
Até poucos dias atrás, as imagens de drones interceptados no céu, destroços caindo na rua e prédios pegando fogo estavam fora do radar de quem vive e visita algumas das cidades mais prósperas do Oriente Médio, como Dubai e Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, e Doha, no Catar.
Mas tudo isso passou a ser realidade desde o sábado (28/2), quando os EUA e Israel realizaram ataques contra o Irã, matando o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei.
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Os iranianos revidaram, atingindo não só o território israelense e militares americanos, mas também alvos nos Emirados Árabes, no Catar, no Bahrein, no Kuwait, em Omã, no Iraque e na Jordânia.
Segundo o Irã, esses países se tornaram alvo dos ataques porque possuem bases ou presença militar americana.
"Todos os territórios ocupados e as bases criminosas dos Estados Unidos na região foram atingidos pelos potentes impactos dos mísseis iranianos. Esta operação continuará sem descanso até que o inimigo seja derrotado de forma decisiva", afirmou a Guarda Revolucionária do Irã.
Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã defendeu o direito do país de revidar e disse não estar mirando os países vizinhos, mas o que seria "solo americano".
"Aos países da região: não estamos buscando atacá-los. Mas quando as bases localizadas em seu país são usadas contra nós, e quando os Estados Unidos realizam operações na região contando com essas forças, então atacaremos essas bases. Pois essas bases não fazem parte do território desses países; na verdade, são solo americano", disse Larijani.
Áreas civis atingidas
Mas imagens que ganharam as redes sociais e agências de notícias mostraram que os drones e mísseis do Irã alcançaram muito além de instalações militares.
Só os Emirados Árabes Unidos, um dos mais atingidos, receberam até a tarde deste domingo 67 mísseis e 541 drones iranianos, segundo o governo.
Desses drones, 35 caíram em território do país, resultando em três mortes.
Uma dessas mortes ocorreu na área do aeroporto de Abu Dhabi, atingido por destroços de um drone.
Já o aeroporto de Dubai, o segundo mais movimentado do mundo em tráfego de passageiros, foi danificado no que o governo chamou de "incidente" que deixou quatro funcionários feridos.
Com os ataques, o espaço aéreo da região está fechado e centenas de voos foram cancelados, deixando milhares de turistas ainda sem perspectiva de voltar a seus países, inclusive o Brasil.
Um deles é Ricardo Ferreira, assessor artístico brasileiro que está sem sair de seu quarto de hotel em Abu Dhabi, capital emiradense a pouco mais de 100 km de Dubai.
Ferreira estava a trabalho nos Emirados Árabes com mais 16 pessoas e tinha a volta programada de Dubai para São Paulo na manhã deste domingo (1º/3). Agora, ele não faz mais ideia de quando conseguirá retornar.
O brasileiro, que disse nunca ter imaginado passar por algo parecido nos Emirados Árabes, ouviu estrondos e viu caças e mísseis atravessando o céu de Abu Dhabi no sábado, sem saber que estava em meio a ataques do Irã.
"Fomos pegos totalmente de surpresa, porque a gente estava sem informação nenhuma. A gente não tinha ideia de que isso estava para acontecer ou poderia acontecer", relata.
O grupo só começou a entender o que estava acontecendo quando recebeu notícias de familiares e da imprensa brasileira.
"Conforme foi passando o tempo, nós fomos ouvindo mais explosões, ficamos sabendo dos destroços que atingiram um dos hotéis mais famosos daqui. Aí sim que começou mais o pânico, mais o desespero", relata.
Na famosa ilha artificial em forma de palmeira Palm Jumeirah, em Dubai, a região do hotel cinco estrelas Fairmont foi atingida por uma grande explosão no sábado.
Destroços de um drone também provocaram um pequeno incêndio na fachada do icônico hotel em forma de vela Burj Al Arab.
Segundo Ferreira, há fila na porta do hotel de turistas que não conseguiram voar em busca de hospedagem.
