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'Nunca imaginaríamos que seria tão sinistro': as lembranças do golpe que mudou a Argentina há 50 anos

Em 24 de março de 1976, as Forças Armadas derrubaram a viúva de Juan Domingo Perón e estabeleceram um sistema repressivo caracterizado pelo sequestro, tortura e desaparecimento de pessoas

Norma Morandini foi deputada entre 2005 e 2009, senadora entre 2009 e 2015 e candidata à Vice-Presidência da República em 2011 -  (crédito: Arquivo do Senado argentino)
Norma Morandini foi deputada entre 2005 e 2009, senadora entre 2009 e 2015 e candidata à Vice-Presidência da República em 2011 - (crédito: Arquivo do Senado argentino)

Aurora acordou na manhã de 24 de março de 1976 com a ligação de uma colega de estudos e ouviu quatro palavras: "Enfim estamos no governo".

A jovem do outro lado da linha tinha informações novas porque trabalhava no Ministério da Defesa argentino. Aurora respondeu: "Ah, bom" e desligou.

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"O golpe aconteceu por volta das 03h20 da madrugada. Eu não estava ouvindo o rádio", diz, lembrando que "assim é que funcionavam as comunicações" há 50 anos.

Os jornais da manhã tampouco chegaram a informar sobre o que seria o sexto golpe de Estado da Argentina em menos de meio século. Mas, embora todos apontassem que haveria perda de liberdades e à repressão às dissidências, o golpe que começou naquele 24 de março foi consideravelmente mais violento.

De 1976 a 1983, as Juntas Militares implementaram o que a Justiça argentina mais tarde definiu como um "plano sistemático de desaparecimento, tortura e extermínio", ocorrido "no contexto de um genocídio".

Organizações de defesa dos direitos humanos estimam que 30 mil pessoas desapareceram durante esses sete anos, número que até hoje segue gerando debate.

A freira Aurora Álvarez, vinda de León, na Espanha, onde se encontra uma das missões de sua congregação, disse à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, que havia meses que se antecipava o fim do governo de Isabel Perón, viúva de Juan Domingo Perón, que havia assumido o poder após a morte do marido, em 1974.

"Eu trabalhava como orientadora em uma escola secundária e, naquele 24 de março, senti que a naturalidade com que nos relacionávamos havia se tornado um pouco estranha, mas aquele primeiro momento não me pareceu muito diferente da vida cotidiana", relata.

"Vi uma certa inquietação na minha irmã, que era politicamente ativa, mas era a mesma inquietação que eu podia ter por dar aulas de catequese em uma favela."

A preocupação se instalou na casa da família Álvarez, localizada na província de Buenos Aires, quando essa irmã, Teresa, disse aos pais que, por uma questão de segurança, seria melhor sair de casa para morar com uma amiga.

"Então, a irmã de um colega do meu irmão mais novo, que tinha 18 anos, desapareceu. Aquilo foi um alerta. Em seguida, uma catequista da paróquia onde eu dava catequese apareceu morta. Ela e o marido. E depois uma vizinha..."

Em 17 de novembro de 1976, Teresa voltou por uma noite para dormir no apartamento da família.

Naquela noite, uma força-tarefa — como eram conhecidos os comandos militares que sequestravam e faziam desaparecer pessoas — invadiu a casa e a levou. Ela tinha 21 anos.

Aurora só descobriria algo sobre sua irmã anos mais tarde.

"Ali começou a divisão das nossas vidas: antes e depois do sequestro da minha irmã. E sentimos o isolamento dos vizinhos. Havia muito silêncio. As pessoas não falavam, não diziam nada, não faziam perguntas. Ninguém queria se associar a essa família, que passou a ser tratada como se tivesse lepra."

Violência política anterior

"Na minha idade, eu já havia vivido outros golpes de Estado e, ingenuamente, pensei que era mais um golpe e que viria para pôr fim à violência e depois abrir caminho para eleições. Como estávamos enganados!", conta a jornalista e ex-legisladora Norma Morandini, da cidade argentina de Córdoba, à BBC News Mundo em relação a como recebeu a notícia do golpe militar.

A violência a que Morandini se refere eram os confrontos dentro do peronismo entre grupos armados de esquerda (Montoneros) e grupos paramilitares de direita conhecidos como Triple A (denominação popular da Aliança Anticomunista Argentina), além da atuação de outros grupos guerrilheiros como o Exército Revolucionário do Povo (ERP), braço armado do Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT).

