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'O estupro não acontece no beco escuro. A garota do Rio foi atacada durante uma relação em que depositou muita confiança', diz escritora

Investigação de estupro coletivo envolvendo alunos de instituições tradicionais do Rio expõe dimensão íntima do crime, afirma a jornalista Adriana Negreiros

'O estupro não acontece no beco escuro. A garota do Rio foi atacada durante uma relação em que depositou muita confiança', diz escritora -  (crédito: Divulgação/PCERJ)
'O estupro não acontece no beco escuro. A garota do Rio foi atacada durante uma relação em que depositou muita confiança', diz escritora - (crédito: Divulgação/PCERJ)

Em 2021, a jornalista Adriana Negreiros rompeu um silêncio ao publicar A Vida Nunca Mais Será a Mesma. No livro, narra em primeira pessoa o trauma da violência sexual e analisa como ela se estrutura no Brasil.

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Dezoito anos antes, em maio de 2003, ela foi vítima de um estupro durante um sequestro-relâmpago ao sair do Shopping Eldorado, na zona oeste de São Paulo.

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"Meu caso, em que fui atacada por uma pessoa que eu nunca tinha visto, no estacionamento de um shopping center, e levada de fato para um lugar escuro, é muito atípico", diz. "É um crime muito cometido na intimidade, por pessoas do círculo de confiança da vítima."

"E esse caso do Rio revela muito isso também. Eram pessoas do círculo de confiança da garota", segue a escritora, comentando o caso investigado no Rio de Janeiro, que mobilizou o país em torno do tema nesta semana.

A Justiça decretou a prisão preventiva de quatro jovens que se tornaram réus sob acusação de ter praticado estupro coletivo contra uma adolescente de 17 anos. Há ainda um rapaz menor de idade acusado de envolvimento. Os réus negam o crime.

De acordo com a denúncia, o ataque ocorreu em 31 de janeiro, em um apartamento em Copacabana, e foi classificado pela polícia como "emboscada planejada".

Segundo as investigações, a adolescente foi convidada por mensagem pelo ex-namorado para ir à casa de um amigo. Ao chegarem ao prédio, ele teria insinuado que fariam "algo diferente", proposta recusada por ela.

Enquanto mantinham uma relação sexual consensual, outros quatro rapazes entraram no quarto. Violências sexuais e físicas foram relatadas no depoimento da vítima, cometidas por todos os homens.

Segundo o portal G1, o exame de corpo de delito da garota apontou lesões compatíveis com violência física. A perícia identificou infiltrado hemorrágico e escoriação na região genital, além de sangue no canal vaginal, e manchas nas regiões dorsal e glúteas. A polícia colheu material para exame de DNA

Entre os envolvidos estão estudantes e ex-estudantes de instituições de prestígio, como o Colégio Pedro 2º, tradicional escola federal do Rio.

Um dos réus, Vitor Hugo Oliveira Simonin, é filho de um subsecretário do governo estadual. Ele se entregou à polícia. Outros dois, Matheus Veríssimo Zoel Martins e João Gabriel Xavier Bertho, também se apresentaram e foram presos.

"João Gabriel nega estupro e não teve sequer a oportunidade de ser ouvido pela polícia", disse a defesa do réu.

A Polícia Civil informou ainda que investiga ao menos outros dois supostos casos envolvendo alunas do Colégio Pedro 2º que teriam sido cometidos por integrantes do mesmo grupo.

Os crimes sexuais seguem longe de ser episódicos. Em 2024, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o país registrou 87.545 vítimas de estupro e estupro de vulnerável — o maior número da série histórica, mais que o dobro do contabilizado em 2011. Meninas e mulheres representaram 87,7% das vítimas.

"Os homens precisam participar dessa conversa", afirma Negreiros. "Quando publiquei meu livro sobre violência sexual, diria que 90% dos leitores eram mulheres. Os homens simplesmente não se interessavam pelo tema, por achar que era um assunto de mulher. E não é."

