
As memórias da tarde da última quarta-feira (8/4) ainda atormentam Jules Boutros, um médico libanês de 26 anos que vive em Beirute. "Foi um dos dias mais sombrios e difíceis para a comunidade médica de Beirute. Os pronto-socorros espalhados pela cidade foram levados ao limite, superlotados com o fluxo incessante de civis feridos. A tragédia da situação foi sublinhada pela vulnerabilidade das vítimas: as enfermarias estavam cheias de idosos, mulheres e crianças, com as equipes médicas forçadas à tarefa desoladora de suturar recém-nascidos e crianças pequenas", relatou ao Correio.
De acordo com Boutros, apesar de os bancos de sangue estarem quase vazios, os profissionais de saúde de Beirute demonstraram uma determinação heroica. "Trabalhamos em meio à exaustão e a um profundo peso emocional. Foi um dia de dificuldades inimagináveis", disse.
O médico explicou que, mais de 24 horas depois do massacre de quarta-feira, a situação na capital ainda é "extremamente grave". "Estamos procurando por pessoas desaparecidas sob os escombros, os hospitais estão lotados de pacientes em estado crítico. Com mais de 300 mártires em todo o Líbano apenas nesta quarta-feira, o país está em profundo luto", contou.
Na quarta-feira, Israel lançou a Operação Escuridão Eterna e despejou mais de 160 mísseis contra 100 alvos, em Beirute. Apesar de a campanha militar ter sido realizada sob a justificativa de atacar operativos do movimento fundamentalista xiita Hezbollah, cidadãos de Beirute e analistas internacionais descartam que as regiões atingidas fossem bastiões da milícia, considerada um grupo terrorista por Israel.
Boutros agarra-se ao ceticismo, quando questionado sobre as chances de paz com Israel. "A história nos fez céticos. O cessar-fogo do ano passado foi violado em dois dias. Do nosso ponto de vista, o Líbano não possui poder de barganha para uma negociação justa. Parece menos uma conversa diplomática e mais um apelo para que a violência cesse. Há pouca crença, aqui, de que Israel realmente queira a paz", observou. Ele considera o caminho até a paz algo "completamente incerto". "Embora se fale em negociações diretas e nossos representantes governamentais estejam pedindo conversas de paz, uma grande maioria do povo libanês é firmemente contra o engajamento direto. Há uma recusa profunda em buscar a 'paz' com uma entidade considerada responsável por tamanha morte e destruição."
"Os massacres de quarta-feira começaram por volta das 14h14 (8h14 pelo horário de Brasília). Eu estava no trabalho, na área de Sin El Fil, e escutei três explosões massivas. Todos do meu trabalho ficaram em pânico e começaram a checar como estavam os amigos e familiares", contou ao Correio Rawan Nassereddine, uma criadora de conteúdo e editora de vídeos de 30 anos, também de Beirute. Segundo ela, os massacres estão acontecendo em todo o Líbano. "Quanto à paz com Israel, isso não acontecerá, mesmo que eles matem todos nós. É a resistência, e não os enviados pelos Estados Unidos, que decide o que acontecerá no Líbano", avisou.