Em fevereiro de 1975, o governo de Isabel Perón decidiu que os militares atuassem para alcançar a "aniquilação da subversão", o que — segundo a historiadora Gabriela Águila — aumentou a presença militar naquele cenário político turbulento.

"A subversão se referia a organizações político-militares e grupos guerrilheiros, mas nessa época já havia adquirido um significado bem mais amplo: subversivos eram também sindicalistas, estudantes universitários, jovens, intelectuais e artistas", disse a historiadora à BBC News Mundo.

Mulher falando diante de um microfone
Arquivo do Senado argentino
Norma Morandini foi deputada entre 2005 e 2009, senadora entre 2009 e 2015 e candidata à Vice-Presidência da República em 2011

Quando a notícia do golpe de Estado chegou aos jornais no dia seguinte, a história que se repetia "era a de que o dia 24 de março transcorreu com total normalidade", explica Águila, autora do livro Historia de la última dictadura militar: Argentina, 1976-1983 (História da Última Ditadura Militar: Argentina, 1976-1983, em tradução livre).

"Não foi um dia normal. A presidente foi presa, o Congresso foi ocupado por soldados fortemente armados, os cargos políticos em todo o país foram destituídos, mas de fato havia uma certa normalidade: o costume, na sociedade argentina, de que os militares, de tempos em tempos, assumissem o poder."

"Foi preciso tempo para perceber que aquele não era um golpe de Estado como os anteriores. E quem de fato percebeu isso com maior clareza e dramaticidade são as vítimas das ações repressivas", acrescenta Águila.

Norma Morandini soube na própria pele que não se tratava de um governo militar como os anteriores, um ano e meio após o golpe.

"Em setembro de 1977, meus dois irmãos mais novos, Néstor e Cristina, foram sequestrados de minha casa e desapareceram. Ali começou o nosso calvário. Eles eram simpatizantes da Juventude Peronista e acho que meu irmão fazia parte dos Montoneros."

A figura dos desaparecidos

A grande diferença entre a ditadura de 1976 e os cinco governos militares anteriores foi o desaparecimento sistemático de pessoas em um plano repressivo aplicado à margem da lei.

São chamados de "desaparecidos" aqueles que foram sequestrados, torturados e assassinados, cujos corpos nunca foram entregues às famílias, muitas das quais ainda hoje desconhecem o que aconteceu com seus entes queridos e onde estão seus corpos.

Cristina Aldini, que militava na Juventude Peronista, relembra à BBC News Mundo como foi o momento em que as pessoas começaram a desaparecer.

"Nós sabíamos que um companheiro podia ser preso, mas que essa prisão era legal; então se tomavam medidas: era preciso recorrer a advogados e esperar que fossem libertados ou, se houvesse algum motivo, que se iniciasse uma ação penal", explica.

"Mas o fato de os companheiros que levavam não aparecerem foi algo novo para nós."

Segundo estimativas feitas em 1984 pela Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep), a distribuição por setores do total de desaparecidos foi: 30,2% operários, 21% estudantes, 17,9% trabalhadores, 10,7% profissionais liberais, 5,7% professores e 1,3% artistas.

O fato de os operários terem sido um dos grupos mais mobilizados durante a década de 1970 — e depois o mais atingido pela ação repressiva — deve ser compreendido no contexto da situação econômica anterior ao golpe de Estado.

"A economia argentina estava mergulhada em uma crise muito profunda, com um enorme movimento grevista relacionado à aplicação de um plano de ajuste nos primeiros meses de 1975, que afetou salários, emprego e custo de vida; com uma inflação disparando a níveis astronômicos", afirma Águila.

Por isso, o movimento sindical foi um dos poucos que tentou resistir em 24 de março de 1976, com o anúncio de uma greve geral que nunca chegou a se concretizar.

Nesse mesmo dia, os militares proibiram o direito de greve.

Uma mulher concede uma entrevista enquanto, ao fundo, há uma faixa com rostos de pessoas desaparecidas
Gentileza Eugenia Ponce de León
Iris Pereyra de Avellaneda no ato de 14 de março de 2026 em Campo de Mayo

Essa ação militar contra setores sindicais e operários ficou refletida na história de Iris Pereyra de Avellaneda.

Poucos dias após o golpe, sua cunhada, Margarita Avellaneda, recebeu uma ligação.

