
Depois de ver Wagner Moura em capas de revistas e programas de TV nos últimos meses, não é difícil entender por que hoje se canta que ele "tem o molho".
Mas o que o baiano tem, afinal, que parece ter conquistado a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelo Oscar?
Fernanda Torres, que esteve na pele de Moura no ano passado, ao disputar a estatueta de Melhor Atriz por Ainda Estou Aqui, tem um palpite.
"Wagner é um ator super sanguíneo, mas que ao mesmo tempo consegue ser sutil", diz ela à BBC News Brasil.
"Ele passou muito tempo fazendo teatro, fez novela, série, cinema, dirigiu, então ele é um artista completo. O que o baiano tem? É esse mistério."
Para desvendar o enigma, a reportagem fez a mesma pergunta a figuras-chave na trajetória do ator, que o acompanharam desde a faculdade de jornalismo e os primeiros passos no teatro até filmes e séries que o projetaram da Bahia para o Brasil e, depois, para o mundo.
A resposta? "Axé acting".
É um jeito de atuar difícil de definir, marcado pela intensidade emocional com que os baianos se entregam aos papéis, mas sem perder a sutileza exigida por personagens como o de O Agente Secreto, filme pelo qual Moura disputa o Oscar de Melhor Ator neste domingo (15/2), como o primeiro ator brasileiro a ser indicado.
A definição é de Vladimir Brichta, que, ao lado de Lázaro Ramos, fez parte do elenco de uma das primeiras peças teatrais de Moura como ator profissional — A Casa de Eros, montada no fim dos anos 1990 no teatro Vila Velha, um dos principais espaços de formação e experimentação do teatro baiano, em Salvador.
Sob direção de João Falcão, a história girava em torno de uma casa onde diferentes personagens se encontram e se confrontam em torno de seus desejos, ciúmes e disputas amorosas, um tipo de material que já exigia dos atores a intensidade dramática que depois seria batizada em homenagem ao axé.
O que é o 'axé acting'?
Brichta lembra que, ao menos que o trio se lembre, quem cunhou o termo foi o cineasta Cacá Diegues, ao dirigir o filme Deus É Brasileiro, lançado em 2003.
Na trama, Deus, sob a encarnação de Antonio Fagundes, decide tirar férias da humanidade e, para isso, busca um substituto na Terra. Acaba no Nordeste, onde encontra Taoca, um pescador vivido por Moura que passa a guiá-lo pelo sertão.
A travessia é a oportunidade que o cineasta, um dos nomes incontornáveis do cinema brasileiro, morto no ano passado, encontra para escancarar a vida nos rincões do país entre o humor, a crítica social e elementos fantásticos.
A esta altura, Moura já tinha feito peças de teatro, curtas e até longas-metragens, mas foi este seu primeiro grande filme, que jogou os holofotes sobre seu trabalho para um público mais amplo, na visão da crítica especializada.
Depois que Diegues criou este termo, o trio passou a refletir sobre a própria atuação e notar que seu trabalho tinha raízes fincadas em outras expressões culturais baianas, muitas delas influenciadas pela cultura africana.
"As expressões artísticas baianas podem ter sutileza, mas têm muita força. A dança afro é contundente, percussiva, e de alguma forma quis acreditar que nosso trabalho tinha remanescências disso, porque foi o que a gente viu e fez no teatro da Bahia", diz Brichta.
"Eu explico dizendo que, no 'axé acting', a gente ia errar para mais, mas nunca para menos, porque nosso trabalho de fato é muito intenso", ele acrescenta.
O professor Maurício Tavares, que deu aulas a Moura no curso de jornalismo da Universidade Federal da Bahia nos anos 1990, se lembra dessa intensidade. "Achava ele meio canastrão no início, tinha uma voz empostada, mas ele depurou totalmente isso ao longo do tempo."
Tavares conta que o primeiro emprego de Moura foi como repórter de uma coluna social local, entrevistando socialites e famosos. Mesmo assim, diz, ele já demonstrava inclinação para a atuação.
