
O soldado mais condecorado ainda vivo da Austrália foi acusado de cometer crimes de guerra no Afeganistão.
Ben Roberts-Smith — que deixou as Forças Armadas em 2013 — foi preso no aeroporto de Sydney nesta terça-feira (07/04) e terá de responder na Justiça a cinco acusações de homicídio.
O militar, de 47 anos, nega todas as acusações e já afirmou anteriormente que as alegações contra ele — que ainda não foram avaliadas sob padrão criminal — são "ultrajantes" e "maliciosas".
Roberts-Smith processou vários jornais em 2018 por artigos que o acusavam de diversos crimes de guerra. Ele sempre negou as acusações de irregularidades durante seu serviço militar.
Mas, em 2023, um tribunal civil concluiu que o ex-cabo das forças especiais (SAS) e condecorado com a Victoria Cross provavelmente matou civis desarmados e, em setembro, a Suprema Corte da Austrália se recusou a analisar seu recurso.
O processo civil foi a primeira vez na história em que um tribunal analisou alegações de crimes de guerra envolvendo forças australianas.
Roberts-Smith argumentou que as mortes ocorreram legalmente em combate ou simplesmente não aconteceram.
Em entrevista coletiva em Sydney nesta terça-feira, a Polícia Federal Australiana confirmou que um "ex-soldado de 47 anos foi preso" e informou que ele "será acusado de matar detentos desarmados enquanto servia no Afeganistão entre 2009 e 2012".
Ele responde a uma acusação do crime de guerra de homicídio, uma de participação em encomendar um homicídio e três de auxílio, incentivo ou facilitação de homicídio.
"As alegações são de que as vítimas foram mortas a tiros pelo acusado ou por subordinados das Forças de Defesa Australianas, na presença e sob ordens dele", disse a comissária Krissy Barrett.
Em 2020, uma investigação histórica conhecida como Relatório Brereton encontrou "evidências críveis" de que soldados de elite australianos mataram ilegalmente 39 pessoas no Afeganistão, recomendando a investigação de 19 militares atuais ou antigos.
Uma equipe especializada — chamada Escritório do Investigador Especial (OSI) — foi criada para conduzir essas apurações. Até agora, apenas outra pessoa foi formalmente acusada.
Ross Barnett, diretor de investigações do OSI, afirmou que a prisão de Roberts-Smith representa "um passo significativo" em meio a "circunstâncias desafiadoras".
"O OSI foi encarregado de investigar literalmente dezenas de assassinatos que supostamente teriam sido cometidos no meio de uma zona de guerra, em um país a 9.000 km da Austrália", disse ele.
"Não podemos ir a esse país, não temos acesso às cenas do crime... Não temos fotografias, plantas dos locais, medições, recuperação de projéteis, análise de respingos de sangue... Não temos acesso aos mortos."
Barrett acrescentou que as alegações de má conduta estavam restritas a "uma parcela muito pequena das nossas confiáveis e respeitadas Forças de Defesa Australianas (ADF)".
"A maioria da ADF orgulha o nosso país", disse ela.
Mais cedo, na terça-feira, o primeiro-ministro, Anthony Albanese, afirmou que não comentaria o caso, pois ele está em julgamento.
"É muito importante que não haja envolvimento político", disse.
Em comunicado, o Australian War Memorial, um museu dedicado à história militar do país, afirmou que revisará o material dedicado a Ben Roberts-Smith.
Na época em que jornais australianos publicaram os primeiros relatos das acusações, em 2018, Roberts-Smith era considerado um herói nacional, tendo recebido a mais alta honraria militar da Austrália por ter, sozinho, dominado combatentes do Talebã que atacavam seu pelotão do SAS.
Na tentativa de limpar seu nome, ele iniciou uma batalha judicial de grande repercussão — que durou sete anos, custou milhões de dólares e foi chamada por alguns de "o julgamento do século" na Austrália.
No entanto, um juiz da Corte Federal concluiu — com base no padrão de "preponderância das evidências" — que Roberts-Smith participou de pelo menos quatro homicídios, decisão que foi mantida em recurso.
O juiz, Anthony Besanko, concluiu que Roberts-Smith ordenou, em duas ocasiões, que homens desarmados fossem executados para "iniciar" soldados novatos, e que esteve envolvido na morte de um agricultor algemado, que ele teria chutado de um penhasco, e de um combatente do Talebã capturado, cuja perna protética foi levada como troféu e posteriormente usada por soldados como recipiente para beber.
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