Confira abaixo a entrevista.

BBC News Brasil - No seu livro, você questiona a imagem do estuprador como um "monstro patológico" à margem da sociedade. Quando os suspeitos são jovens de classe média, alunos de uma escola tradicional, com famílias estruturadas, o que isso revela sobre a cultura do estupro?

Adriana Negreiros - Existe uma imagem clássica do estuprador como aquele sujeito que vai te encontrar num beco escuro e te atacar. Essa é uma imagem que não corresponde exatamente ao que a gente percebe a partir da análise dos números dos estupros. É um crime muito cometido na intimidade, por pessoas do círculo de confiança da vítima.

Eu costumava dizer muito isso na época em que lancei o livro: o meu caso, em que fui atacada por uma pessoa que eu nunca tinha visto, no estacionamento de um shopping center, e levada de fato para um lugar escuro, um matagal, era um caso muito atípico.

O mais comum é que meninas, especialmente, sejam violentadas por pessoas do seu círculo de confiança, muitas vezes dentro de casa, o que contraria a versão de que o espaço doméstico é o espaço de segurança da mulher.

E esse caso do Rio revela muito isso também. Eram pessoas do círculo de confiança da garota, numa situação que tem um aspecto ainda mais cruel: ela foi atacada durante uma relação em que depositou muita confiança na pessoa que depois a atacou e permitiu que esse crime bárbaro fosse cometido.

Sob esse ponto de vista, imagino que os estragos e o trauma possam ser ainda maiores. Algo que me perguntavam muito à época do lançamento do meu livro foi como ficou minha relação com a intimidade após o crime. E eu sempre digo o seguinte: o que aconteceu comigo não foi sexo, foi violência. É uma diferença muito grande. Consigo estabelecer essa fronteira.

No caso dessa garota, imagino que essa fronteira seja mais difícil de estabelecer, porque aconteceu durante um momento de entrega e confiança, o que torna o crime ainda mais cruel.

BBC News Brasil - A defesa de um dos suspeitos alegou que a adolescente "consentiu" a presença dos rapazes e se despediu "com um sorriso". Ao mesmo tempo, a mãe relata que a jovem se sentiu tomada por vergonha e culpa, a ponto de não querer mais viver. Como você interpreta esse descompasso entre a narrativa pública que questiona o consentimento e o impacto que a violência produz na vítima?

Negreiros - Tem um aspecto que é sempre importante ressaltar: o estupro é um crime que provoca muita vergonha na vítima. A própria palavra é tão forte que muitas vezes você entra num estado de negação de que tenha sido isso que ocorreu.

As reações das vítimas são muito distintas. Não há uma reação padrão. Existe uma reação clássica, que é a da paralisia — um instinto de sobrevivência. Você pensa: "Preciso sair daqui com vida. Para sair com vida, preciso fazer tudo o que essa pessoa ou essas pessoas querem, para conseguir sair daqui pelo menos viva".

Essa é uma reação muito comum: uma certa paralisia, um instinto de sobrevivência no sentido de pensar "isso vai passar; quando terminar, eu estarei viva". Isso aconteceu comigo, por exemplo. Fiquei absolutamente paralisada, sempre com isso em mente. "Se eu for boazinha", era mais ou menos o que eu pensava, "talvez eu não seja morta".

Curiosamente, e de maneira muito cruel, isso muitas vezes é utilizado pela defesa dos agressores para justificar o comportamento da vítima, para dizer algo como: "Se ela não reagiu, ela consentiu", o que é absolutamente cruel e violento.

Isso me lembra muito uma situação comum no cangaço, escrevi um livro sobre o tema, em que cangaceiros tinham o hábito de estuprar mulheres sertanejas. Havia situações em que as mulheres não reagiam e eles diziam: "Olha só, fulana gosta tanto que não se rebela, não tem nenhuma reação". Mas, no fundo, é uma reação: um instinto de sobrevivência.