"Em Introdução à Comunicação, o grupo de Wagner fez um esquete de teatro para pensar sobre como a chegada do milênio transformaria a comunicação, e ele já tinha um desempenho bom. Em Rádiojornalismo, ele fez uma novela radiofônica de um capítulo e se saiu bem."
O método de atuação de Wagner Moura
Lázaro Ramos conta que, mesmo depois de o trio se mudar para o Rio de Janeiro em busca de oportunidades, eles mantiveram as marcas da formação na Bahia. Ele reprisou a parceria com Moura em obras de sucesso como Ó Paí, Ó, de Monique Gardenberg, que se passa em um cortiço do Pelourinho.
"A gente era muito inspirado pelos atores da nossa terra. Inclusive, a reflexão sobre o sustento, se poderíamos viver disso, não era uma questão. A gente tinha a certeza de que seríamos atores, e Wagner ainda leva essa raça, essa fibra, essa paixão em tudo o que faz", afirma.
Ao mesmo tempo, acrescenta Vladimir Brichta, cada um foi lapidando características próprias — no caso de Moura, o rigor e o comprometimento ímpares no set de filmagem, algo que ele pôde observar ao contracenar com o amigo em filmes como Cidade Baixa e Quincas Berro d'Água, de Sergio Machado.
"A vida inteira ele teve um caderninho em mãos para cada trabalho, com todas as anotações e reflexões de outras coisas que remetem ao personagem e a história do momento. Inclusive, ele é um ator extremamente sério. Sempre foi assim, porque ele é muito focado", diz Brichta.
"Mas, ao mesmo tempo, ele é atento a tudo e a todos em volta. As coisas não passam despercebidas por ele. Ele tem uma condução muito amorosa."
Os parceiros seguiram próximos, apadrinhando os filhos uns dos outros, e acompanharam os voos internacionais de Moura — como o que ele alçou mais de uma década depois em Narcos, série da Netflix que projetou seu rosto mundialmente no papel de Pablo Escobar.
A preparação para interpretar o narcotraficante colombiano, aliás, dá uma ideia de como Moura trabalha. Ele passou meses isolado antes do início das filmagens para mergulhar nas entranhas do personagem e ganhar sua forma — literalmente, já que teve de engordar quase 20 kg.
A abordagem lembra as ideias do encenador russo Konstantin Stanislavski e sua polêmica "atuação de método", em que o artista permanece imerso no papel mesmo quando as câmeras são desligadas.
Embora Moura não se defina exatamente como esse tipo de ator, Lázaro Ramos lembra que havia algo dessa abordagem em seu trabalho. "Durante muito tempo, Wagner levava a energia do personagem para a vida", ele conta.
"Não que ele se transformasse, mas, se o personagem fosse mais amoroso, mais suave, ele tinha essa energia; se fosse mais arisco, ele levava isso. Hoje consegue se distanciar mais. É bonito ver essa maturidade de ele entender o que são as energias, colocá-las em cena e, ao mesmo tempo, ser um ser humano inteiro fora de cena."
Mas esse método, que o diretor Cacá Diegues preferiu tropicalizar e chamar de "axé acting", algo visto por parte da classe artística como um certo exagero, não marca a carreira de Moura.
Quem diz isso é Brichta, ao se lembrar do papel mais recente do amigo — o professor Armando, de O Agente Secreto.
"O 'axé acting' está ali, porque a gente vê uma pessoa intensa, mas a forma como ela se expressa é com um nível de sutileza e delicadeza primoroso."
"Tanto que eu brinquei com ele e falei: 'Rapaz, ser indicado ao Oscar e ganhar o Globo de Ouro sem dar um berro? Isso é um feito incrível para gente, que veio da Bahia.'", diz Brichta, entre risos.
Carreira curta na TV
Esse nível de detalhamento que Moura busca em sua atuação parece se ajustar menos ao ritmo da televisão. Embora tenha participado de projetos de sucesso na Globo, como a minissérie JK, sobre o presidente Juscelino Kubitschek, suas aparições na telinha se concentraram em participações especiais e minisséries.
