
A guerra no Oriente Médio entra pelo segundo mês com as atenções concentradas nas conversações indiretas entre EUA e Irã para um acordo de paz. Enquanto isso, Israel, parceiro de Washington na ofensiva contra a República Islâmica, avança suas tropas através da fronteira do Líbano e anuncia planos para ocupar uma faixa de até 30km de profundidade no território do país vizinho. A razão invocada é forçar o desarmamento da milícia mantida pelo movimento xiita Hezbollah, aliado de Teerã, que retomou os ataques ao norte israelense desde os primeiros movimentos da guerra, em 28 de fevereiro — especialmente, depois de confirmada a morte em bombardeio do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, respeitado como guia espiritual pelos xiitas libaneses, que constituem, individualmente, a principal comunidade do mosaico religioso que compõe o país.
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Os bombardeios e a incursão militar terrestre de Israel, no entanto, ameaçam, transformar o Líbano em mais uma frente de conflito e instabilidade no Oriente Médio. No caso, com o agravante de colocar em risco a frágil unidade costurada desde 1990, ao fim de 15 anos de uma sangrenta guerra civil interconfessional, com um saldo estimado de 120 mil a 150 mil mortos e ao menos 1 milhão de cidadãos deslocados de suas casas. Em quatro semanas, o atual conflito acumula o mesmo número de desabrigados e mais de mil mortos.
O deslocamento em massa da população do sul, majoritariamente xiita, agrava as tensões intercomunitárias em Beirute, destino principal dos refugiados. A elas se somam as pressões de Israel para que o governo libanês desarme a milícia pró-iraniana, segundo determinado em acordo firmado em 2024 (leia mais abaixo). O premiê Nawaf Salam (muçulmano sunita) e o presidente Joseph Aoun (cristão maronita) declararam como ilegais as unidades armadas do Hezbollah e determinaram a sua dissolução. Foram comparados por Mahmoud Qmati, dirigente do grupo, ao governo fantoche francês que colaborou com a ocupação nazista, na 2ª Guerra Mundial.
Fio da navalha
"O risco de uma nova guerra civil continua sendo significativo, tem raízes em questões antigas e não resolvidas, nas divisões sectárias e políticas que persistem", disse ao Correio Sami Nader, diretor do Instituto de Ciência Política da Universidade Saint Joseph, em Beirute. "A preservação do dispositivo armado do Hezbollah mina a autoridade do Estado e sua capacidade de exercer plenamente o monopólio do uso da força", observa. "Nesse contexto, qualquer intervenção externa pode agravar ainda mais as divisões internas e aumentar os riscos instabilidade."
Faysal Itani, também libanês, pesquisador sênior do Middle East Policy Council e professor de política do Oriente Médio na Universidade Georgetown, nos EUA, endossa as preocupações com o potencial de confronto "entre as Forças Armadas libanesas e o Hezbollah, se os militares decidirem desarmar a milícia xiita". E alerta sobre o impacto social, demográfico e político da migração em massa dos xiitas. "Eles vão se assentar em partes de Beirute onde a população predominante é muçulmana sunita e cultiva muitos ressentimentos para com eles", alerta.
"A preocupação prioritária, hoje, é o estabelecimento potencial, de fato, de uma 'terra de ninguém' no sul do Líbano", analisa Sami Nader, da Universidade Saint Joseph. "Isso envolve o deslocamento de população, com a expulsão de moradores para o estabelecimento de uma 'zona tampão' para Israel", completa, citando o objetivo explicitado pelo premiê Benjamin Netanyahu e por seu comando militar. "Ao mesmo tempo, segue obscura a questão de quanto tempo essa situação poderia persistir, o que acrescenta incertezas e gravidade."
Faysal Itani enumera diferenças entre a situação atual e a vivida a partir de 1982, quando, em plena guerra civil, Israel invadiu o Líbano para afastar da fronteira a guerrilha palestina e estabeler em Beirute um governo propenso a reconhecer o Estado judeu e negociar uma paz permanente. Dessa ocupação, que se estendeu até 2000, nasceu o Hezbollah. "A situação atual é diferente de então, quando Israel buscou controlar o território e a população local, em aliança com uma milícia cristã", explica.
"Isso trazia complicações, porque essa população era hostil", compara Itani, lembrando que, agora, o plano israelense é despovoar o território declará-lo zona de operação militar. "Isso não evitará ataques do Hezbollah, mas Israel aprendeu a combatê-lo", ressalta. "E o ânimo da população israelense, hoje, é diferente. A sociedade parece mais mobilizada para uma guerra sem um final visível no horizonte."
Um século de turbulências
Independência
O Líbano contemporâneo começa a tomar forma em 1918, com o fim da 1ª Guerra Mundial e o desmembramento do Império Otomano (turco), do qual era província. No imediato pós-Guerra, a recém-formada Liga das Nações colocou o território sob protetorado da França, junto com a atual Síria. Ao fim da 2a Guerra, em 1945, foi fundada a ONU, e no ano seguinte a República do Líbano passou a ser um dos países-membros.