Essa defesa é muito comum. Mas, por sorte, temos discutido cada vez mais esse tema. Temos falado mais sobre casos assim. Imagino que esse tipo de estratégia já não convença mais ninguém.

Jovens réus por estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos em Copacabana, no Rio de Janeiro
Divulgação/PCERJ

BBC News Brasil - A polícia descreveu o crime como uma emboscada planejada. Em um estupro coletivo organizado dessa forma, em grupo, o que está em jogo?

Negreiros - Acho que há um aspecto de completa desumanização da mulher nesse caso, a ponto de se criar um espírito de corpo entre esses homens para cometer o ataque, como se ela fosse um objeto de usufruto e descartável.

O que parece uma coletividade é, na verdade, um grupo de homens que considera que a mulher não faz parte da humanidade tanto quanto eles, a ponto de poder ser descartada dessa maneira.

Isso revela também algo sobre um certo espírito coletivo do nosso tempo, em que perdemos laços comunitários e a capacidade de perceber no outro alguém tão humano quanto nós. É uma discussão mais complexa do que parece, porque envolve muitas questões contemporâneas.

Há uma apologia excessiva ao individualismo, que faz com que as pessoas pensem apenas em si e percam a noção de que o outro é um ser humano que faz parte da sua comunidade. Existe também uma romantização da antissociabilidade, uma romantização da aversão ao convívio social.

Tudo isso compõe essa cultura do estupro, no sentido de que começamos a achar que nossa própria companhia é suficiente, que não precisamos do outro. No limite, isso leva a situações em que o outro se torna absolutamente irrelevante.

Por outro lado, tenho visto nas redes sociais uma apologia à raiva. Muita gente dizendo que é preciso ter muita raiva, denunciar os homens, afirmar que os homens sempre nos tratam dessa maneira. Tenho receio de que essa apologia da raiva torne os laços ainda mais difíceis de serem restabelecidos.

Concordo que é preciso trazer os homens para essa discussão, mas eu concordo também que é preciso trazer uma chave que não seja só da raiva. É natural que nós sintamos raiva. Todos nós sentimos. Nós somos humanos. Mas penso que essa discussão tem que se dar numa outra perspectiva, mais racional, para que a gente também não passe do nosso desejo de justiça para o desejo de justiçamento, que aí é a barbárie.

Tenho muito medo de quando situações como essa, absolutamente dramáticas e absolutamente condenáveis, que são revoltantes e que provocam em todos nós uma revolta profunda, acabe por extrapolar um certo limite de uma racionalidade que nos leve a uma barbárie completa.

Temos que exigir que esses crimes sejam devidamente punidos, que haja as reparações previstas em lei, mas que a gente não passe para o justiçamento puro e simples, porque isso não resolve nada, a não ser, de certa forma, pode nos dar um conforto imediato, mas a longo prazo isso não é efetivo.

BBC News Brasil - Neste ano em que a Lei Maria da Penha completa 20 anos, vemos avanços institucionais importantes no combate a violência de gênero, mas também uma onda de casos brutais e um discurso misógino cada vez mais explícito nas redes. Estamos vivendo um backlash? O que alimenta essa reação?

Negreiros - Acho que a educação é o aspecto principal. Essencializar os homens como estupradores por exemplo é um erro. Precisamos pensar na educação e em trazer homens e meninos para a conversa.

Percebo que muitas mulheres dizem: "Eu não tenho obrigação de educar homens. Já tenho muitas coisas para fazer". Entendo isso. Não é uma obrigação. Mas penso que precisamos convocá-los para o diálogo, porque o contrário pode ser o acirramento da situação.

Estabelecer uma cisão entre meninos e meninas é muito dramático, porque os efeitos podem ser ainda piores. É preciso restabelecer laços, inclusive entre eles, para que o sentimento de humanidade ultrapasse essa visão essencialista do sexo.