Moura só fez duas novelas, o produto de maior audiência da TV. Estreou em 2005 em A Lua me Disse, de Miguel Falabella, no qual interpretou um galã, e atingiu seu maior sucesso dois anos depois como o antagonista de Paraíso Tropical, o executivo Olavinho, criado por Gilberto Braga.
Ambos os folhetins lhe renderam elogios tanto do público quanto da crítica, além de cachês altos, em um tempo em que a televisão reinava, sem a concorrência do streaming e das redes sociais.
A Globo ofereceu um cachê alto para que ele se tornasse integrante fixo de seu elenco. Hoje praticamente inexistente, esse tipo de contrato era muito desejado pelos atores na época.
Era algo que garantia segurança financeira e permitia que os artistas passassem meses recebendo sem trabalhar, "descansando a imagem", como se diz nos bastidores dos Estúdios Globo, o antigo Projac.
Mas Moura, embora sempre tenha se lembrado com carinho da TV, rejeitou a oferta.
Ele sempre preferiu o cinema, uma característica que compartilha com Fernanda Torres.
Ela abandonou os folhetins nos anos 1980, depois de fazer o remake de Selva de Pedra, baseado na obra de Janete Clair, e não se encontrar no formato.
A razão disso é, segundo os próprios artistas, a dificuldade de se adaptar ao ritmo mais industrial exigido pela TV. Fazer uma novela, afinal, é como gravar um filme por dia — até hoje, são gravadas cerca de 20 cenas diárias em cada folhetim da Globo, com três frentes de filmagem simultâneas.
Gabriel Domingues, que trabalhou com Moura em O Agente Secreto, do qual é diretor de elenco, vê as diferenças entre os dois tipos de atuação.
"A novela é básica, né? Os atores precisam dizer muita coisa. É muito calcado na palavra e no texto. Os personagens precisam comentar tudo, dizer o que sentem, enquanto no cinema a gente tem uma tradição de linguagem de corpo, de emoção, que é muito sólida", diz ele, que também concorre ao Oscar.
Passaporte para o mundo
Talvez por isso tenha sido justamente nos formatos mais curtos que Moura se encontrou fora do Brasil.
Embora sua primeira experiência internacional tenha sido no cinema, em Sabor da Paixão, da venezuelana Fina Torres, sua grande projeção no exterior viria anos depois, com Narcos.
A série da Netflix lhe rendeu uma indicação a Melhor Ator no Globo de Ouro — prêmio que ele só conquistaria uma década depois, com O Agente Secreto, em janeiro deste ano.
Mas, tanto antes quanto depois, ele trabalhou com uma série de diretores estrangeiros de renome, entre eles o britânico Stephen Daldry, em Trash – A Esperança Vem do Lixo (2014); o francês Olivier Assayas, em Wasp Network: Rede de Espiões (2019); o americano Greg Barker, em Sergio (2020); e o também britânico Alex Garland, em Guerra Civil (2024).
Moura, porém, nunca precisou filmar em inglês para ver seu trabalho ultrapassar fronteiras, lembra o crítico de cinema Bruno Ghetti, que cobre festivais internacionais há décadas e é mestre em Estudos Cinematográficos pela Université Paris 7, na França.
"A indicação do Wagner Moura ao Oscar não é a indicação de um aventureiro que fez um bom trabalho no cinema, deu sorte que o filme era importante e conseguiu um reconhecimento", ele diz.
"'Da geração dele, no Brasil, não consigo pensar em alguém que seja um ator tão eficiente, com um talento talvez até inquestionável."
Tropa de Elite, de José Padilha, é uma das provas disso, acrescenta Ghetti. O filme, no qual Moura encarnou o truculento capitão Nascimento — do bordão "pede pra sair" —, venceu o Urso de Ouro, láurea máxima do Festival de Berlim, um dos mais importantes do calendário cinematográfico.