A situação também pegou de surpresa quem mora em Dubai.
A moradora Becky Williams disse à BBC ter visto cerca de 15 mísseis "lançados atrás da minha casa ontem", referindo-se aos mísseis disparados pelas autoridades dos Emirados para interceptar projéteis iranianos.
"É possível ouvir as interceptações acontecendo no ar."
Satya Jaganathan, que mora perto do porto de Dubai atingido por explosões, diz que a situação "ainda está relativamente calma, já que há apenas barulhos altos a cada poucas horas".
"Mas é inquietante porque este não é o Dubai ao qual estamos acostumados".
Na noite deste domingo, um alerta no celular pediu para que as pessoas procurassem abrigo e ficassem longe de janelas diante da possibilidade de mais ataques.
Nas últimas semanas, líderes do Golfo Pérsico vinham tentando mediar conversas para que a situação não escalasse entre Estados Unidos e Irã. Mas os esforços não adiantaram.
Ainda não se sabe com certeza quais eram os objetivos do Irã com os ataques aos Emirados Árabes Unidos, que são um de seus maiores parceiros comerciais.
Mas o país tem presença militar americana, especialmente na base aérea Al Dhafra, ao sul de Abu Dhabi, que abriga aeronaves da Força Aérea americana e sistemas de defesa antimísseis. Além disso, o porto de Jebel Ali, em Dubai, um dos mais movimentados da região, recebe navios da Marinha dos EUA.
Na vizinhança, também foram registrados ataques à base da marinha americana no Bahrein, onde drones e destroços de um míssil interceptado atingiram prédios na capital Manama.
Também houve explosões em Doha, capital do Catar, onde mísseis direcionados à base aérea de Al Udeid, a maior base militar americana na região, foram interceptados.
O luxuoso aeroporto da capital catari, frequentemente eleito um dos melhores do mundo e um dos maiores hubs globais de conexões entre Oriente e Ocidente, teve todos os voos suspensos.
O Ministério das Relações Exteriores do Catar afirmou que o ataque feito por um vizinho "não pode ser aceito sob qualquer justificativa ou pretexto", ressaltando que o Catar sempre se manteve distante de conflitos regionais.
A base americana do país já havia sido alvo do Irã em junho do ano passado, quando o Irã revidou os ataques que destruíram instalações nucleares no país.
Já o Ministério da Defesa do Kuwait afirmou que sua força aérea interceptou e destruiu 97 mísseis balísticos e 283 drones desde que o Irã lançou contra o país, segundo a agência oficial de notícias.
Segundo análise de Frank Gardner, correspondente de Segurança da BBC, uma linha vermelha foi cruzada no Golfo Pérsico diante dos ataques do Irã aos seus vizinhos.
Para ele, é difícil imaginar como as famílias que governam esses Estados árabes poderão retomar relações minimamente normais com a atual liderança iraniana, caso ela sobreviva a esta guerra.
Para Gardner, a escalada na região "é mais grave e perigosa do que qualquer outra coisa anterior".
Enquanto os desdobramentos do conflito seguem rasgando o céu do Oriente Médio, influenciadores e milionários que escolheram Dubai como casa nos últimos anos seguem compartilhando conteúdo, dessa vez com menos luxo.
O criador de conteúdo britânico Will Bailey atualizava seus seguidores filmando os rastros de fumaça deixados por mísseis e foguetes interceptadores no horizonte de Dubai.
"Aquilo estava a poucos metros de nós", diz ele em um vídeo gravado perto do hotel Fairmont
À agência AFP, a jornalista Emma Ferey, cujo romance de 2024, Emirage, retrata a cena de influenciadores nos Emirados Árabes, disse que "é possível perceber ansiedade" entre eles.
"Mesmo sabendo que falar de política — ou pior, geopolítica — significa correr o risco de perder seguidores."

