
A poucos metros do bairro histórico da antiga Dubai e às margens do canal que divide o coração da cidade, uma coluna de fumaça tomou conta do céu no fim da noite desta terça-feira (3/3).
Como o governo do Emirado confirmaria, era mais um ataque a drone do Irã que atingira a cidade desde o início do conflito contra Israel e Estados Unidos.
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O novo ataque mirou o consulado dos Estados Unidos e, segundo os americanos, atingiu um estacionamento, sem feridos.
Mais cedo, em outro ataque, um drone iraniano rasgou o céu e atingiu a Embaixada dos EUA em Riad, capital da Arábia Saudita.
Esses foram os mais novos exemplos de como o conflito — iniciado com o ataque que matou o aiatolá Ali Khamenei — está tendo repercussões sérias na região do Golfo Pérsico (ou Golfo Arábico, para os árabes). Isso é: Emirados Árabes Unidos (UAE), Catar, Bahrein, Kuwait, Omã e Arábia Saudita.
Segundo o Irã, os alvos são as bases militares americanas nesses países, mas destroços e drones já atingiram prédios, hotéis e aeroportos pela região.
Ainda não dá para saber se o Irã quis mesmo atingir áreas turísticas e simbólicas ou se isso é resultado colateral da tentativa de atingir alvos americanos, avalia o professor Daniel Rio Tinto, especialista em segurança internacional na Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV)
Mas o fato é, na visão de Rio Tinto: sendo ou não intencional, o Irã quer mostrar para os países do Golfo, todos ao seu alcance, de que cooperar com os Estados Unidos não é algo que vem sem custo.
"Isso é uma maneira de dizer: se você está permitindo que os americanos me ataquem a partir do seu território, ou se você não está se opondo a que os americanos tragam a guerra aqui para minha porta, você vai ter que pagar algum preço", diz.
Por anos, os líderes do Irã tentaram persuadir os Estados do Golfo Pérsico a expulsar os militares dos Estados Unidos da região e se voltarem ao Irã para proteção — sem sucesso.
Mas por que esses países permitem a presença americana, ao mesmo tempo que mantêm relações com o Irã?
A resposta vem dos interesses estratégicos e geopolíticos dos dois lados.
A principal base americana no Oriente Médio é a de Al Udeid, no Catar. Para os EUA, os objetivos são claros: estar próximo de seus alvos na região. Para os catari, o retorno vem de uma relação mais benéfica com Washington, explica o professor.
"Pode ser que o Catar não veja utilidade nenhuma, imediata, concreta, de ter uma base americana ali, mas pode ser que isso seja um trade off para conseguir apoio dos EUA em demandas de política externa", diz o especialista.
O termo em inglês fala de um conflito de escolha em que é necessário abrir mão de um benefício (perda) para obter outro (ganho).
Outro exemplo dessa relação é a Arábia Saudita, que permite presença militar americana — e, em troca, os EUA apoiam o governo do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman e ajudam, inclusive, a legitimá-lo no cenário internacional.
Os analistas também avaliam que, ao exportar o conflito para além de suas fronteiras e do território de Israel, o Irã mostra ao mundo os riscos globais de se mexer com o país.
Afinal, estamos falando de alguns dos maiores destinos turísticos e centros de conexão de voos do mundo, como Dubai e Doha. Milhares de turistas se encontram agora nessas cidades, sem poder voltar para suas casas.
Imagem de 'ilha de segurança' prejudicada?
A repercussão dos ataques ao Golfo é simbólica especialmente nos Emirados Árabes Unidos, país que nos últimos anos se tornou um dos maiores polos turísticos do mundo, vendendo a imagem de luxo, segurança e oportunidades de negócios.
Nesta terça, o Ministério da Defesa dos Emirados Árabes afirmou que suas defesas aéreas destruíram 172 mísseis desde que o Irã lançou seus ataques na região. Outros treze caíram no mar e um atingiu o território do país.
