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Um ano depois, como o tarifaço de Trump mudou a economia global

As tarifas dos Estados Unidos estão no nível mais alto em décadas. Mas qual tem sido o impacto?

Trump provocou um choque global em abril do ano passado, no 'Dia da Libertação', ao impor tarifa mínima de 10% sobre produtos estrangeiros, com taxas maiores para países como a China -  (crédito: AFP via Getty Images)
Trump provocou um choque global em abril do ano passado, no 'Dia da Libertação', ao impor tarifa mínima de 10% sobre produtos estrangeiros, com taxas maiores para países como a China - (crédito: AFP via Getty Images)

Quando o presidente americano, Donald Trump, lançou sua guerra comercial em abril de 2025, ele prometeu uma nova era para os Estados Unidos, se comprometendo a recuperar a indústria manufatureira, aumentar a arrecadação do governo e abrir novos mercados.

Um ano depois, as tarifas nos EUA estão no nível mais alto em décadas, com a taxa efetiva média em cerca de 10%, ante aproximadamente 2,5% no início de 2025.

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Entenda em quatro pontos como essas tarifas mudaram o comércio global.

1. A separação entre Estados Unidos e China se acelera

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (à esquerda), e o presidente da China, Xi Jinping, ambos de terno escuro, se encaram com a cabeça levemente inclinada em 30 de outubro de 2025
AFP via Getty Images
Trump provocou um choque global em abril do ano passado, no 'Dia da Libertação', ao impor tarifa mínima de 10% sobre produtos estrangeiros, com taxas maiores para países como a China

Trump provocou um choque global em abril do ano passado, no chamado Liberation Day (Dia da Libertação), ao anunciar uma tarifa mínima de 10% sobre muitos produtos estrangeiros, com alíquotas bem mais altas para itens de alguns países, como a China.

Quando a China reagiu com tarifas próprias, a troca de medidas elevou as tarifas a níveis de três dígitos e, por algumas semanas, interrompeu quase completamente o comércio entre as duas potências.

As tensões acabaram diminuindo. No fim de 2025, os produtos chineses enfrentaram tarifas, ou impostos de fronteira, 20% mais altos do que no início do ano.

Ainda assim, o comércio entre os dois países sofreu um forte impacto.

O valor das importações dos EUA vindas da China caiu cerca de 30% no ano passado. As exportações americanas para a China tiveram queda semelhante, de mais de 25%.

No fim do ano, os produtos chineses representavam menos de 10% das importações totais dos EUA, nível comparável ao registrado em 2000 e bem abaixo dos mais de 20% em 2016, ano em que Trump foi eleito pela primeira vez.

O aumento das importações americanas de países como Vietnã e México, onde empresas chinesas ampliaram seus investimentos, indica que os laços comerciais entre os dois países não foram totalmente desfeitos.

Mas os números mostram que o desacoplamento iniciado no primeiro mandato de Trump (2017-2021) finalmente se concretizou, afirma Davin Chor, professor e titular da cátedra de globalização na Tuck School of Business da Universidade de Dartmouth, nos EUA.

No que diz respeito aos fluxos comerciais diretos, "a mudança foi muito expressiva e bastante decisiva", disse.

Segundo Chor, da Universidade de Dartmouth, a forte mudança observada no ano passado indica que as empresas colocaram em prática planos que já vinham sendo preparados há algum tempo. Mesmo que Trump não retome as tarifas mais agressivas, isso sugere que a ruptura deve persistir, acrescentou.

"Não se deve esperar um retorno ao normal", afirmou.

2. Parceiros comerciais buscam alternativas

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, caminha em direção ao presidente da China, Xi Jinping, no Grande Salão do Povo, em Pequim, na China, em 16 de janeiro de 2026
Getty Images
As tarifas levaram parceiros comerciais dos Estados Unidos, como o Canadá, a buscar alternativas fora do país

As mudanças promovidas por Trump no regime tarifário dos EUA foram mais amplas do que apenas o anúncio do "Dia da Libertação". Ele também elevou tarifas sobre itens específicos, como aço, madeira e automóveis, e acabou com regras que permitiam a entrada no país de encomendas de até US$ 800 (cerca de R$ 4.000) sem cobrança de impostos, entre outras medidas.

Apesar das novas taxas, as importações dos EUA cresceram mais de 4% no ano passado, um ritmo menor do que em 2024, mas longe de indicar um mergulho no isolacionismo.

Ainda assim, as medidas levaram muitas empresas de outros países a buscar compradores fora dos EUA, enquanto líderes políticos correram para fortalecer relações comerciais alternativas.

Foi o caso até de países como o Reino Unido, que enfrentou uma tarifa relativamente limitada de 10% sobre seus produtos.

Embora os EUA tenham permanecido como principal destino das exportações britânicas em 2025, a participação americana caiu, enquanto países como Alemanha, França e Polônia ganharam espaço.

"Alguns podem se surpreender, o comércio global como um todo… tem se mantido relativamente bem", diz Jun Du, professora de economia da Alston University, no Reino Unido. Mas, segundo ela, "há uma grande reconfiguração em curso".

