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As questões que Trump não respondeu sobre a guerra do Irã em discurso sobre o conflito

O que aconteceu com o 'plano de paz de 15 pontos'? E a ameaça de sair da Otan? Correspondente-chefe da BBC para América do Norte aponta para os temas que Trump omitiu em seu pronunciamento.

Israel não parou de atacar o Irã -  (crédito: Getty Images)
Israel não parou de atacar o Irã - (crédito: Getty Images)

O discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, feito da Casa Branca na noite de quarta-feira (1º/4) foi, apesar de prévia especulação, em grande parte uma repetição do que ele vem dizendo há dias sobre a guerra no Irã.

Em um pronunciamento de 20 minutos em horário nobre, ele afirmou que os "objetivos estratégicos centrais" da operação militar dos EUA e de Israel estão "próximos de serem concluídos" após um mês de guerra e projetou que o conflito deve durar entre mais duas e três semanas.

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Também houve as ameaças habituais contra o Irã, incluindo a promessa reiterada de bombardear o país "de volta à Idade da Pedra".

Se alguém copiasse e colasse as postagens deles em seu perfil na rede social Truth Social, ao longo da última semana, o resultado não seria muito diferente deste discurso à nação.

O presidente tentou persuadir os americanos dos méritos dessa guerra. Há uma boa razão para isso, já que pesquisas indicam que uma maioria consistente de eleitores desaprova a operação militar que ele lançou em 28 de fevereiro.

Trump pediu aos americanos que vejam a guerra como um "investimento" em seu futuro e sugeriu que ela não se compara a outros conflitos do último século ou mais, nos quais os EUA acabaram envolvidos por períodos muito mais longos.

Mas houve pouco no discurso para quem esperava respostas claras sobre para onde a guerra está caminhando ou possíveis caminhos de saída para os EUA. Houve omissões evidentes que deixam uma série de questões sem resposta.

Fumaça sobe após explosões que atingiram prédios em Teerã, no Irã, em 1º de abril de 2026
Getty Images
Israel não parou de atacar o Irã

Em primeiro lugar, Israel continua atacando o Irã e sendo alvo de ataques com drones e mísseis, inclusive mais cedo, na quarta-feira (1º/4), em Tel Aviv, capital de Israel, poucas horas antes do início da Páscoa judaica (Pessach).

Uma questão central é se o governo do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, concorda com o cronograma de mais algumas semanas apresentado por Trump. Isso, neste momento, simplesmente não se sabe.

Em segundo lugar, o que aconteceu com o plano de paz de 15 pontos que a Casa Branca vinha pressionando o Irã a aceitar poucos dias atrás? Não houve qualquer menção a ele no discurso de Trump na noite de quarta-feira.

Os EUA estão agora abandonando várias dessas exigências, incluindo a retirada do estoque de urânio enriquecido? Isso também não está claro.

A reabertura do estreito de Ormuz, via marítima praticamente fechada pelo Irã por onde passavam cerca de 20% do petróleo global, é um ponto central neste conflito.

O presidente americano, no entanto, não parece ter uma opinião formada sobre o assunto.

Em um momento, Trump exige que o Irã permita a passagem de cargueiros. No outro, o mesmo Trump diz a aliados que partam para a ação contra o fechamento. "Dirijam-se ao estreito e simplesmente retomem-no, protejam-no e usem-no vocês mesmos", disse na quarta-feira. "A parte mais difícil eu já fiz; agora deve ser fácil."

Mas de repente Trump afirma, sem muitas explicações, que o estreito vai se reabrir "naturalmente" quando a guerra acabar. É pouco provável que essas declarações reduzam as preocupações em relação ao preço do petróleo (o barril custava cerca de US$ 70 antes da guerra, mas agora está em US$ 107, cerca de R$ 552).

A crítica direta de Trump a alguns aliados — ele disse em determinado momento que eles deveriam "criar alguma coragem atrasada" e liderar uma operação para reabrir o estreito — veio após ele cogitar a saída da aliança militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em uma entrevista mais cedo, na quarta-feira.

Mas essa retórica esteve completamente ausente do discurso, apesar de indicações de que seria um ponto central de suas declarações naquela noite.

Uma mulher de vestido branco está no centro da imagem. Ela abastece um carro branco em um posto de gasolina em Washington D.C., EUA
Getty Images
O preço médio da gasolina nos EUA ultrapassou US$ 4 (cerca de R$ 20) pela primeira vez em quase quatro anos

Outra pergunta-chave não respondida está ligada à possibilidade de tropas em solo. O que os milhares de soldados vão realmente fazer na região, já que eles continuam chegando?

A verdade é que depois do pronunciamento de Trump, nós realmente não estamos mais informados sobre o que o presidente americano vê como uma vitória na guerra contra o Irã.

E, dada a natureza conflitante de suas declarações dia após dia, tudo pode mudar a qualquer momento.

Enquanto isso, o preço médio da gasolina nos EUA atingiu US$ 4 por galão (cerca de R$ 5,43 por litro; no Brasil, o valor médio é de R$ 6,78 por litro, segundo a Petrobras) pela primeira vez em quase quatro anos. A aprovação média de Trump caiu de 52,4% em janeiro de 2025 para 39,5% em abril de 2026 (em comparação, a aprovação do presidente Lula no mesmo período variou entre 46% e 48%, segundo o Datafolha).

Esse cenário se agrava a meses da eleição de meio de mandato nos EUA, em novembro, quando o controle do Congresso americano pode passar para o Partido Democrata, oposição ao partido de Trump, o Republicano.

Esse é o presidente dos EUA em busca de uma saída para essa guerra, mas que ainda procura uma maneira de encontrá-la.

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BBC
Gary O'Donoghue - Correspondente-chefe da BBC na América do Norte
postado em 02/04/2026 06:37
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