Sistema político
Com base em recenseamento feito sob a autoridade francesa, foi estabelecido em 1943 o Pacto Nacional, que seria a base do futuro Estado e determina a divisão dos poderes entre as comunidades religiosas que formam sua população. Metade das cadeiras no parlamento cabem aos cristãos maronitas e metade, aos muçulmanos, somadas suas diferentes confissões. A presidência da República cabe a um cristão; o cargo de primeiro-ministro, a um muçulmano sunita; a presidência do parlamento, a um muçulmano xiita.
Tensões interconfessionais
Os dados do censo conduzido sob mandato francês foram questionados desde o início pelos muçulmanos, que se consideravam maioria e reclamavam maior peso no sistema político. As tensões se acumularam ao longo dos anos e resultaram em uma crise, em 1958, contornada por uma breve intervenção militar dos EUA. A entrada progressiva no país de largos contingentes de palestinos, principalmente a partir de 1971, acirrou os atritos sectários e resultou na eclosão de uma guerra civil.
Guerra civil
Em 1975, as tensões irromperam em confrontos armados entre uma coalizão de milícias cristãs e outra de milícias muçulmanas, apoiadas eventualmente pela minoria drusa e por diferentes facções armadas palestinas. Ao fim de 15 anos de combates, com interferências externas de Síria, Israel, Estados Unidos e outras potências ocidentais, um acordo de paz foi firmado em 1990. Desde então, apesar de crises políticas recorrentes, a paz se mantém entre as comunidades, embora os muçulmanos sejam hoje clara maioria e, entre eles, a principal facção seja a xiita.
Invasões israelenses
A presença de guerrilheiros palestinos no sul do Líbano tornou-se fator de repetidos incidentes com Israel, alvo de incursões e ataques com foguetes katyusha. Em 1978, tropas israelenses invadiram o país por terra pela primeira vez, com resultados apenas temporários. A operação se repetiu, em maior escala, em 1982, quando os invasores chegaram a sitiar a capital, Beirute, e forçaram a retirada do território do país da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e de seu líder, Yasser Arafat. As tropas israelenses recuaram inicialmente para o sul, e mantiveram até 2000 o controle de uma faixa de território libanês fronteiriço.
Hezbollah
O Partido de Deus (Hezbollah, em árabe) foi fundado em 1982, sob a liderança de clérigos xiitas do Vale do Bekaa, inspirados pela Revolução Islâmica de 1979, no Irã. Foi resposta imediata não apenas à ocupação israelense, mas também a abusos da guerrilha palestina contra a população xiita do sul do país. Nos anos finais da guerra civil, sua influência cresceu entre a comunidade, desgostosa com suas lideranças tradicionais. Desde o acordo de paz de 1990, tornou-se a única milícia a manter seu dispositivo armado, em nome de combater a ocupação israelense. No período, o Hezbollah travou repetidas escaramuças e ao menos uma guerra (2006) com Israel. Em 2024, como desdobramento da ofensiva de Israel contra o movimento palestino Hamas, na Faixa de Gaza, os xiitas libaneses voltaram a enfrentar as forças israelenses e perderam, em um bombardeio, seu secretário-geral, o xeque Hassan Nasrallah.
Três perguntas para Sami Nader, diretor do Instituto de Ciência Política da Universidade Saint Joseph, em Beirute
É possível que Israel consiga formar uma coalizão, no Líbano, com força suficiente para desarmar o Hezbollah?
O panorama político libanês, historicamente, produziu alinhamentos em torno da questão do desarmamento do Hezbollah. No entanto, a perspectiva de Israel favorecendo ou apoiando uma coalizão com esse perfil se mostra, agora, implausível. Qualquer iniciativa que seja vista como um movimento iniciado de fora, em Israel, ficaria desprovida de legitimidade interna e, portanto, teria pouca chance de sucesso.
Quais as possíveis consequências do deslocamento em massa da população xiita para Beirute?
O deslocamento da população civil xiita do sul do Líbano e do Vale do Bekaa pode ter consequências sérias, pode acrescentar tensão à infraestrutura local, já precária, e perturbar o panorama religioso e demográfico, delicado desde já. Isso ameaça elevar as tensões entre as comunidades e complicar o atual equilíbrio sociopolítico.
Com base na experiência da ocupação entre 1982 e 2000, deve-se esperar que Israel volte a manter suas tropas no Líbano por tanto tempo, desta vez?
Essa possibilidade provoca preocupações em torno de objetivos estratégicos de longo prazo, inclusive de que essa abordagem seja balizada em uma visão ideológica de expandir o que alguns veem como “o território histórico de Israel”, potencialmente avançando pelo Líbano atual. Nesse cenário, algumas narrativas sugerem que o rio Litani seria visto como futura fronteira israelense.
Saiba Mais
Três perguntas para
Sami Nader, diretor do Instituto de Ciência Política da Universidade Saint Joseph, em Beirute
É possível que Israel consiga formar uma coalizão, no Líbano, com força suficiente para desarmar o Hezbollah?
