
Tradicionalmente, na Venezuela, os ministros da Defesa não permaneciam mais do que um ano no cargo. Mas isso mudou radicalmente em 2014, quando o então presidente Nicolás Maduro nomeou Vladimir Padrino López para essa função.
O general venezuelano manteve o posto por quase 12 anos, até esta quarta-feira (18/03), quando foi destituído pela presidente interina, Delcy Rodríguez.
"Agradecemos a Vladimir Padrino López por sua lealdade à pátria e por ter sido, durante todos esses anos, o primeiro soldado na defesa do nosso país. Temos certeza de que assumirá com o mesmo compromisso e honra as novas responsabilidades que lhe serão confiadas", escreveu Rodríguez em uma mensagem publicada no X.
A presidente anunciou a nomeação do general Gustavo González López como novo ministro da Defesa.
Padrino acabou se tornando um dos ministros que ficou mais tempo no cargo em toda a história da Venezuela.
Durante a presidência de Maduro, e com Padrino à frente do Ministério da Defesa, os militares venezuelanos passaram a se envolver cada vez mais em áreas além da segurança nacional, conquistando espaço dentro do governo — a ponto de mais de um terço do gabinete ser composto por militares da ativa ou da reserva.
Ao longo de todo esse período, Padrino foi considerado uma peça fundamental para garantir a estabilidade e o apoio das Forças Armadas ao governo chavista, apesar das crescentes dúvidas e críticas sobre a legitimidade do governo.
Sua figura, contudo, foi colocada em xeque após a operação militar de 3 de janeiro, quando forças especiais dos Estados Unidos conseguiram entrar em Fuerte Tiuna — a principal instalação militar da Venezuela —, e na residência de Maduro e levá-lo preso junto com sua esposa, Cilia Flores, sem que as Forças Armadas venezuelanas demonstrassem capacidade de reação.
Em uma mensagem publicada na rede X após sua destituição, Padrino manifestou seu agradecimento a Rodríguez:
"Foi a maior honra da minha vida servir à pátria como soldado e proteger a paz e a unidade nacional durante todos esses anos à frente do Ministério do Poder Popular para a Defesa. Agradeço profundamente à presidente Interina, Delcy Rodríguez, por suas palavras", escreveu.
Fim de uma era
Para a jornalista venezuelana Sebastiana Barráez, especialista em assuntos militares, a destituição do general Padrino López "significa o fim de uma era muito importante para as Forças Armadas".
Ela explica que o militar destituído desempenhou um papel muito relevante no início do governo de Maduro, que herdou o poder de Hugo Chávez, mas não tinha a mesma trajetória militar.
Além disso, ele foi o responsável por comprometer ideologicamente as Forças Armadas venezuelanas com o projeto da revolução bolivariana e atuou como um verdadeiro "apaziguador" dentro da instituição.
Barráez ressalta que Padrino mantinha uma relação estreita com a Rússia e, em particular, com o presidente Vladimir Putin — algo que, segundo ela, contribuiu para que Maduro o mantivesse tanto tempo no cargo.
Mas depois da queda de Maduro, a situação do militar não se mostrou tão favorável para o governo de Rodríguez, segundo a analista.
"Neste momento, na verdade, o general Padrino era um obstáculo para os interesses dos Estados Unidos, no que diz respeito ao controle que o presidente Donald Trump pretende exercer sobre as Forças Armadas venezuelanas", aponta.
A especialista observa que o novo ministro da Defesa "não tem ascendência nem liderança" dentro das Forças Armadas da Venezuela, já que a última vez em que foi nomeado para um cargo militar foi em 2008 e, desde então, desempenhou apenas funções ligadas aos serviços de inteligência — áreas nas quais acumulou questionamentos relacionados a direitos humanos.
Apesar disso, Barráez não acredita que sua nomeação possa gerar risco de levante nas fileiras militares, já que as Forças Armadas venezuelanas ficaram duramente abaladas desde a operação de 3 de janeiro.
"Isso expôs as fragilidades da instituição militar e, além disso, contribuiu de forma brutal para a desmoralização dos diferentes membros das Forças Armadas", aponta.
A especialista alerta, contudo, que a nomeação de González López pode provocar um "ruído particular" em áreas onde há oficiais que se identificam ideologicamente com a revolução bolivariana.