Obviamente, os homens precisam participar dessa conversa. Quando publiquei meu livro sobre violência sexual, não tenho a estatística, mas diria que 90% dos leitores eram mulheres. Os homens simplesmente não se interessavam pelo tema, por achar que era um assunto de mulher. E não é. É basicamente um assunto dos homens.

Esse problema diz respeito a eles. Não pode ser uma discussão restrita a grupos feministas ou às mulheres. É preciso trazê-los para essa conversa, fazer esse esforço, por mais que essa iniciativa também devesse partir deles. Precisamos tornar essa discussão mais comunitária e sensibilizar esses meninos para essa questão.

Adriana Negreiros
Renato Parada

BBC News Brasil - O delegado afirmou que o plantão judiciário negou a urgência dos mandados, o que atrasou as prisões. Como avalia isso?

Negreiros - Existe muitas vezes a percepção de que esses casos são menores ou não têm a devida importância. Se a urgência tivesse sido concedida, isso poderia mudar completamente a forma como o caso se desenvolveria, inclusive em relação à menina.

O que acontece com a vítima de um crime desta natureza é que ela se pergunta se de fato aquilo foi tão grave quanto aquilo causou nela. É comum pensar: "Será que estou exagerando? Será que foi realmente assim? Será que fiz algo que pudesse dar a entender outra coisa?".

E essa resposta da Justiça nesse sentido pode apenas corroborar esse sentimento, que já é um sentimento terrível que a vítima sente em relação a um crime dessa natureza. Então, penso que essa é uma medida que pode ter impactos não apenas na investigação, como também na própria percepção dessa garota do crime do qual ela foi vítima.

BBC News Brasil - Você escreve que o mais difícil é "o depois", tentar costurar uma vida que foi rasgada. O que esse processo ensina sobre como a sociedade deveria acolher vítimas de violência sexual?

Negreiros - Os processos são muito individuais. E os tempos também são outros. Quando isso aconteceu comigo, em 2003, não havia uma discussão pública sobre violência sexual como há hoje. As pessoas viviam isso e escondiam, com vergonha profunda.

Hoje a situação é muito diferente. Uma mulher que passa por uma violência sexual tem um acolhimento muito maior do que havia na época. Mas também me pergunto como a superexposição em torno de casos como esse impacta a vida dessa garota. Ainda não encontramos a justa medida.

Por um lado, é preciso falar, denunciar, repudiar a brutalidade. Por outro lado, penso nela entrando nas redes sociais e vendo o caso ser discutido o tempo inteiro. Que tipo de impacto isso pode provocar nessa menina?

Há pessoas que vão querer falar sobre isso. Há pessoas que vão preferir tratar disso na sua intimidade. Tenho receio da superexposição e da espetacularização. Isso pode ajudar na cobrança por punição, mas, do ponto de vista da vítima, eu me pergunto: como ela está se sentindo? Mesmo sem divulgação do nome, é fácil identificá-la.

Agora, de fato, o que vem depois? Tanto que o título do meu livro é A Vida Nunca Mais Será a Mesma. Porque é uma violência tão brutal que forja o seu caráter. Num certo sentido, toda a sua vida. Na sequência, ela vai ter sempre essa marca de uma violência dessa natureza, que é uma violência de fato muito brutal. É uma invasão e é algo traumático a ponto de não ser possível apagar isso completamente da sua existência.

Mas claro que também não é uma sentença de uma vida terrível que se vai daqui para a frente. Pelo menos no que me diz respeito, o que procurei fazer foi tentar não permitir que essa pessoa que fez essa crueldade terrível comigo tenha um poder tamanho na minha vida, a ponto de eu considerar que ela não faz mais sentido. Claro que essas reações são muito individuais, cada um vai lidar com isso de uma maneira diferente. Mas penso que a resposta que podemos dar a isso é viver.

É preciso recuperar a humanidade, os laços comunitários, uma convivência menos individualista. Esse é o aspecto fundamental.

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BBC
Rute Pina - Da BBC News Brasil em São Paulo
postado em 04/03/2026 14:33
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