O panorama político libanês, historicamente, produziu alinhamentos em torno da questão do desarmamento do Hezbollah. No entanto, a perspectiva de Israel favorecendo ou apoiando uma coalizão com esse perfil se mostra, agora, implausível. Qualquer iniciativa que seja vista como um movimento iniciado de fora, em Israel, ficaria desprovida de legitimidade interna e, portanto, teria pouca chance de sucesso.
Quais as possíveis consequências do deslocamento em massa da população xiita para Beirute?
O deslocamento da população civil xiita do sul do Líbano e do Vale do Bekaa pode ter consequências sérias, pode acrescentar tensão à infraestrutura local, já precária, e perturbar o panorama a religioso e demográfico, delicado desde já. Isso ameaça elevar as tensões entre as comunidades e complicar o atual equilíbrio sociopolítico.
Com base na experiência da ocupação entre 1982 e 2000, deve-se esperar que Israel volte a manter suas tropas no Líbano por tanto tempo, desta vez?
Essa possibilidade provoca preocupações em torno de objetivos estratégicos de longo prazo, inclusive de que essa abordagem seja balizada em uma visão ideológica de expandir o que alguns veem como "o território histórico de Israel", potencialmente avançando pelo Líbano atual. Nesse cenário, algumas narrativas sugerem que o rio Litani seria visto como futura fronteira israelense. (SQ)
Um século de turbulências
Independência
O Líbano contemporâneo começa a tomar forma em 1918, com o fim da 1ª Guerra Mundial e o desmembramento do Império Otomano (turco), do qual era província. No imediato pós-Guerra, a recém-formada Liga das Nações colocou o território sob protetorado da França, junto com a atual Síria. Ao fim da 2ª Guerra, em 1945, foi fundada a ONU, e no ano seguinte a República do Líbano passou a ser um dos países-membros.
Sistema político
Com base em recenseamento feito ainda sob autoridade francesa, foi estabelecido em 1943 o Pacto Nacional, que seria a base do futuro Estado e determina a divisão dos poderes entre as comunidades religiosas que formam sua população. Metade das cadeiras no parlamento cabem aos cristãos maronitas e metade, aos muçulmanos, somadas suas diferentes confissões. A presidência da República cabe a um cristão; o cargo de primeiro-ministro, a um muçulmano sunita; a presidência do parlamento, a um muçulmano xiita.
Tensões interconfessionais
Os dados do censo conduzido sob mandato francês foram questionados desde o início pelos muçulmanos, que se consideravam maioria e reclamavam maior peso no sistema político. As tensões se acumularam ao longo dos anos e resultaram em uma crise, em 1958, contornada por uma intervenção militar dos EUA. A entrada progressiva de largos contingentes de palestinos, principalmente a partir de 1971, acirrou os atritos sectários e resultou na eclosão de uma guerra civil.
Guerra civil
Em 1975, as tensões irromperam em confrontos armados entre uma coalizão de milícias cristãs e outra de milícias muçulmanas, apoiadas eventualmente pela minoria drusa e por diferentes facções armadas palestinas. Ao fim de 15 anos de combates, com interferências externas de Síria, Israel, EUA e outras potências ocidentais, um acordo de paz foi firmado em 1990. Desde então, apesar de crises políticas recorrentes, a paz se mantém entre as comunidades, embora os muçulmanos sejam hoje clara maioria e, entre eles, a principal facção seja a xiita.
Invasões israelenses
A presença de guerrilheiros palestinos no sul do Líbano tornou-se fator de repetidos incidentes com Israel, alvo ocasional de incursões e ataques com foguetes katyusha. Em 1978, tropas israelenses invadiram o país por terra pela primeira vez, com resultados apenas temporários. A operação se repetiu, em maior escala, em 1982, quando os invasores chegaram a sitiar a capital, Beirute, e forçar a retirada do país da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e de seu líder, Yasser Arafat. As tropas israelenses recuaram inicialmente para o sul, e mantiveram até 2000 o controle de uma faixa de território libanês fronteiriço.
Hezbollah
O Partido de Deus (Hezbollah, em árabe) foi fundado em 1982, sob a liderança de clérigos xiitas do Vale do Bekaa, inspirados pela Revolução Islâmica de 1979, no Irã. Foi resposta imediata não apenas à ocupação israelense, mas também a abusos da guerrilha palestina contra a população xiita do sul do país. Nos anos finais da guerra civil, sua influência cresceu entre a comunidade, desgostosa com as lideranças tradicionais. Desde o acordo de paz de 1990, tornou-se a única milícia a manter seu dispositivo armado, em nome de combater a ocupação israelense. No período, o Hezbollah travou repetidas escaramuças e ao menos uma guerra (2006) com Israel. Em 2024, como desdobramento da ofensiva de Israel contra o movimento palestino Hamas, na Faixa de Gaza, os xiitas libaneses voltaram a enfrentar as forças israelenses e perderam, em um bombardeio, seu secretário-geral, o xeque Hassan Nasrallah. (SQ)

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