Novos ataques aéreos e marítimos coordenados pelos Estados Unidos e Israel contra alvos no Irã, seguidos de uma retaliação em grande escala por Teerã no Golfo Pérsico, intensificaram o conflito na região, um dia após a ação que culminou na morte do líder supremo persa, o aiatolá Ali Khamenei. Alvos do contra-ataque, aliados árabes de Washington divulgaram um comunicado, prometendo responder à agressão, se necessário. Depois de uma reunião do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), representantes dos Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Arábia Saudita, Omã, Catar e Kuwait, disseram que "examinaram os extensos danos resultantes dos traiçoeiros ataques iranianos" e "discutiram medidas para restaurar a estabilidade na região".
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“Estamos nos defendendo, custe o que custar, e não vemos nenhum limite para nós na hora de defender o nosso povo desse ato de agressão”, reagiu o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, citado pela agência France-Presse (AFP). Um dos alvos foi um edifício próximo a uma sinagoga em Bet Shemesh, cidade a 30km de Jerusalém, onde um míssil teria matado nove pessoas e ferido ao menos 45, com 11 desaparecidos. Militares israelenses também afirmaram que projéteis foram lançados desde o Libano, país onde se baseia a organização paramilitar xiita Hezbollah, em direção ao norte do país. “As Forças de Defesa de Israel se preparam para mobilizar cerca de 100 mil reservistas e estão aumentando seu nível de preparação nas diferentes frentes”, disse um comunicado do exército de Israel.
Na rede social Truth Social, o presidente norte-americano Donald Trump afirmou que os Estados Unidos afundaram nove navios militares iranianos, incluindo uma embarcação no Golfo de Omã, que conecta o Mar Arábico com o Estreito de Ormuz, região estratégica para o escoamento de 20% do mercado mundial de petróleo. Há preocupação de que a navegação seja interrompida nesse ponto, o que poderia levar ao aumento no preço de combustíveis fósseis.
“O fechamento do Estreito de Ormuz terá grande impacto nos mercados globais nos próximos dias, principalmente se ele se prolongar”, destaca Manuel Furriela, especialista em relações internacionais e reitor da Universidade Católica de Brasília (UCB). Ele afirma, porém, que, ao menos a curto prazo, o Brasil não será prejudicado com desabastecimento, como em 1973, quando a Organização dos Países Árabes Exportadores de Petróleo (Opaep) proclamou um embargo petrolífero. “Naquela época, o Brasil importava mais de 70% do seu petróleo. Hoje, é exportador”, diz Furriela.
Ao anunciar os ataques por mar, o presidente Donald Trump afirmou que a marinha iraniana pode aguardar mais baixas. "Vamos atrás do resto (das embarcações militares): em breve eles também estarão repousando no fundo do mar! Em outro ataque, destruímos em grande medida o seu quartel-general naval. Fora isso, a Marinha deles vai muito bem!", ironizou Trump.
Anteriormente, a Guarda Revolucionária Iraniana havia anunciado um ataque ao porta-aviões norte-americano Abrahan Lincoln, com quatro mísseis balísticos. O almirante Brad Cooper, do Comando Central dos Estados Unidos (Centcom), negou, em nota, que a embarcação tenha sido atingida. “Os mísseis lançados nem chegaram perto”, garantiu.
Vingança
O Comando confirmou a morte de três norte-americanos pelas forças iranianas no Kwait — as primeiras baixas dos Estados Unidos desde sábado. Trump prometeu vingança. “Infelizmente, haverá mais mortes”, disse, em um vídeo sobre as baixas de soldados. "Mas os Estados Unidos vão vingar seus mortos e desferir o golpe mais devastador aos terroristas que travam uma guerra, basicamente, contra a civilização."
O Irã confirmou “ataques em larga escala” aos aliados norte-americanos no Golfo, mas disse que apenas bases norte-americanas nesses países são alvo da ação. Nos Emirados Árabes Unidos, desde sábado três pessoas morreram e 58 ficaram feridos. Omã, mediador das negociações de fevereiro entre o governo iraniano e os Estados Unidos também foi atingido ontem. No Kuwait, além dos soldados, um cidadão estrangeiro teria morrido.
Com oito feridos em um ataque iraniano de 44 mísseis e oito drones, o Catar divulgou uma nota acusando Teerã de “flagrante violação da soberania nacional”. “O Catar se reserva o direito pleno de responder a esse ataque”, disse o Ministério das Relações Exteriores. No Bahrein, 45 mísseis e nove drones foram abatidos, segundo a agência oficial Bahrain News, com quatro feridos.
Atingida na capital, Riad, e na província oriental, a Arábia Saudita convocou o embaixador do Irã. Os Emirados Árabes Unidos fecharam a embaixada em Teerã, após bombardeios. Na rede social X, o diretor de comunicações estratégicas do Ministério das Relações Exteriores denunciou que bases militares não foram os únicos alvos no país. “Os ataques iranianos de mísseis tiveram como alvo o território; ataques agressivos atingiram locais civis, incluindo áreas residenciais, aeroportos, portos e instalações de serviços, o que coloca em perigo civis indefesos.”
Otan
Em resposta ao contra-ataque iraniano, o comandante da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) disse que as forças se defenderão de “potenciais ameaças”. “Ajustamos e seguiremos ajustando a posição de força da Otan para garantir a segurança de seus 32 Estados-membros, e defender a Aliança de potenciais ameaças", informou o comandante, o general norte-americano Alexus Grynkewich, na rede X.
Alemanha, França e Reino Unido também se manifestaram ontem sobre o contra-ataque iraniano, e disseram que poderão adotar medidas defensivas contra Teerã para defender seus interesses e os de seus aliados no Golfo. “Adotaremos medidas para defender nossos interesses e os de nossos aliados na região, possivelmente por meio da adoção de medidas defensivas necessárias e proporcionais para destruir a capacidade do Irã de lançar mísseis e drones", afirmaram, em um comunicado conjunto.
Na avaliação de Ellie Geranmayeh, pesquisadora do programa de Oriente Médio e Norte da África na organização de análise Conselho Europeu de Relações Estrangeiras, as potências europeias deveriam, ao contrário, “recusarem-se a ser arrastadas para as operações ofensivas dos Estados Unidos, inclusive através da utilização de bases”. “É urgente que os europeus e seus parceiros internacionais se mobilizem para reduzir os danos causados por esta guerra e comuniquem claramente que se trata de uma escolha dos Estados Unidos, em violação da mesma carta da Organização das Nações Unidas (ONU) que os próprios europeus invocaram para condenar a invasão ilegal da Ucrânia pela Rússia e insistir na soberania da Groenlândia.”
