
Faz duas noites que a diretora de marketing Yasmin Castro mal consegue dormir. Ela viajou a trabalho para Dubai com um grupo de brasileiros e foi pega de surpresa pelo ataque dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã no sábado (28/2).
Apesar de não estar em nenhum dos três países envolvidos diretamente no conflito, ela diz que ouve com frequência barulhos de bombas e mensagens que o governo dos Emirados Árabes Unidos envia aos celulares de quem está na região para alertar que a cidade está sendo atacada.
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"É um barulho muito diferente. É alto, mas é meio abafado, e a gente tem visto que chega em série: uma, duas, três vezes seguidas. Mas não dá para explicar, porque a gente nunca ouviu isso antes", ela conta à BBC News Brasil por videoconferência.
Junto ao marido, Yasmin está, como diz, "no meio do fogo cruzado". Símbolo máximo do luxo contemporâneo, Dubai, que virou casa de muitos influenciadores e celebridades nos últimos anos, tem sido atacada pelo Irã por abrigar militares americanos.
Um de seus portos, o de Jebel Ali, recebe navios da Marinha dos Estados Unidos, por exemplo. Dubai não registrou nenhuma morte, mas já soma quatro feridos. Eram funcionários do aeroporto da cidade, que foi danificado por ataques iranianos e permanece fechado nesta segunda-feira (2/3).
A brasileira conta que, quando o conflito começou, estava em Abu Dhabi, um emirado que tem sofrido ataques de forma mais agressiva — ao sul, a cidade abriga a base aérea Al Dhafra, que guarda aeronaves da Força Aérea americana e sistemas de defesa antimísseis.
Abu Dhabi também teve seu aeroporto, o segundo mais movimentado do mundo, alvejado pelo Irã. Uma pessoa morreu próximo ao local, ao ser atingida por destroços de um drone.
Yasmin conta que descobriu a guerra não pela televisão, pelo rádio ou pelas redes sociais, como a maioria dos brasileiros, mas pelo barulho que ouviu assim que chegou a um restaurante para almoçar após uma corrida de kart.
Ao ver as janelas tremerem, seu grupo desistiu do almoço e do passeio de helicóptero que tinham agendado para a tarde e decidiu voltar imediatamente para Dubai, sua base na região.
Eles procuraram ajuda no hotel onde estão hospedados, que improvisou uma espécie de bunker no estacionamento do prédio, de onde, ela conta, a sensação de segurança é maior, pois não dá para ouvir nada. O medo, porém, ainda se impõe.
"Quando tocou o alarme, fiquei com medo de a gente sofrer algum ataque. Foi bem assustador, porque o alarme que toca no celular, a sirene, assusta mais ainda. Parece que vai cair uma bomba na sua cabeça a qualquer momento", ela diz.
'Os brasileiros estão mais assustados'
Até o domingo (1º/3), os Emirados Árabes Unidos foram atingidos por 67 mísseis e 541 drones iranianos, dos quais 35 não puderam ser bloqueados e resultaram em três mortes, de acordo com o Ministério da Defesa do governo local.
A diretora de marketing diz que todos os eventos e reuniões que tinha em Dubai acabaram cancelados, assim como os planos de turismo nas horas vagas, mas conta que vê esse receio mais por parte dos brasileiros, desacostumados a conflitos como este, do que por turistas de outras nacionalidades ou moradores da região.
"Só brasileiros desceram para o subsolo. Até tinha um casal que não era brasileiro e duas russas, que estavam com uma bebezinha, mas apenas um pequeno grupo desceu. Dá para ver que os brasileiros estão mais assustados do que as outras pessoas, tanto que a piscina do hotel está lotada. A cidade até está um pouco mais vazia, mas muita gente está vivendo normalmente", ela conta.
Yasmin diz acreditar que o restante talvez não compartilhe do mesmo medo porque acredita na capacidade do sistema de defesa antiaérea, capaz de interceptar mísseis, aeronaves e drones a uma distância de até 160 quilômetros de cidades como Dubai e Abu Dhabi, centros financeiros da região e também muito procuradas por turistas.
"Quando começou, a gente tinha medo dos ataques, mas as pessoas do hotel nos tranquilizaram muito. Eles confiam muito no sistema de defesa, então a gente fica um pouco mais tranquilo. A gente viu a quantidade de mísseis e drones que foram interceptados, então a gente confia também."
Retorno ao Brasil permanece incerto
A presença de brasileiros na região, aliás, é constante. Em 2023, 183 mil turistas do país visitaram os Emirados Árabes Unidos, um aumento de 46,4% em relação ao ano anterior, segundo o governo local.
São dezenas de voos diretos de longa duração que conectam os dois países mensalmente, operados por companhias como a Emirates e a Qatar Airways a partir dos aeroportos de Guarulhos, na Grande São Paulo, e do Galeão, no Rio de Janeiro. No momento, contudo, todos estão inoperantes.
Até a tarde desta segunda-feira, não havia previsão para a reabertura do aeroporto de Dubai. Yasmin diz que seu voo de volta a São Paulo deveria acontecer no próximo sábado (7/3), mas ainda é incerto se será possível viajar.
"A preocupação maior já não são os ataques. É ficar preso aqui. A gente sabe que isso pode acontecer. A gente acredita que o aeroporto não vai abrir até o dia 7", diz. "Mesmo que abra o aeroporto, vai ter muita procura de pessoas que deviam ter ido embora antes e não foram. Não sabemos nem se a gente consegue pegar os voos, mas assim que abrir o aeroporto a gente quer ir embora."
Ao ser questionada se planeja um retorno à região para concretizar os planos que não foram possíveis desta vez, Yasmin fica dividida. "Meu marido até falou para a gente voltar com calma para conhecer, mas não quero nunca mais. Sei que provavelmente a gente vai voltar, mas é uma sensação estranha. Sou muito ansiosa, e só de saber que estou no fogo cruzado me dá uma agonia."
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