LONGEVIDADE

Ary Fontoura, aos 93, rejeita aposentadoria: 'É uma palavra da qual eu fujo, e trabalhar eu adoro'

Ator protagoniza o filme 'Velhos Bandidos', que estreia nos cinemas na próxima semana, ao lado de Fernanda Montenegro.

Ary Fontoura e Fernanda Montenegro em cartaz do filme <em>Velhos Bandidos</em> -  (crédito: Divulgação)
Ary Fontoura e Fernanda Montenegro em cartaz do filme Velhos Bandidos - (crédito: Divulgação)

Duas semanas após o fim da novela Êta Mundo Melhor, da TV Globo, Ary Fontoura já se prepara para voltar às telas — agora, nas dos cinemas.

Em Velhos Bandidos, que estreia na próxima quinta-feira (26/3), ele vive, ao lado de Fernanda Montenegro, um casal que planeja assaltar um banco para reaver um dinheiro que lhes era devido.

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Mas mesmo no intervalo entre o folhetim e o longa-metragem o ator não se afastou do público. No Instagram, ele publica vídeos diários — em sua maioria, esquetes de humor de um minuto — que o levaram a conquistar sete milhões de seguidores.

"Não tenho parado de trabalhar e talvez eu esteja sendo mais procurado agora do que antes", afirma. Aos 93 anos, o artista não pensa em se aposentar e diz lidar bem com as limitações impostas pela idade diante das longas jornadas de gravação, especialmente comuns nas novelas.

"Se eu disser que não quero fazer mais nada, que vou fechar, que agora acabou, isso não me agrada. Eu gostaria de estar nessa batalha até quando desse. Aposentadoria é uma palavra da qual fujo, e trabalhar é uma palavra que adoro", ele acrescenta.

Ary Fontoura, de pele clara, cabelos brancos e bigode, está sentado, apoiando as mãos sobre uma bengala. Ele veste um terno marrom com camisa e gravata e tem uma expressão séria. Ao seu lado, Fernanda Montenegro, também de pele clara, com cabelo branco curto e óculos de armação vermelha, está de pé com a mão apoiada no ombro dele, vestindo um conjunto em tons claros e escuros. Ao fundo, há um mural cheio de fotos, recortes, mapas e anotações, sugerindo um ambiente de investigação ou planejamento.
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Ary Fontoura e Fernanda Montenegro em cartaz do filme Velhos Bandidos

Em entrevista à BBC News Brasil por videoconferência, Fontoura reflete sobre sua carreira de quase oito décadas, as transformações pelas quais a televisão vem passando, o espaço dado a atores seniores como ele e a forma como se faz humor hoje no país.

BBC News Brasil — O senhor é sempre bem-humorado e acompanhou muitas mudanças na maneira como se faz humor. Há quem diga que os humoristas têm cada vez menos espaço para fazer piadas. O senhor concorda? Quais são os limites do humor?

Ary Fontoura — O humor não tem limites. Quer dizer, são as circunstâncias da vida que impõem esse limite à gente. Hoje as pessoas são temerosas do ridículo, então precisa tomar cuidado quando o humor interfere na vida de cada um para não ferir. Essa é a grande dificuldade de fazer paródias a respeito de alguém ou um comentário jocoso a respeito de uma situação. É preciso ter esse cuidado que anteriormente não se tinha. Falava-se abertamente, não havia preconceitos, não havia nada. Você tinha mais facilidade. Por outro lado, o público hoje ri de qualquer coisa. Qualquer coisinha faz com que as pessoas se divirtam.

BBC News Brasil — É mais fácil fazer humor hoje?

Fontoura — Acho mais difícil, porque tem meandros que você não pode atingir. Sempre está monitorado, não tem a liberdade de criação que tinha antes, sempre tem uma autocensura. Mas, por outro lado, o público é mais acessível.

BBC News Brasil — O senhor virou um fenômeno nas redes sociais nos últimos anos. Já teve receio de dizer alguma coisa e enfrentar alguma reação negativa, um cancelamento?

Fontoura — É como andar sobre o fio da navalha. Se não tomar cuidado, escorrega. As redes sociais buscam destruir as pessoas. Eu também fico na parte crítica da vida, dos acontecimentos do cotidiano. É por isso que a página é bem-sucedida e o público recebe bem. Eles não se sentem atingidos. É difícil, porque de repente você escorrega e tem que pedir uma desculpa, porque a reação é imediata.