O ministério detectou ainda 812 drones iranianos, interceptando 755 deles. Cinquenta e sete caíram no país.
Os Emirados Árabes Unidos também detectaram e destruíram oito mísseis de cruzeiro "que causaram alguns danos colaterais, além de resultar em três mortes e 68 ferimentos leves", bem como danos a "instalações civis".
Uma dessas mortes ocorreu no aeroporto de Abu Dhabi, quando uma pessoa foi atingida por destroços de um drone interceptado que ia em direção ao terminal, segundo a administração do aeroporto.
Já o Aeroporto de Dubai, o segundo mais movimentado do mundo em tráfego de passageiros, foi danificado no que o governo chamou de um "incidente" que deixou quatro funcionários feridos
Uma grande explosão também foi registrada em um hotel cinco estrelas na ilha artificial de Palm Jumeirah.
E destroços de um drone provocaram um pequeno incêndio na fachada do icônico hotel em forma de vela Burj Al Arab.
A Amazon fechou temporariamente seu data center nos Emirados Árabes Unidos após ele ser atingido.
Especialista no Golfo Pérsico do centro de pesquisas Conselho Europeu de Relações Exteriores, Cinzia Bianco escreveu no X:
"Este é o pesadelo definitivo de Dubai, já que sua própria essência dependia de ser um oásis seguro em uma região conturbada", escreveu. "Pode haver uma maneira de ser resiliente, mas não há como voltar atrás".
Para o professor Rio Tinto, essa ideia de ser uma ilha estável em um Oriente Médio instável pode ter balançado, mas o dano tende a ser de curto prazo, a depender de quão duradouro será o conflito.
"A gente está falando de um lugar que tem uma infraestrutura turística incrível e que eu acho que não vai perder isso no longo prazo, a não ser que de fato exista uma completa reconfiguração política da região, e isso faça com que constantemente haja uma ameaça", diz.
O pesquisador traça um paralelo com o Egito, país que segue recebendo muitos turistas apesar de haver momentos em que os países europeus não recomendam viagens devido a conflitos na região.
Mas, além dos danos ao turismo, pode haver uma reconfiguração geopolítica naquela região.
Segundo análise de Frank Gardner, especialista em Segurança da BBC, uma linha vermelha foi cruzada pelo Irã.
Para ele, é difícil imaginar como as famílias monárquicas que governam esses países do Golfo poderão retomar relações minimamente normais com a atual liderança iraniana, caso ela sobreviva a esta guerra.
Além disso, países como Catar, Omã, Arábia Saudita e Emirados Árabes têm atuado nos últimos anos como mediadores de conflitos globais, quase como território neutro.
O Catar, por exemplo, ganhou status de pacificador nas últimas duas décadas. O país desempenhou papel importante na intermediação do atual cessar-fogo em Gaza entre Israel e o Hamas, e ajudou a trazer muitas outras tréguas antes disso.
Uma razão fundamental para isso é que o Catar queria desenvolver uma reserva de gás no Golfo chamada North Dome/South Pars, que havia sido descoberta em 1990.
Como o campo se espalhava pelas águas territoriais do Catar e do Irã, o Catar precisava cooperar com o Irã para fazer isso — embora o Irã fosse adversário da Arábia Saudita na época, explicou à BBC H.A. Hellyer, do Royal United Services Institute em Londres, Reino Unido.
O papel de mediador da paz do Catar está consagrado na Constituição adotada em 2004.
Mas esse papel também pode ficar abalado.
"A coisa muda muito quando a gente passa a falar de ações militares diretas. Fica muito mais difícil você tratar as relações como se nada tivesse acontecido, uma vez que o outro país jogou um míssil contra você", diz Rio Tinto.
"Eu acho que provavelmente a gente não vai ver mais esses países se apresentando como mediadores. A gente não vai ver mais uma relação boa entre esses países."