Os EUA conseguiram convencer alguns países a aceitar mudanças comerciais destinadas a ampliar as oportunidades para empresas americanas, como agricultores, venderem no exterior.

Mas a ofensiva de Trump também afastou aliados, estimulando mudanças que contrariam os interesses dos EUA, até mesmo em casos como o do Canadá, onde Trump acabou isentando a grande maioria dos produtos de tarifas, citando um acordo de livre comércio da América do Norte.

O Canadá concordou recentemente em reduzir suas tarifas sobre milhares de veículos elétricos fabricados na China de 100% para cerca de 6,1%. Foi uma mudança significativa em direção à China e particularmente negativa para as montadoras americanas, que historicamente dominam o mercado canadense.

"O que causa preocupação não é tanto o nível das tarifas, mas o unilateralismo", afirma Petros Mavroidis, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Columbia, nos EUA.

3. Tensões com aliados aumentam

Manifestantes seguram cartazes com as mensagens “parem as tarifas” e “revoguem as tarifas”, com a imagem de Donald Trump, durante um protesto contra as tarifas de 50% impostas pelo presidente dos EUA à Índia, em 30 de agosto de 2025
Bloomberg via Getty Images
As tensões provocadas pelas tarifas se estenderam para outras áreas

As tensões provocadas pelas tarifas transbordaram para áreas além do comércio.

As viagens de canadenses aos EUA caíram 20% no ano passado, gerando uma perda de mais de US$ 4 bilhões (cerca de R$ 20 bilhões) para a economia americana, segundo estimativas da US Travel Association.

As tarifas também complicaram os esforços dos EUA para mobilizar apoio em temas diversos, desde a guerra no Irã até a extensão de uma proibição de 28 anos sobre tarifas aplicadas a transações eletrônicas, como streaming, disse Mavroidis, da Universidade Columbia.

"Como pedir comportamento cooperativo quando você os prejudica no comércio?", afirmou. "Você perde seu poder de influência, que era a maior vantagem dos EUA. Tudo isso desapareceu e, como reconstruir isso?"

Embora a retaliação comercial direta contra os EUA tenha permanecido limitada, não há garantia de que esse padrão continuará, diz o economista Michael Pearce, da Oxford Economics.

Ele observa que a postura de Trump incentivou outros países a explorar políticas mais protecionistas.

"Esse é o principal risco… que, com o tempo, passemos a ver essa retaliação de outras formas", disse. "É assim que os danos da guerra comercial podem se espalhar."

4. Preços sobem nos EUA

Um veleiro passa por um navio porta-contêineres no Porto de Oakland, em Oakland, Califórnia (EUA), em 14 de julho de 2025
EPA/Shutterstock

As tarifas que Trump ameaçou impor no "Dia da Libertação" e que causaram tanta preocupação acabaram sendo reduzidas, após o presidente isentar muitos produtos e firmar acordos com países que garantiam taxas menores.

As grandes promessas feitas naquele momento também não se concretizaram.

A indústria passou boa parte do ano passado em retração, enquanto o investimento estrangeiro nos EUA também caiu, apesar de promessas de algumas empresas, como a farmacêuticas, de aumentar seus gastos, segundo análise da Tax Foundation com base em dados do governo.

Em fevereiro, a Suprema Corte dos EUA derrubou totalmente as tarifas do "Dia da Libertação" chegando a questionar o aumento da arrecadação com tarifas registradas no ano passado. O país agora terá de devolver mais da metade dos US$ 260 bilhões (cerca de R$ 1,3 trilhão) arrecadados.

A Casa Branca afirma que suas políticas levarão tempo para gerar resultados, citando promessas de grandes investimentos por parte de empresas e países. Por ora, porém, o principal impacto das tarifas nos EUA tem sido pressão sobre as empresas e aumento de preços para os consumidores.

Cerca de 55% das novas tarifas foram repassadas aos consumidores no ano passado, estimou o Goldman Sachs em outubro.

Isso ajudou a elevar a inflação nos EUA em cerca de meio ponto percentual no ano passado, para aproximadamente 3%, em comparação com o que teria sido sem as tarifas, disse Pearce.

Com o custo de vida no centro das preocupações de muitos eleitores, o tema tem dificultado o discurso dos republicanos antes das eleições de meio de mandato, em novembro.

Ainda assim, embora as tarifas tenham pressionado o consumo e a atividade econômica, a economia cresceu 2,1%, com a taxa de desemprego em dezembro em 4,4%.

Criou muito ruído, mas é difícil dizer que teve impactos macroeconômicos negativos muito significativos", afirmou Pearce.

Após a decisão da Suprema Corte, a Casa Branca prometeu retomar suas políticas com base em outras leis. Ainda não está claro até que ponto Trump levará isso adiante no período que antecede as eleições.

"Não acho que voltaremos aos níveis do 'Dia da Libertação'", disse Erica York, vice-presidente da política tributária federal da Tax Foundation.

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BBC
Natalie Sherman - Repórter de Negócios
postado em 02/04/2026 19:07
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