"Vivíamos três famílias no mesmo terreno em Munro [província de Buenos Aires], mas a Margarita era a única que tinha telefone. Alguns colegas ligaram para ela e disseram: 'Olha que vem coisa pesada. É melhor você e Floreal saírem daí'."

Floreal Avellaneda, marido de Iris, era membro do Partido Comunista, mas não participava de movimentos armados, e sim da luta sindical.

Ele havia sido representante sindical em empresas como a General Motors nos anos 1960 e na Talleres Electrometalúrgicos Norte (TENSA) no início dos anos 1970.

Quando sua irmã comentou sobre a ligação, ele respondeu: "Por que vamos sair se não cometemos nenhum delito?"

"Jamais passou pela nossa cabeça o que poderia acontecer conosco, nunca pensamos que seria um golpe de Estado tão sinistro", disse Iris à BBC News Mundo.

"No [golpe de] 1955, quando Floreal esteve preso, deram uns socos, uns chutes e nada mais. Mas o que esses genocidas fizeram depois foi tremendo."

Em 15 de abril, menos de um mês após o golpe, uma força-tarefa entrou atirando na propriedade onde as três famílias viviam. Como Floreal fugiu pelos telhados, levaram Iris e seu filho, também chamado Floreal Avellaneda e apelidado de "El Negrito", de 15 anos.

"Fomos o terceiro sequestro entre os companheiros da TENSA. Dos 27 companheiros que integravam a comissão interna, 24 estão desaparecidos", lembra a atual presidente da Liga Argentina pelos Direitos Humanos e da Associação de Sobreviventes do Campo de Mayo.

Mãe e filho foram torturados em uma delegacia da província de Buenos Aires, onde Iris viu "El Negrito" pela última vez. Sem que soubessem, ambos foram levados ao quartel militar de Campo de Mayo, onde funcionava o centro clandestino "El Campito".

"Os militares me espancaram até eu ficar em estado deplorável, me torturaram e até um simularam uma execução", recorda Iris.

Até ser libertada, em junho de 1978, ela não soube o que havia acontecido com o filho.

O golpe de trás das grades

Em 24 de março de 1976, Adriana Chein estava presa no presídio de Villa Devoto. Soube do golpe porque, ao se aproximar das grades, viu metralhadoras apontadas para o seu pavilhão.

Ela havia sido detida em outubro de 1975 pela polícia federal junto com a irmã. Tinha 18 anos, militava desde a adolescência no PRT/ERP e estava na clandestinidade com o companheiro, porque também era procurada pela Triple A.

"Naquela época já havia repressão, embora não fosse como viria a ser depois", contou Chein à BBC News Mundo.

"Estivemos desaparecidos durante 20 dias, enquanto nos torturavam, até que nossa situação foi regularizada."

Uma das grandes diferenças entre ser um prisioneiro legal e estar em uma prisão comum — e não em um centro de detenção clandestino — era que as famílias sabiam onde eles estavam. Mas não havia garantias de tratamento digno.

A prisão de Devoto concentrou, durante a ditadura, todas as presas políticas do país.

"Nós a chamávamos de 'prisão vitrine', porque os militares a utilizavam quando vinham organismos internacionais de direitos humanos para dizer que na Argentina não havia campos de concentração."

Chein ficou presa por sete anos e meio. Saiu da prisão em 10 de setembro de 1982 e permaneceu sob liberdade vigiada até dezembro de 1983, quando a democracia foi restabelecida.

"Não estávamos em um campo de concentração, mas havia políticas de destruição dentro do que supostamente era uma estrutura legal. Havia um chefe de segurança que gritava: 'Vocês vão sair daqui loucas ou mortas'."

Na prisão também havia interrogatórios e a aplicação de regimes de conduta: "Eles mandavam você para o pavilhão das irrecuperáveis, para aqueles em processo de recuperação ou aqueles que já estavam recuperados, mas isso era uma questão totalmente subjetiva."

Esse tipo de categorização se repetiu de forma ainda mais cruel em um dos principais centros clandestinos de detenção do regime: a Escola de Mecânica da Marinha (Esma, sigla em espanhol).

Mulher bordando sobre uma mesa
Gentileza María Claro
Adriana Chein bordando nomes de pessoas desaparecidas pelo 50º aniversário do golpe de Estado

Dos três comandantes militares que assumiram o poder em 24 de março de 1976 — Jorge Rafael Videla (Exército), Orlando Ramón Agosti (Força Aérea) e Emilio Eduardo Massera (Marinha) — apenas este último tentou desenvolver um projeto político próprio.