Foi nessa ocasião, inclusive, que seu trabalho chamou atenção de um executivo internacional, contou Moura em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 2008. Ele voltaria ao festival em 2014, um ano antes da estreia de Narcos, com Praia do Futuro, de Karim Aïnouz.
Nesse filme, Moura interpreta um salva-vidas de Fortaleza que entra em crise após não conseguir evitar a morte de um banhista e acaba se envolvendo com um turista alemão, que o leva a se mudar para Berlim e deixar para trás a vida de opressão que enfrentava por ser gay.
"Eu procurava um ator que pudesse encarnar esse arco dramático de um personagem cujo preço de sua liberdade era romper os laços que tinha com a família de sangue e construir uma família de afeto", define o diretor.
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Uma carreira de alta voltagem política
Embora Aïnouz refute a ideia de que Moura interpretasse um personagem mais vulnerável em Praia do Futuro, esse era um papel que, ao menos na visão da crítica da época, não poderia ser mais diferente do capitão Nascimento.
O longa marcou, de certa forma, uma transição na carreira de Moura. É fato que Tropa de Elite já lhe havia rendido críticas de quem rejeitava a ideia de um policial capaz de torturar e matar em nome da segurança pública — uma pauta que, à época, já começava a se associar mais à direita do que à esquerda, sobretudo no Rio de Janeiro, onde o filme se passava.
O ator chegou a escrever um artigo no jornal O Globo para dizer, em resumo, que não era fascista.
O gesto foi seguido pela continuação do filme, na qual ele e o diretor José Padilha fizeram uma espécie de mea-culpa, algo que já se insinuava no próprio título: Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora É Outro.
A sequência buscava ampliar o debate ao jogar luz sobre as falhas de instituições como a polícia, o sistema político e o Judiciário, mostrando como essas estruturas também alimentam a violência retratada no primeiro filme.
Mas essas críticas se limitaram aos círculos intelectuais e não se refletiram nas bilheterias, que venderam milhões de ingressos para a duologia.
Praia do Futuro, por sua vez, gerou controvérsia por exibir cenas de sexo entre Moura e o ator alemão Clemens Schick.
Reportagens publicadas à época relatam que parte dos espectadores, contrariados por não ver Moura em um papel como o de capitão Nascimento, deixava as salas de cinema no meio da projeção e chegava a pedir reembolso do ingresso.
Moura disse ao Roda Viva que foi naquele momento, aliás, que percebeu o Brasil começar a se rachar sob uma polarização entre conservadores e liberais.
Ele voltaria a ser criticado por humanizar um narcotraficante em Narcos, por retratar o guerrilheiro Carlos Marighella em sua estreia na direção, com o filme Marighella, e, agora, por mostrar em O Agente Secreto a perseguição da ditadura militar a figuras como professores universitários. Fora sua oposição a líderes como o ex-presidente Jair Bolsonaro e o presidente americano Donald Trump.
Vice-presidente de conteúdo da Netflix no Brasil, que coproduziu O Agente Secreto e agora o exibe no streaming, Elisabetta Zenatti diz que a verve política da história não necessariamente afugenta o público que discorda das ideias apresentadas.
Hoje, aliás, o filme é o título de língua não inglesa mais visto da plataforma.
"Vivemos em um país polarizado. Sempre vai ter gente que ama, gente que odeia e uma zona cinza no meio. Mas, quando os filmes são realmente bons e tocantes, eles se sobrepõem a opiniões políticas", diz a executiva.
Moura, de toda forma, não se molda às críticas. Tampouco os integrantes da Academia, responsáveis por escolher os indicados ao Oscar e depois premiá-los, parecem se importar com elas.
Para Zenatti, a razão disso está justamente na forma como o ator constrói seus personagens.
"Além de muito talento e técnica, ele tem muito carisma — e carisma é algo difícil de decupar. Parece que a câmera ama o Wagner. Ele preenche a tela brilhando", diz.
Talvez seja mesmo o axé.
Arte por Daniel Arce-Lopez, da equipe de Jornalismo Visual da BBC News Brasil

