
Ao longo dos seus dois mandatos, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nunca se conteve ao criticar (e até mesmo atacar) os aliados de Washington na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).
Mas sua mais recente afirmação, de que deixar de garantir a segurança do Estreito de Ormuz seria "muito ruim para o futuro da Otan", chama atenção para sua compreensão sobre o propósito da aliança.
"A Otan foi criada como uma aliança de defesa", declarou à BBC nesta segunda (16/3) o ex-chefe do Estado-Maior do Reino Unido, o general Nick Carter.
"Não foi uma aliança projetada para que um dos aliados lançasse uma guerra por escolha e obrigasse todos os demais a seguir", segundo ele. "Não sei se este é o tipo de Otan a que todos nós gostaríamos de pertencer."
Vindo de um presidente que, apenas dois meses atrás, reivindicava de forma veemente a Groenlândia (que é território soberano de outro membro da Otan, a Dinamarca), seus últimos comentários trazem uma certa ironia.
Isso talvez ajude a explicar porque algumas das reações foram um tanto incisivas.
Um porta-voz do governo alemão declarou que a guerra com o Irã "não tem nada a ver com a Otan". Já o ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, pareceu tratar com desdém a ideia de que as modestas marinhas europeias pudessem fazer alguma diferença.
"O que Trump espera de algumas poucas fragatas europeias que a poderosa Marinha americana não pode fazer?", questionou ele.
"Esta guerra não é nossa. Nós não a iniciamos."
Mas nada disso deverá ocultar o fato de que existe, agora, a necessidade urgente — e cada vez maior — de uma solução para a crise no Golfo.
O bloqueio efetivo do Estreito de Ormuz pelo Irã, exceto por alguns poucos navios que transportam seu próprio petróleo para aliados como a China e a Índia, deixou os governos ocidentais lutando para encontrar uma solução.
A crise pode ter sido acionada pela decisão de Trump de ir à guerra, mas precisa ser solucionada rapidamente, antes que os impactos à economia global se tornem mais graves.
E já se sabe ao certo que não há solução rápida.
Na sua entrevista coletiva desta segunda (16/3), o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, declarou que estão em andamento conversas destinadas a elaborar um "plano viável" com os Estados Unidos e os parceiros europeus e do Golfo, mas "ainda não chegamos ao ponto de tomar decisões".
Minas no mar
O primeiro-ministro britânico fez referência a sistemas autônomos de busca de minas que, segundo ele, já se encontram na região.
O navio caça-minas HMS Middleton está no porto de Portsmouth, no Reino Unido, para um grande trabalho de manutenção. Com isso, esta é a primeira vez em décadas que nenhum navio de limpeza de minas britânico se encontra na região do Golfo.
No seu lugar, a Marinha Real Britânica deve oferecer drones marinhos recém-desenvolvidos, projetados para detectar e neutralizar minas, sem colocar as tripulações em risco.
Mas um dos problemas enfrentados por Trump é que a dragagem de minas, antes uma função importante de quase todas as marinhas do mundo, deixou de ser uma grande prioridade há muito tempo.
O ex-comandante da Marinha Real Britânica Tom Sharpe afirmou que a mais recente tecnologia do país neste campo ainda não foi testada em combate.
"Provavelmente, iremos descobrir nas próximas semanas se funciona ou não", declarou ele à BBC.
Carter afirma que a última vez em que nações ocidentais realizaram uma grande operação de retirada de minas no mar ocorreu em 1991, quando o Iraque minou as águas em torno do Kuwait, para evitar um desembarque anfíbio na Primeira Guerra do Golfo.
"Levamos 51 dias para limpar as minas", contou ele. "Nenhuma marinha investiu nisso na escala em que deveria ter feito, muito menos os americanos."
Os navios caça-minas especializados da classe Avenger da Marinha dos Estados Unidos são construídos com cascos de madeira, para evitar acionar minas navais magnéticas.
