A guerra no Oriente Médio ganhou um novo capítulo, com a entrada formal dos houthis do Iêmen no conflito que opõe Israel e Estados Unidos contra o Irã. O movimento xiita, alinhado a Teerã, anunciou ter realizado os dois primeiros ataques diretos contra território israelense desde o início do conflito, há um mês. A ação abre mais uma frente armada na região e pode perturbar a navegação pelo Mar Vermelho, alternativa para algumas monarquias petrolíferas do Golfo ao Estreito de Ormuz, bloqueado pelas forças iranianas.
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Segundo autoridades israelenses, um míssil lançado a partir do território iemenita foi interceptado pelas defesas aéreas do país. Pouco depois, os houthis confirmaram, no X, a autoria da ofensiva. Também afirmaram que novas ações devem ocorrer enquanto persistirem ataques contra o que chamam de "eixo de resistência", que inclui, além do Irã, grupos aliados no Líbano, Iraque e territórios palestinos. Mais tarde, na mesma rede social, reivindicaram o disparo de outros mísseis de cruzeiro e drones em direção a alvos israelenses.
As ações marcam as primeiras participações direta do grupo na guerra, iniciada em 28 de fevereiro, com a intensificação de confrontos entre Israel e Irã e o envolvimento crescente dos Estados Unidos. Até então, os houthis vinham adotando uma postura ambígua, alternando declarações de apoio a Teerã com cautela estratégica, em parte para não ampliar o conflito interno no Iêmen, em curso desde 2014, mas interrompido por um cessar-fogo há quatro anos.
Fundado no início dos anos 2000 e oriundo da minoria zaidita do islamismo xiita, o movimento houthi consolidou-se como uma das principais forças político-militares do Iêmen após tomar a capital, Sanaa, em 2014. Desde então, evoluiu de um grupo insurgente local para um ator regional relevante, com capacidade de lançar mísseis e drones a longas distâncias — inclusive contra alvos internacionais.
Apreensão
A entrada dos houthis no conflito amplia o risco de regionalização da guerra. "A decisão dos houthis de se juntarem ao conflito mais amplo no Oriente Médio representa uma escalada grave e profundamente preocupante", avaliou Farea al-Muslimi, pesquisador do instituto Chatam House, no Reino Unido, especializado no Iêmen e na região do Golfo. "Seu envolvimento corre o risco de ampliar uma guerra já instável, com implicações significativas para a estabilidade regional, o comércio global e a situação humanitária — particularmente no Iêmen", acredita.
O impacto potencial vai além do campo militar. "Interromper a navegação comercial é muito mais fácil para os houthis do que atacar Israel, dada a sua localização estratégica ao longo do estreito de Bab el-Mandeb", avaliou no site do think tank Atlantic Council Allison Minor, diretora do projeto de integração do Oriente Médio da organização. Ela lembrou que, durante a guerra em Gaza, os houthis afundaram vários navios comerciais, utilizando uma combinação de drones, mísseis e embarcações tripuladas e não tripuladas. Essas ações provocaram respostas militares dos Estados Unidos e aliados.
Pelo Estreito de Bab al-Mandeb, corredor estratégico que liga o Mar Vermelho ao Oceano Índico, passa cerca de 10% do comércio global de petróleo. Os houthis já ameaçaram bloquear a região, repetindo táticas utilizadas anteriormente, o que poderia agravar uma crise energética já intensificada pelo fechamento parcial do Estreito de Ormuz por forças iranianas.
"O impacto potencial nas principais rotas marítimas comerciais, especialmente no Mar Vermelho e no Estreito de Bab el-Mandab, não pode ser subestimado. Essas vias navegáveis são cruciais para o transporte marítimo global e o abastecimento de energia. Qualquer interrupção prolongada aumentará os custos de transporte marítimo, elevará os preços do petróleo e exercerá pressão adicional sobre uma economia global frágil, já abalada pela situação no Estreito de Ormuz", escreveu Al-Muslimi.
Jornalistas
A atual ofensiva ocorre em um contexto de escalada generalizada. O conflito já havia se expandido para além de Israel e Irã, atingindo também o Líbano, onde confrontos com o Hezbollah deixaram centenas de mortos. Neste sábado (28/3), o presidente libanês, Joseph Aoun, denunciou como um crime a morte de três jornalistas em um ataque israelense. Outros países do Golfo, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Omã, também registraram ataques com drones e mísseis em um mês de guerra.
Neste sábado (28/3), o Exército iraniano reivindicou um ataque contra um navio logístico norte-americano nas imediações do porto Salalah, em Omã, no Mar da Arábia, onde um homem ficou ferido. Também foram relatadas ofensivas contra os aeroportos do Kuwait e de Erbil, no Curdistão iraquiano, além de lançamentos de mísseis e drones em uma zona industrial dos Emirados Árabes.
Apesar da ausência de sinais de trégua, o governo dos EUA insiste que o fim do conflito está próximo, e o presidente Donald Trump afirma que as forças norte-americanas desmantelaram o aparato militar iraniano. O enviado especial de Trump, Steve Witkoff, disse acreditar que o Irã "aceitará sentar para negociar com Washington nesta semana" para negociar o plano de paz de 15 pontos.
O Paquistão, que atua como intermediário entre as partes, receberá hoje e amanhã, em Islamabad, os ministros das Relações Exteriores da Arábia Saudita, Turquia e Egito para abordar a crise. Antes do encontro, o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, conversou com o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, que elogiou "seus esforços de mediação para deter a agressão contra a República Islâmica".
Siderúrgica
Enquanto intermediários tentam encontrar uma saída diplomática para o conflito, Israel prossegue com os ataques contra instalações sensíveis para Teerã. Depois de bombardear centrais nucleares e uma usina siderúrgica na sexta-feira, forçando a interrupção da produção em uma das principais indústrias de aço do país, as forças israelenses anunciaram novos bombardeios contra a capital iraniana.
A Guarda Revolucionária do Irã advertiu que responderá a qualquer dano econômico com ataques contra instalações industriais em toda a região. O exército ideológico da República Islâmica já havia expressado ameaças semelhantes contra bases militares americanas e hotéis que abrigam soldados dos Estados Unidos.
Palavra de especialista // Manobra calculada
"Agora que os hputhis entraram no conflito, todas as atenções se voltarão para o Mar Vermelho e para a possibilidade do fechamento de um segundo importante ponto de estrangulamento marítimo. No entanto, a decisão de atacar Israel pode ser uma manobra calculada por parte dos houthis, destinada a sinalizar que ainda representam uma ameaça, aumentando a influência do Irã em quaisquer negociações. O grupo, provavelmente, avalia que ataques limitados a Israel dificilmente provocarão uma resposta contundente."
Bridget Toomey, analista de pesquisa da Fundação pela Defensa das Democracias, em Washington