BBC News Brasil — As redes exigem uma exposição maior da vida pessoal, e o senhor sempre foi discreto. Como tem sido lidar com essa nova dinâmica?

Fontoura — A gente sente que as pessoas respeitam e vão até um determinado ponto. Até o ponto que você permite. Você tem todo o direito de não querer fazer tal coisa ou fazer uma coisa mais profundamente. No terreno do humor, eu escancaro um pouco, vou um pouco além, porque minha carreira sempre foi ligada à comédia. Com esse ridículo da vida eu sempre soube lidar bem. Quando é muito invasivo, você se dá ao luxo de não atender, de não fazer.

BBC News Brasil — A que o senhor atribui o sucesso nas redes sociais, especialmente entre o público mais jovem, que às vezes o conhecem não pelas novelas, mas pela internet?

Fontoura — É uma questão de empatia. Sou um tanto quanto empático junto a elas. Tenho 61 anos só de Rede Globo, mas na minha carreira tenho 78 anos. Comecei aos 15, por aí, e venho trabalhando com comédia esse tempo todo. Bem ou mal, já tive belas escorregadas, alguns puxões de orelha por ter errado, porque todo ser humano é passível de erro, mas sei bem lidar com isso.

Ary Fontoura, de pele clara, com cabelos brancos ralos e bigode espesso, aparece de perfil com a boca aberta, como se estivesse discutindo. Ele veste um terno escuro com camisa listrada e gravata, em um ambiente de iluminação quente que destaca as rugas e a tensão em seu rosto.
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Ary Fontoura em cena do filme Velhos Bandidos

BBC News Brasil — A TV se transformou muito desde o início da sua carreira. O que mudou para melhor e o que mudou para pior?

Fontoura — Hoje a imagem da TV é muito melhor, mais rápida, mais ousada. A leitura é cinematográfica. A gente faz uma cena oito, dez vezes, porque ela é detalhada e, quando vai para a sala de montagem, existem inúmeras possibilidades de montar o capítulo da melhor maneira. É tudo mais caprichado. Vejo progressos nesse aspecto.

Não gosto de ser saudosista e dizer que era bom antigamente. Mas o que era bom antigamente são as histórias, que hoje são um pouquinho simplificadas. Eles te dão um valor X, e muito bem, são 150 capítulos, você tem que me apresentar essa novela nesse espaço de tempo e disso não poderá fugir. A gente fica fechado dentro desse tempo de início, meio e fim. Antes era mais livre. A gente dizia 'poxa, como essa novela vai bem, vamos dar uma esticadinha'. Não se tem mais essa possibilidade. Mas dizer que as oportunidades não existem, os bons papeis não existem, isto não é verdade. O que eu acho é que faltam boas histórias.

BBC News Brasil — As novelas têm enfrentado uma queda de audiência nos últimos anos. A que o senhor atribui esse interesse menor, principalmente das novas gerações, pelas novelas?

Fontoura — Antes, para o mocinho beijar a mocinha, demorava 180 capítulos. Hoje é um minuto. Não pode demorar tanto. As pessoas não têm mais paciência. Não é só na novela, é na vida. Se a novela busca o público, a gente tem que chegar ao público como ele quer. Hoje a gente se comporta com muita pressa. As coisas e as pessoas envelhecem rapidamente e tudo já vira um déjà vu.

BBC News Brasil — Muitos atores dizem que, com o passar dos anos, os convites para trabalhar diminuem. Como o senhor avalia o espaço dado a artistas mais seniores?

Fontoura — No que concerne a mim, não vejo isso, não. Não tenho parado de trabalhar e talvez eu esteja sendo mais procurado agora do que antes. Isso talvez pela capacidade que tenho, pelo tempo de trabalho. Eu estudo o roteiro de uma forma teatral e transformo isso em uma forma cinematográfica. É isso o que interessa à TV.

BBC News Brasil — Também tem artistas que dizem que essas jornadas de gravações, sobretudo as das novelas, que são muito longas, podem ser um pouco desafiadoras com a idade. O senhor sente algum tipo de dificuldade?

Fontoura — Se eu dissesse que não, não seria verdade. É claro que sim. O corpo humano tem reações que você não gostaria que ele tivesse. Mas, por um outro lado, há o entusiasmo do fazer. A gente sabe que vai encontrar um trabalho duro pela frente, que não é fácil, então você vai se poupando em todos os setores, passa a ter uma dedicação única em função do trabalho, sua vida fica menos divergente. Você vive praticamente como se estivesse em um santuário, um lugar absolutamente separado.

