mesa e tomar decisões políticas, que nos afetem diretamente."

MIGUELANGEL SUÁREZ, presidente da Federação dos Centros Universitários da Universidad Central de Venezuela (UCV) e líder dos protestos 

Países se mobilizam por Cuba

Adalberto Roque/AFP - O navio mexicano Papaloapan chega à Baia de Havana com ajuda humanitária

Dois navios do México atracaram no porto de Havana com mais de 800 toneladas de ajuda humanitária para Cuba. A ilha caribenha está mergulhada em profunda crise econômica agravada por pressões de Washington. Rússia e Chile também prometeram enviar assistência. A chegada dos navios Papaloapan (foto) e Isla Holbox, enviados pela presidente esquerdista Claudia Sheinbaum, ocorre enquanto o México negocia um eventual fornecimento de petróleo ao país sem ser sancionado pelos EUA. De acordo com o governo mexicano, as embarcações transportaram 814t de leite líquido e em pó, carnes, biscoitos, feijão, arroz e itens de higiene pessoal. No Chile, o governo de Gabriel Boric confirmou que pretende enviar ajuda humanitária a Cuba, "levando em conta a dramática situação". A Rússia deve fornecer petróleo ao aliado.

 

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