*Bernardo Caporalli
Por estar no Oriente Médio e ser um país de maioria muçulmana, o Irã costuma ser, de maneira equivocada, classificado como árabe. Em entrevista ao Correio, o historiador e internacionalista da Unifesp, Rodrigo Medina Zagni, explica as raízes históricas que justificam a identidade, idioma e etnia persa do país e o porquê desta confusão ser tão comum.
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De acordo com o historiador, há um isolamento geográfico entre o Irã e a península arábica. “A topografia iraniana é o fator físico mais importante para a formação de uma identidade cultural distinta do mundo árabe. Ao contrário dos vastos desertos da península arábica, o Irã é cercado por uma densa cadeia montanhosa, o que dificulta comunicações rápidas e permite um desenvolvimento autônomo de suas mentalidades, cultura e práticas políticas”, explicou.
A herança persa tem origem nos antigos impérios que se formaram há mais de 2500 anos na região. O país chamava-se Pérsia e adotou oficialmente o nome “Irã” em 1935.
Segundo Zagni, a religião islâmica é outro elemento central nessa percepção, embora o Irã seja majoritariamente adepto de uma vertente minoritária do islã, que reúne cerca de 20% da comunidade muçulmana mundia, chamada xiismo. “Em termos de constituição majoritária, apenas em três países [maioria xiita]: Iraque, Síria e Irã. Sem sombra de dúvidas, isso opera como um elemento de distinção em relação a países árabes, onde prevalece uma identidade e práticas religiosas comuns ao sunismo”.
Embora a língua oficial do Irã seja o farsi (persa), e não o árabe, a semelhança entre os dois idiomas é um dos fatores que dificultam a distinção entre esses povos. “O alfabeto farsi utiliza caracteres semelhantes aos da escrita árabe e uma parcela significativa do vocabulário tem raízes árabes”, afirma o professor.
Zagni acrescenta que outros elementos culturais reforçam essa percepção equivocada: “ símbolos religiosos, arquitetura das mesquitas e protocolos de vestimenta se assemelham aos de países árabes, o que contribui para a confusão”.
Diante do cenário de guerra, compreender as diferenças entre árabes e persas qualifica o debate, já que generalizações e equívocos tendem a se intensificar nesse período. O Oriente Médio é diverso e o estudo sobre suas particularidades pode ajudar no combate a estereotipização desses povos.
*Estagiário sob a supervisão de Luiz Felipe
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