Todos eles estão sendo retirados de serviço e substituídos por navios de combate no litoral, da classe Independence, que também usam uma série de sistemas não tripulados.
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Mas a dragagem de minas não é a única questão.
A Guarda Revolucionária iraniana também pode usar barcos rápidos armados, drones navais "suicidas" e mísseis localizados na costa para interromper a navegação.
Fotografias recentes, publicadas pela agência de notícias iraniana Fars News, parecem mostrar grandes quantidades de barcos e drones armazenados em túneis subterrâneos. Elas indicam que Teerã vem se preparando há muito tempo para este momento.
Trump indicou que manter aberto o Estreito de Ormuz pode envolver ataques ao litoral iraniano.
Ele declarou estar buscando "quem derrube pessoas más que estão ao longo do litoral".
Os Estados Unidos já atacaram barcos lança-minas em portos iranianos, mas é difícil encontrar muitos aliados de Washington dispostos a acompanhá-los, especialmente se a missão envolver o deslocamento de tropas em terra.
Em um ambiente repleto de possíveis riscos, não surpreende que os países hesitem em se envolver. Eles preferem pedir o fim da escalada do conflito, como fez o governo britânico, como a forma mais garantida de liberar o Estreito de Ormuz.
'Esta guerra não é da Europa'
Mas, com as autoridades americanas e israelenses falando em uma campanha que ainda poderá levar várias semanas, esta não parece uma perspectiva imediata.
Paralelamente, será que os aliados poderão ser convencidos a enviar embarcações militares para escoltar navios mercantes através daquele estreito, vital para a navegação?
"A Alemanha não irá participar com suas forças armadas para garantir a segurança do Estreito de Ormuz", declarou Pistorius na segunda-feira.
A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, afirmou posteriormente que há um "claro desejo" de reforçar as operações navais da UE no Oriente Médio, mas os ministros das Relações Exteriores europeus se negaram a ampliar a missão naval existente no mar Vermelho.
"Esta guerra não é da Europa", destacou ela.
A União Europeia lançou em 2024 a Operação Aspides, para ajudar a combater as ameaças à navegação impostas pelos rebeldes houthis no Iêmen, apoiados pelo Irã. Mas, com apenas três navios de guerra, esta é uma operação relativamente modesta.
O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, afirmou que seu governo deseja saber de Israel e dos Estados Unidos "quando eles acreditam que terão atingido seus objetivos militares no Irã" antes de discutir novos acordos de segurança.
Dentre os principais aliados europeus, o presidente da França, Emmanuel Macron, talvez seja o mais disposto a se envolver. Ele declarou uma semana atrás que estava tentando reunir uma coalizão para escoltar navios e garantir a liberdade de navegação.
Mas Macron afirmou que isso só poderá acontecer quando a "fase mais quente" do conflito ficar para trás. E, poucos dias depois, sua ministra da Defesa, Catherine Vautrin, disse que não havia planos imediatos de envio de navios para o Estreito de Ormuz.
Tom Sharpe afirmou que uma possível operação de escolta seria muito mais complexa que a Operação Aspides. Ela enfrentaria ameaças vindas de três direções: do ar, da superfície e de baixo d'água.
"Ao contrário dos houthis, onde havia apenas a ameaça aérea, com o Irã você tem todas as três e irá querer tentar abater todas antes de ser atingido", explicou ele. "Isso nem sempre é possível."
No momento, os aliados de Trump, meio que atordoados, hesitam em se envolver na questão do Irã. Eles olham nervosos uns para os outros, sabendo que a inação, de fato, não está entre as opções disponíveis.
Starmer afirmou que a solução precisa envolver "o máximo de parceiros possível", mas que os militares britânicos precisam de garantias substanciais antes do seu deslocamento para uma missão potencialmente perigosa.
"Eles merecem, no mínimo, saber que irão fazer isso dentro da lei e com um plano adequado e bem pensado."
E, no estado atual das coisas, este plano não existe.
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