Em um dos capítulos mais sombrios da ditadura, Massera utilizou, para esse projeto, militantes que estavam na Esma. Cristina Aldini foi detida na rua em 1978 e levada a esse centro de tortura.

"Estavam ocorrendo situações de uma perversidade particular. Nós estávamos imersos no que era um processo de 'recuperação', e isso se tornava insuportável porque era como caminhar na beira do precipício", disse à BBC News Mundo.

Parte dessa "recuperação" implicava que, em algumas ocasiões, Aldini era levada à casa dos pais e deixada ali por um tempo, para depois voltar a ser detida na Esma, o que fazia com que o trauma do sequestro se repetisse continuamente.

"Nossas famílias estavam sendo mantidas como reféns. O tempo todo eles ameaçavam levar minha irmã, que também havia militado", afirma a autora — junto com outras ex-detentas — do livro Ese Infierno: Conversaciones de cinco mujeres sobrevivientes de la Esma (Aquele Inferno: Conversas de Cinco Mulheres Sobreviventes da Esma, em tradução livre).

Em um momento quase surreal, os militares obrigaram a sua irmã a se casar.

"Imagine, genocidas que atropelaram todas as regras, todos os limites humanos, consideraram que estava errado que ela estivesse vivendo com o parceiro. Então, eles a obrigaram a se casar no civil. E eles foram ao casamento", relata.

"É uma experiência enlouquecedora, mas era assim que agiam os senhores da vida e da morte."

Em 1979, Cristina conseguiu autorização para ir ao interior do país terminar seus estudos, mas a vigilância continuou e, já em plena democracia, em 1985, antes do julgamento das Juntas Militares, ela seguiu recebendo ameaças de que iriam matar toda a sua família.

'A noite dos lápis'

Além de estender a sua política repressiva ao universo sindical e da classe trabalhadora, com o respaldo de amplos setores do poder econômico, a Junta Militar também colocou especial ênfase no sistema educacional, com apoio do setor civil mais conservador.

Não apenas foram eliminadas as atividades políticas em escolas e universidades, como também se passou a controlar o conteúdo do ensino, e professores e estudantes desapareceram.

Em seu relatório de 2015, o Registro Único de Vítimas do Terrorismo de Estado (RUVTE, na sigla em espanhol) determinou que, por faixas etárias, o grupo de 20 a 24 anos foi o que mais sofreu fatalidades (assassinatos e desaparecimentos), com 2.749 mortos. Também estimou que 617 das vítimas tinham entre 13 e 19 anos.

Vinda da cidade de Buenos Aires, Emilce Moler contou à BBC News Mundo o que viveu em sua juventude na cidade de La Plata.

Filha de um policial aposentado e antiperonista, ela começou seu ativismo na adolescência na União dos Estudantes do Ensino Médio (UES), uma organização peronista e de esquerda.

"Quando, em dezembro de 1975, ainda em democracia, um colega nosso da UES, de 18 anos, apareceu enforcado em uma ponte, vi que a idade não seria nenhuma barreira para a ferocidade do que estava por vir."

"Eu estudava em uma escola de arte em um ambiente de liberdade e uma participação política muito forte. Não tínhamos a democracia como horizonte, e sim a revolução social."

Nesse clima, Moler e seus colegas debatiam sobre o golpe que todos antecipavam: "Alguns defendiam que seria melhor, porque assim 'as contradições seriam acentuadas'. No meu grupo, dizíamos que, com um golpe militar, continuaríamos perdendo liberdades."

Em 24 de março, ela soube pelo rádio da revolta militar e naquele dia não houve aulas. No dia seguinte, voltou à escola, mas muitos professores já não estavam mais lá, e os estudantes precisavam apresentar documento de identidade para entrar.

Mulheres com lenços brancos e cartazes com fotos de pessoas desaparecidas
Getty Images
Uma marcha das Mães da Plaza de Mayo em 1978, em plena ditadura

Em 16 de setembro de 1976, ela soube que duas de suas companheiras ativistas, Claudia Falcone e María Clara Ciocchini, haviam sido levadas. Na madrugada de 17 de setembro, foram buscá-la.