"É importante destacar que, com a chegada do general Gustavo Enrique González López ao Ministério da Defesa, podemos quase dizer que termina a presença marcante da revolução bolivariana dentro da instituição militar", afirma.
O ministro que serviu por mais tempo
Padrino foi uma peça importante durante o breve golpe de Estado contra Chávez em abril de 2002, já que, naquela época, comandava uma unidade de blindados estacionada em Fuerte Tiuna (Caracas) que se recusou a aderir ao levante.
Sua figura, no entanto, começou a ser conhecida por grande parte dos venezuelanos em julho de 2012, quando Chávez o promoveu a segundo comandante do Exército e chefe do Estado-Maior.
Esse momento é lembrado porque, ao apresentar um desfile militar, Padrino se referiu aos soldados como "patriotas, bolivarianos, socialistas, anti-imperialistas, revolucionários, treinados e equipados para assumir o sagrado dever da defesa da nação".
Apesar das críticas que essas etiquetas despertaram, elas não lhe eram estranhas. De fato, em seu perfil na rede X, ele se descreve como "soldado bolivariano, decidido e convencido de seguir construindo a pátria socialista".
Maduro o promoveu a general-chefe em 2013 e, um ano depois, ele chegou ao Ministério da Defesa.
Segundo explicou Sebastiana Barráez, em entrevista concedida à BBC Mundo em 2024, Padrino teve um papel fundamental, já que, ao assumir o cargo, as Forças Armadas atravessavam um processo de "reacomodação interna" em consequência da morte de Chávez.
"Quando Padrino López chega, havia muitos grupos de poder dentro da instituição militar e ele — que não é um homem de confronto — conseguiu que coabitassem dentro das Forças Armadas e que cada grupo entendesse que saía beneficiado desse acordo de paz entre todos. É claro que isso significou dar cotas econômicas e de poder a alguns desses setores", disse Barráez à BBC Mundo.
"Com o tempo, Padrino foi minimizando esses conflitos internos, harmonizando as Forças Armadas e, de alguma forma, unificando-as. E esse mérito é o que lhe permitiu se manter como ministro da Defesa por dez anos, sem resistência dentro da instituição", acrescentou.
E, de fato, com Padrino no Ministério da Defesa, os militares adquiriram grande poder.
Em 2016, Maduro criou uma empresa militar — a Camimpeg — com poderes legais para explorar, buscar e distribuir petróleo.
Também lhes concedeu o controle do chamado Arco Mineiro, uma região no sul do país que abriga uma das maiores reservas de ouro do mundo.
Seu poder, no entanto, provavelmente estava muito atrelado à sorte de Maduro.
Ao explicar a influência que Padrino exercia na Força Armada Bolivariana, o cientista político Nícmer Evans disse à BBC Mundo, também em 2024: "Hoje, a Força Armada é Padrino López". E acrescentou: "E Padrino López é Maduro".
Quem é Gustavo González López
Gustavo González López, o substituto de Padrino, é um militar venezuelano que está sob sanções dos Estados Unidos e da União Europeia por acusações relacionadas à corrupção e violações de direitos humanos.
Após a ascensão de Rodríguez à presidência interina em janeiro, ele ocupava o cargo de chefe da Guarda de Honra Presidencial, além de dirigir a Direção Geral de Contrainteligência Militar (Dgcim).
Antes disso, foi diretor-geral do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin) em duas ocasiões: entre 2014 e 2018, e entre 2019 e 2024.
"Durante sua gestão como diretor da Sebin, funcionários sob sua autoridade cometeram atos de detenção arbitrária, tortura e tratamentos cruéis e desumanos, incluindo violência sexual, no centro de detenção El Helicoide", aponta a União Europeia em seu documento sobre funcionários sancionados, referindo-se a González López.
O militar venezuelano também foi comandante-geral da Milícia Bolivariana e ministro do Interior e Justiça.
- 'Não conseguia acreditar que meu torturador vivia livremente nos EUA': os venezuelanos que reconheceram em novela na TV militar que os prendeu
- O relato de ativista que passou mais de 4 anos preso na Venezuela: 'Fazíamos as necessidades onde nos serviam a comida'

