Depois de um domingo (22/2) de medo e de tensão, o México mobilizou um efetivo de 10 mil militares para tentar restabelecer a segurança no oeste do país, tomado pelo caos após uma operação militar que matou um chefão do narcotráfico. A presidente mexicana, Claudia Scheinbaum, anunciou que o país começa a restabelecer a rotina, ao prestar uma homenagem às forças de segurança pelo envolvimento na captura e morte de Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como "El Mencho", líder máximo do Cartel Jalisco Nueva Generación. "Quero fazer um reconhecimento especial à Defesa Nacional, ao general Ricardo Trevilla Trejo (secretário de Defesa), ao Exército, à Guarda Nacional e à Força Aérea. Realmente, o México tem forças armadas extraordinárias, são homens e mulheres preparados, profissionais com muita visão e muito patriotismo, e com uma enorme preparação", declarou Scheinbaum.
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A presidente admitiu que a troca de inteligência com autoridades dos Estados Unidos ajudou na captura de "El Mencho", que morreu a caminho da Cidade do México. "Todas as operações são feitas pelas forças nacionais. (...) Toda a operação, desde seu planejamento, é das forças federais, neste caso, da Defesa Nacional", acrescentou. Por sua vez, o titular da Casa Branca, Donald Trump, pressionou o país vizinho a ampliar o escopo de sua guerra ao narcotráfico. "O México deve intensificar seus esforços contra os cartéis e contra as drogas", reagiu o republicano, em sua plataforma Truth Social.
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Durante um balanço da operação de domingo, Trevilla chorou ao abordar a morte de militares e garantiu que a eliminação de "El Mencho" demonstrou a fortaleza do Estado mexicano. Durante a incursão, ao menos 25 membros da Guarda Nacional, um guarda penitenciário, uma mulher e um funcionário da Procuradoria Geral da República morreram, além de 30 criminosos. As autoridades mexicanas revelaram que uma das namoradas de Nemesio Oseguera foi peça fundamental para a localização do narcotraficante no povoado de Tapalpa, no oeste do país. A inteligência militar mexicana e o Comando Norte dos EUA descobriram que uma mulher se reuniria, na sexta-feira passada, com "El Mencho", na localidade, a 130km de Guadalajara, capital de Jalisco. Um homem de confiança de "uma das companheiras sentimentais de 'El Mencho'" acompanhou-a até uma casa em Tapalpa. A mulher deixou a residência no dia seguinte, mas o chefão do cartel permaneceu lá com sua equipe de segurança.
Moradora de Puerto Vallarta, uma das principais cidades afetadas pelas barricadas em chamas, Norma (nome fictício) relatou ao Correio que o balneário experimentava, ontem, uma "tensa calma". "As pessoas fazem filas nas poucas lojas abertas. Farmácias e minimercados perto de minha casa foram todos queimados ou saqueados", contou. Quando os ataques começaram, no domingo, Norma recebeu mensagens de texto e de áudio, por meio do WhatsApp, de amigos e de sua mãe, preocupados com os últimos acontecimentos. "Eles disseram ter escutado explosões e visto colunas de fumaça por todos os lados. Os narcotraficantes jogaram pregos contra os pneus de carros, nas rodovias, e meu avô ficou preso no trânsito por um bom tempo. Durante todo o domingo, os serviços de Uber e o transporte público foram suspensos. Escutei o barulho de helicópteros, à tarde. O governo aconselhou-nos a não sairmos de casa."
Para Raúl Benítez Manaut, especialista em Segurança Nacional pela Universidad Nacional Autónoma de México, ainda não se pode calcular o impacto exato da morte de "El Mencho". "Seus sucessores certamente não se encontram na família. Isso faz com que as ascendências de 'El Mencho' se distribuam entre seus lugares-tenentes. Como em toda organização criminal, há dois setores: os que gerenciam o dinheiro e os que manejam as balas e a violência. É difícil saber qual deles predomina ou se há uma negociação entre eles", disse ao Correio. "Pode ser que ocorra ao Cartel Jalisco Nueva Generación o que aconteceu ao Cartel de Sinaloa, o qual se dividiu em dois, depois de 20 anos de união por laços familiares."
Professor do Colegio de La Frontera Norte (em Tijuana), o mexicano Vicente Sánchez Munguia não descarta que a violência possa se espalhar para outras regiões do país. "Há uma grande probabilidade de isso ocorrer, graças à extensão da presença de territorial do Cartel Jalisco Nueva Generación, que opera em 23 estados, e à estrutura da organização. Ela opera ao mobilizar grupos locais ou regionais como se fossem franquias. É muito provável que esses grupos provoquem conflitos, pois têm atuado cada vez mais de forma autônoma", explicou ao Correio.