"Homens encapuzados entraram na minha casa procurando uma estudante de Belas Artes. Não sabiam nem o meu nome. E apareço eu, que sou muito baixinha e, aos 17 anos, era minúscula, com meu pijaminha. Os militares me viram e disseram: 'Ela é muito pequena'. Acordaram a minha irmã e perguntaram para ela: 'Você estuda o quê?'. 'Filosofia'. Perguntam para mim: 'Belas Artes'. 'Vamos levar as duas', disse um. 'Não, o carro está ocupado', respondeu outro. 'Então, se vista, que é você, menina'."

A última coisa de que se lembra daquela noite em sua casa é que a sua mãe a cobriu com um casaco enquanto era levada algemada. Seu pai viu tudo com uma arma apontada para a cabeça, sem poder se mover.

"E, a partir daí, o inferno."

Moler passou por três centros clandestinos, onde foi torturada junto com alguns de seus companheiros de militância. Depois ficou à disposição do Poder Executivo Nacional e foi encarcerada no presídio de Devoto até sua libertação, em 1978.

Seu sequestro, junto ao de outros nove estudantes secundaristas naquele setembro de 1976, é conhecido até hoje na Argentina como La noche de los lápices (A noite dos lápis, em tradução livre). Seis deles continuam desaparecidos.

Quando, como, onde

"Ainda não tínhamos o conceito de desaparecido. Só o tivemos já na democracia, quando buscamos em todos os lugares onde poderiam ter estado e não encontramos nada", disse Moler.

Após o fim da ditadura, muitos familiares de desaparecidos começaram a saber mais sobre o que ocorreu naqueles anos graças ao trabalho da Conadep em 1984, ao julgamento das Juntas Militares em 1985 e aos processos posteriores realizados já neste século.

Aurora Álvarez não soube mais nada sobre Teresa até que, em 1996, quando já havia ingressado na vida religiosa, conheceu aquela amiga com quem sua irmã havia ido morar ao sair da casa da família. Era Cristina Aldini.

Foi assim que soube da militância peronista de Teresa, que nunca havia dito à família com quem militava, mas ninguém pode dizer com certeza onde ela esteve detida e como morreu.

Cristina, por sua vez, soube por aqueles que a torturavam do destino de seu companheiro, morto horas depois de sua própria detenção, em 1978. Chegaram a permitir que ela visse o corpo baleado, mas jamais lhe disseram o que fizeram com o cadáver.

Ladrilho com inscrição
Gentileza Adriana Chein
Placa no colégio onde estudou o companheiro de Adriana Chein é uma homenagem à sua memória

Assim que as visitas foram restabelecidas no presídio de Villa Devoto após o golpe de Estado, Adriana Chein pôde receber a visita da mãe em abril de 1976.

Foi então que soube que o seu companheiro havia desaparecido cinco dias após o levante militar. Ela segue buscando informações sobre o que aconteceu.

"Sempre aparece uma ponta por onde puxar o fio, nunca se abandona a esperança até não haver mais dados", explica.

"Sabemos que os mataram, que os torturaram, que os fuzilaram, mas queremos saber quando, como, onde e, assim, de tempos em tempos, me aproximo de mais uma informação sobre ele."

Norma Morandini levou muitos anos para saber que Néstor e Cristina estavam detidos na Esma.

"Eu sempre digo que, se meus irmãos cometeram um delito, deveriam ter sido julgados e eu, em vez de estar em uma tribuna falando, estaria os visitando na prisão."

E acrescenta: "Esta é a perversidade da figura do desaparecido: alguém cuja morte não foi testemunhada, não tem túmulo, não tem orações."

O filho de Iris Pereyra de Avellaneda desapareceu duas vezes.

Três dias após a sua libertação do presídio de Villa Devoto, em junho de 1978, sua família contou que Floreal havia sido levado para Campo de Mayo, onde foi brutalmente torturado.

O corpo do filho apareceu em 14 de maio, no mesmo dia em que completaria 16 anos, na costa uruguaia, como resultado de um dos primeiros "voos da morte", método que consistia em levar detidos em helicópteros e aviões — às vezes já mortos, às vezes sedados — para lançar seus corpos no mar.

Iris tentou repatriar o corpo do filho a partir do Uruguai, mas ele havia desaparecido novamente.

Nunca mais voltou a aparecer.

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BBC
Matías Zibell - BBC News Mundo
postado em 25/03/2026 17:40
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