BBC News Brasil — Após uma carreira tão longa, existe ainda algum sonho ou algum personagem que o senhor gostaria de fazer?

Fontoura — Há inúmeros, e dá uma certa insegurança. Meu Deus, será que vai dar tempo de fazer pelo menos um? Sempre existem coisas que você nunca fez ou porque não havia possibilidade ou porque não havia dinheiro. Isso deixa você frustrado, na expectativa de que um dia possa acontecer. Existem inúmeros papeis que gostaria de fazer. São sonhos. A vida é isso. Você tem que sonhar.

BBC News Brasil — O senhor pensa em se aposentar em algum momento?

Fontoura — Olha, graças a Deus — e tenho que apelar para ele, porque é ele que está me segurando por aqui —, tenho tido uma série de coisas boas. Eu tenho, felizmente, uma saúde boa. Fisicamente estou bem. Também cuido bastante disso. Acho que ainda posso fazer muitas coisas dentro da minha faixa etária, coisas que ainda não fiz e que me dão a possibilidade de sonhar. É importante para mim esse lado lúdico, o lado do sonho, porque sem ele eu não acho que a vida teria um significado maior. Se eu disser que não quero fazer mais nada, que vou fechar, que agora acabou, isso não me agrada. Eu gostaria de estar nessa batalha até quando desse. Aposentadoria é uma palavra da qual fujo, e trabalhar é uma palavra que adoro.

Um grupo de cinco idosos está reunido em um ambiente com iluminação quente que lembra um bar ou lounge: à esquerda, Tony Tornado, de pele escura com óculos escuros, faixa na cabeça e camisa estampada; ao lado, Teca Pereira, de pele escura, sorridente, com cabelo curto grisalho; no centro, Vera Fischer, de pele clara, com cabelo volumoso e vestido vermelho; ao fundo, Reginaldo Faria, de pele clara, com óculos escuros, sentado; e à direita Hamilton Vaz Pereira, de pele clara, com cabelo e barba grisalhos, também de óculos escuros, vestindo camisa jeans e jaqueta com franjas, com as mãos erguidas.
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Da esq. para a dir., Tony Tornado, Teca Pereira, Vera Fischer, Reginaldo Faria e Hamilton Vaz Pereira em cena do filme Velhos Bandidos

BBC News Brasil — É muito legal em Velhos Bandidos ver você, Fernanda Montenegro e vários atores seniores, como Tony Tornado e Reginaldo Faria, reunidos.

Fontoura — Esses encontros foram muito agradáveis. As pessoas vinham com tudo. Velhos Bandidos teve esse aspecto primoroso do que cada ator que chegava ao set significava e o que poderia fazer mesmo fazendo pouquinho. Não tinha essa história de fulano entrou, disse uma frase e foi embora. Teve? Sim, mas foi uma grande frase. Uma frase que poderia ser um discurso imenso, porque traz toda uma história por trás. Traz uma vida toda. Nosso elenco é, sim, um elenco de pessoas maduras — amadurecidas, melhor dizendo —, mas que está lá fazendo com o maior prazer por cada um dos personagens. A gente tem uma memória boa e tem o teatro brasileiro todo muito vivo dentro da cabeça, então era muito agradável conversar sobre o passado. Eram grandes tempos — e que nos trouxeram até aqui.

BBC News Brasil — Qual é o segredo para chegar aos 93 anos tão cheio de vida, de projetos e de vontade?

Fontoura — O segredo está nessa conversa. Você vai ver que estou sempre entusiasmado com o que faço. Procuro dignificar a minha profissão, fazer o melhor dentro dela, porque trabalho para o público. Convido as pessoas a entenderem que a vida continua e que, enquanto há vida, há esperança — e essa esperança tem que ser mantida. Por que eu vou querer sair dessa vida de outra forma, a não ser naturalmente? Não quero provocar nada, mas quero continuar assim, trabalhando. Eu tenho muita coisa ainda para fazer, tá?

Estou feliz com a minha profissão, estou feliz com a idade que tenho, estou feliz com os planos que tenho. Sou uma pessoa que planifica muito a vida, e ainda tenho pretensões de dar passos mais difíceis e me superar.

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BBC
Pedro Martins - BBC News Brasil
postado em 20/03/2026 08:55 / atualizado em 20/03/2026 09:26
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