De acordo com Munguia, informações de que o Cartel Jalisco Nueva Generación estaria preparando ataques durante a Copa do Mundo de futebol, em Guadalajara, sede da organização, em junho, teriam precipitado a ação que levou à morte de "El Mencho". "O secretário de Segurança do México, Omar García Harfuch, também foi alvo de uma tentativa de assassinato por parte deste mesmo cartel (em 2020). Depois de ser desmembrado do Cartel de Sinaloa, o cartel de 'El Mencho' ingressou em uma dinâmica expansiva e, hoje, está envolvido no recrutamento de adolescentes, no desaparecimento forçado de pessoas e na extorsão, importante para o seu desenvolvimento econômico."
EU ACHO...
"A presidente Claudia Scheinbaum herdou uma política de segurança que implicava em deixar de atacar as organizações criminosas para combater as causas da violência, como a pobreza. Existe uma pressão por parte do governo dos Estados Unidos e um empoderamento territorial por parte do Cartel Jalisco Nueva Generación. Essa organização do narcotráfico penetra partidos políticos, inclusive o governista Morena. O comunicado do governo federal reconhece que a operação de domingo teve assistência da inteligência dos Estados Unidos."
Vicente Sánchez Munguia, especialista em segurança e professor do Colegio de La Frontera Norte (em Tijuana)
"Não se sabe se o Cartel Jalisco Nueva Generación reagirá nos próximos dias. Se haverá mais ações violentas ou se darão uma espécie de armistício, a fim de se reagruparem. Houve muitas ações paramilitares, incendiando carros e atacando estabelecimentos comerciais. O governo capturou muitos membros do cartel em Oaxaca, Guerrero, Chiapas, Michoacán e Guadalajara. Apenas a primeira página dessa história do Cartel Jalisco Nueva Generación está sendo escrita. Será possível como o governo capacitará a neutralização das células criminais."
Raúl Benítez Manaut, especialista em Segurança Nacional pela Universidad Nacional Autónoma de México
PARA SABER MAIS - Reinado de terror e canibalismo
A captura ou a morte de Nemesio Oseguera Cervantes, nascido em 17 de julho de 1966, valia US$ 15 milhões (cerca de R$ 77,4 milhões). "El Mencho" erigiu um reinado de terror na liderança do Cartel Jalisco Nueva Generación, fundado por ele em 2009. Em 17 anos, tornou-se uma das organizações do narcotráfico mais poderosas do México, que iniciava seus integrantes com um ritual macabro: eram obrigados a consumir a carne de seus rivais, a fim de demonstrar lealdade. A organização criminosa de "El Mencho" também costuma assassinar seus inimigos com o uso de lança-chamas e decapitar suas vítimas, gravando as execuções em vídeo.
O chefe do tráfico morto no domingo era um dos principais responsáveis pelo envio de heroína, cocaína, metanfetamina e fentanil para os Estados Unidos, segundo o governo americano. Os negócios do cartel se expandiram para outras atividades criminosas, como extorsão, roubo de combustível e tráfico de pessoas, segundo a agência antidrogas americana (DEA), crimes que lhe garantem forte renda e grande capacidade econômica.
Em diversas ocasiões, o Cartel Jalisco Nueva Generación divulgou imagens de seus pistoleiros exibindo armamento e veículos blindados, além de ter atentado em 2020 contra o atual secretário de Segurança Pública, Omar García Harfuch, quando este era chefe da polícia na capital. Também esteve por trás, em novembro, do assassinato do prefeito de Uruapan, Carlos Manzo.
DEPOIMENTO - "Podemos perceber o medo e a incerteza"
"No domingo, eu planejava sair com a minha esposa e tomar café na Zona Romântica de Puerto Vallarta. Mas nenhum táxi quis nos levar. Decidimos voltar ao hotel. Quando vimos uma grande fila no estabelecimento, saímos novamente. Para nossa surpresa, tinham incendiado um carro no cruzamento da Avenida Francisco Medina Ascencio com a Playa de Oro. Retornamos ao hotel e começamos a ver o noticiário sobre múltiplos incêndios em toda a cidade. Subimos ao terraço para termos uma vista melhor e fizermos vários vídeos. As orientações da gerência era para que não saíssemos.
É um pouco angustiante, pois você teme por sua segurança e o governo não informa nada. À noite, informaram-nos sobre o cancelamento de nosso voo para a Cidade do México e reagendaram nosso retorno para 25 de fevereiro. Estamos contra a nossa vontade no hotel e tivemos que pagar por duas diárias a mais. A situação atual é de aparente calma, mas ainda podemos perceber o medo e a incerteza. Soube que há gente buscando comprar comida e água perto de nosso hotel."
Enrique Mendoza, 32 anos, comerciante, natural da Cidade do México, turista em Puerto Vallarta
