
As duas cestas de siris que um par de pescadores carregava ao descer do barco nas margens do Lago de Maracaibo pareciam pesadíssimas.
Cambaleando, caminharam rapidamente naquele meio-dia de meados de outubro de 2025 até uma balança pendurada sob um teto de chapas metálicas, enquanto alguns siris exibiam suas garras de cor turquesa, tentando escapar.
"Oitenta e três!", gritou um supervisor antes de anotar em um caderno o número de quilos de crustáceos frescos. Eles juntaram as cestas junto a outras dez, também cheias.
Em sete horas de trabalho, eles encheram as cestas com centenas de exemplares de uma espécie muito apreciada nos Estados Unidos por seu sabor e baixo preço: o siri-azul da Venezuela.
"É delicioso. Tem gosto de lagosta", comentou Jennifer Nava, porta-voz dos pescadores de El Bajo, Paraíso e San Benito.
"Faz muito sucesso nos EUA", acrescentou Nava, sorridente, sentada em uma rede de listras multicoloridas e usando um chapéu de palha.
Os Estados Unidos eram o único mercado da indústria venezuelana do siri-azul, em operação há 35 anos.
Mas, desde janeiro, tudo parou de repente: não houve mais exportações nem pesca.
A paralisação não se deveu à ofensiva militar dos EUA em Caracas naquele sábado (3/1) que levou à prisão do presidente Nicolás Maduro e abriu caminho para uma fase inédita nas relações políticas e energéticas entre os EUA e a Venezuela.
A paralisação teve origem em uma disposição legal nos EUA que nada tem a ver com geopolítica, mísseis ou petróleo, mas com a proteção marinha.
Veto por meio de uma lei antiquada
Uma disposição da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA, na sigla em inglês) estabeleceu que os exportadores de peixes e produtos relacionados deveriam se certificar nos EUA, conforme uma norma de 1972 conhecida como Lei de Proteção dos Mamíferos Marinhos (MMPA, da sigla em inglês).
Em agosto de 2025, a Venezuela passou a integrar uma lista de 12 países que não podem exportar aos EUA nenhum produto pesqueiro por não terem obtido essa aprovação, segundo o MMPA.
Segundo a NOAA, Venezuela, Benim, Irã e Haiti não apresentaram solicitação para essas avaliações e, por isso, não obtiveram um relatório que os autorizasse a exportar.
Cerca de 89 países passaram pela verificação e outros 34 foram aprovados parcialmente, incluindo o Brasil.
Em janeiro, apenas duas unidades de processamento estavam em funcionamento nas costas de San Francisco, às margens do lago de Maracaibo. Antes, cerca de 20 empresas processavam e transportavam os siris-azuis para os EUA.
"A indústria teve de fechar completamente até novo aviso ou até que sejam encontrados novos mercados para desenvolver", explicou em janeiro Francisco Martínez, empresário venezuelano e presidente da Câmara de Industriais Produtores de Caranguejo (Caiproca), uma das duas associações de produtores do crustáceo à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.
A Caiproca, que chama o crustáceo de "ouro azul", espera que a certificação da NOAA possa ser obtida nos próximos seis meses, segundo uma publicação recente em suas redes sociais.
"Estamos adaptando os nossos processos para cumprir as normas globais de proteção aos mamíferos marinhos", acrescentou.
Cerca de 15 mil pescadores em 14 municípios venezuelanos — 12 ao redor do lago de Maracaibo e outros em Mérida e Trujillo — costumavam sair para pescar o siri-azul e vendê-lo a empresários para exportação, segundo dados oficiais.
"Muita gente ficou sem trabalho", lamentou Francisco Martínez.
Empresários do setor esperam que os governos do presidente americano, Donald Trump, e da presidente interina venezuelana, Delcy Rodríguez, sucessora de Maduro, cheguem a acordos não apenas sobre energia, mas também sobre a exportação de produtos marinhos.
Segundo Martínez, da Caiproca, eles solicitaram à NOAA, dos EUA, que reabra seu portal às autoridades venezuelanas para que apresentem rapidamente todas as informações necessárias para retomar as exportações do exótico siri-azul.
Outras indústrias, como a do camarão, continuam exportando dezenas de milhares de toneladas por ano para diversos mercados.
Uma indústria em ascensão
As exportações de produtos do mar da Venezuela para os EUA aumentaram 58% entre 2019 e 2024: o faturamento passou de US$ 267 milhões (cerca de R$ 1,3 bilhão) para US$ 423 milhões (cerca de R$ 2,1 bilhões), segundo um relatório do Departamento de Agricultura dos EUA, que a classificou como "uma indústria em ascensão".
As exportações de siri-azul venezuelano para os EUA cresceram de US$ 23,3 milhões (cerca de R$ 116 milhões) em 2016 para US$ 62,4 milhões (cerca de R$ 312 milhões) em 2021, de acordo com dados oficiais.
O órgão da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Alimentação e a Agricultura (a FAO) apontou que as exportações de siri-azul venezuelano alcançaram US$ 75,6 milhões (cerca de R$ 378 milhões) em 2022.
Mais do que os números, muitos restaurantes de Maryland, na costa leste dos EUA, serviam pratos desse crustáceo vindo da Venezuela.
Isso porque o siri extraído do lago de Maracaibo é da mesma espécie pescada na baía de Chesapeake, em Maryland — Callinectes sapidus — e, na última década, passou a superar outros siris-azuis exportados para os EUA, como o asiático.
Seu sabor é "bastante particular, entre salgado e doce", devido à sua reprodução no estuário de Maracaibo, onde as águas dos rios se encontram com as do golfo da Venezuela e do mar do Caribe, segundo o empresário Francisco Martínez.
Bons tempos no sul, reclamações no norte
O siri-azul venezuelano é considerado um produto premium no mercado internacional, com um único cliente durante anos: os EUA.
"Os EUA são a mandíbula do mundo e, definitivamente, o siri-azul é um produto gourmet", disse Martínez à BBC News Mundo, destacando que o alimento chega a restaurantes, hotéis e grandes redes de supermercados.
O atrativo do produto venezuelano até agora vetado não é apenas o sabor, mas também o preço: uma libra de siri-azul venezuelano custa apenas um terço ou a metade do valor do produto de Maryland.
A diferença de preços e sua longa durabilidade no mercado representavam uma "ameaça" para uma indústria local nos EUA que já enfrentava impactos "severos" pela importação de carne pasteurizada do crustáceo azul da Ásia, explicou Bill Sielling, vice-presidente da Associação das Indústrias de Frutos do Mar da baía de Chesapeake, à BBC News Mundo.
Segundo Sielling, é "ridiculamente baixa" a tarifa de importação nos EUA sobre o siri-azul venezuelano, que subiu de 10% para 15% desde meados de 2025, como ocorre com todos os produtos comercializados a partir do país sul-americano.
Às margens do lago de Maracaibo, a 3.200 km de Maryland, as unidades processadoras venezuelanas pagavam apenas cerca de US$ 2 (cerca de R$ 10) por quilo de siri-azul aos pescadores.
O salário diário do pescador artesanal de siri-azul venezuelano é de cerca de US$ 30 (cerca de R$ 150).
Custos muito inferiores aos de Maryland.
Por isso, produtores nessa região dos EUA pediam desesperadamente que Trump aumentasse essas tarifas ou até eliminasse completamente o produto venezuelano de seu mercado.
Fim de ano de incertezas
A indústria do siri-azul na Venezuela enfrenta um fechamento técnico, enquanto o governo de Delcy Rodríguez dá os primeiros passos para o processo de certificação que permitiria retomar a exportação do crustáceo para os EUA.
Essas diligências formais podem levar vários meses, segundo fontes do setor.
O governo dos EUA tem se concentrado na indústria petrolífera após a prisão de Maduro, aliviando sanções econômicas, recompondo as relações com o novo Poder Executivo e incentivando grandes empresas do setor a investir, enquanto no país sul-americano são modificadas leis e contratos.
No entanto, nas praias venezuelanas do lago de Maracaibo, sobram lamentos porque seu principal produto ficou à margem.
Uma alternativa para os pescadores é se concentrar em outras espécies, como a corvina e o robalo, com o uso de anzóis.
Mas essa pesca não é tão lucrativa. O siri-azul, de pinças turquesa e sabor apreciado, é o produto principal dessas praias.
E, por ora, sua exportação para o norte permanece paralisada.
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