Ormuz, um impasse no diálogo cara a cara entre Irã e Estados Unidos
Negociações diretas entre Teerã e Washington, sem precedentes em 47 anos, ocorrem em meio a controvérsias sobre o status quo do Estreito de Ormuz. Reunião se estendeu pela madrugada e pode continuar neste domingo
O premiê Shehbaz Sharif (D), e o líder do Parlamento iraniano, Mohammad Ghalibaf - (crédito: Gabinete do Primeiro-Ministro do Paquistão/AFP)
As primeiras negociações diretas entre Estados Unidos e Irã desde a Revolução Islâmica de 1979 tiveram início com um obstáculo pela frente: o Estreito de Ormuz. A Guarda Revolucionária — exército ideológico do regime teocrático iraniano — ameaçou os navios militares que transitarem pelo canal marítimo por onde passam 20% do petróleo produzido no planeta. "Qualquer tentativa de navios militares de passar pelo Estreito de Ormuz será enfrentada severamente. A Marinha da Guarda Revolucionária Islâmica tem plena autoridade para gerir o Estreito de Ormuz de maneira inteligente", afirmou o comando naval da Guarda, segundo a emissora estatal IRIB. Foi uma resposta ao Comando Central dos EUA, que teria enviado dois navios de guerra e atravessado o Estreito de Ormuz para desativar minas navais instaladas por Teerã.
O vice-presidente americano, J.D. Vance; o enviado especial da Casa Branca ao Oriente Médio, Steve Witkoff; e o genro de Donald Trump, Jared Kushner estiveram sentados frente a frente com membros da comitiva iraniana, liderados pelo presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e pelo ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi. A reunião, no luxuoso Serena Hotel, em Islamabad, conta com a presença de membros do alto escalão do Paquistão.
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À tarde, a televisão estatal iraniana anunciou que houve duas rodadas de conversas e que uma terceira ocorria, provavelmente esta noite ou amanhã (domingo)". "As negociações avançam na direção certa, e o ambiente geral é cordial", garantiu uma fonte do governo paquistanês à agência France-Presse. Mais cedo, Donald Trump demonstrou desprezo pelo possível fracasso das negociações. "Cheguemos ou não a um acordo, tanto faz para mim. O motivo é que nós vencemos. Estamos em negociações muito profundas com o Irã. Vencemos de qualquer jeito. Nós os derrotamos militarmente", declarou o presidente americano.
Ex-embaixadora do Paquistão nas Nações Unidas, no Reino Unido e nos Estados Unidos, Maleeha Lodhi disse ao Correio que "seria irrealista esperar qualquer avanço rápido nas negociações entre os EUA e o Irã". "As posições dos dois lados permanecem muito distantes. Mas é um desenvolvimento positivo que os dois lados continuem a dialogar, pois sabem que retomar a guerra não é uma opção viável", avaliou, em entrevista pelo WhatsApp."Ao menos as conversas serviram como um quebra-gelo, o que traz a esperança de um engajamento sério na busca de um caminho para uma solução diplomática."
Controvérsias
Lodhi admitiu que o status quo e a retirada de minas do Estreito de Ormuz são pontos cruciais e extremamente controversos nas negociações entre os Estados Unidos e o Irã. "Segundo relatos, o assunto foi discutido, mas nenhum acordo foi alcançado devido às visões conflitantes sobre sua gestão futura", observou a ex-diplomata.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, assegurou que deseja um acordo de paz com o Líbano "que perdure por gerações". "O Líbano veio até nós para iniciar negociações diretas. (...) Eu estabeleci duas condições: queremos o desarmamento do Hezbollah e um verdadeiro acordo de paz que perdure por gerações", declarou, em pronunciamento transmitido em rede nacional de televisão. Autoridades israelenses e libanesas se encontrarão, na próxima terça-feira, em Washington, para debater um possível cessar-fogo.
O chefe de governo israelense também garantiu que a operação militar conjunta com os Estados Unidos contra o Irã foi um sucesso. "Conseguimos destruir o programa nuclear e destruir o programa de mísseis", disse. Segundo Netanyahu, os bombardeios também enfraqueceram os dirigentes iranianos e seus aliados regionais. Os ataques a supostas posições do movimento fundamentalista xiita prosseguiram no sul do Líbano. As Forças de Defesa de Israel (IDF) anunciaram que atingiram mais de 200 alvos do Hezbollah entre sexta-feira e sábado.
Especialista em Hezbollah pelo instituto Atlantic Council (em Beirute), Nicholas Blanford prevê difíceis negociações também entre Israel e Líbano. "Os libaneses exigem um cessar-fogo antes das conversações, mas os israelenses dizem que negociarão enquanto ainda realizam operações no Líbano. O Hezbollah rejeitará todas as negociações, sejam elas sob trégua ou com a continuidade dos combates", afirmou ao Correio. "É difícil imaginar que terreno comum libaneses e israelenses possam encontrar neste momento. Netanyahu não é favorável ao cessar-fogo atual e os ataques aéreos de quarta-feira, que mataram 300 pessoas, foram uma tentativa, em parte, de sabotar o acordo de cessar-fogo."
Papa Leão XIV oferece prece pela paz, na Basílica de São Pedro, no Vaticano
(foto: Filippo Monteforte/AFP)
O recado do papa aos poderosos: "Basta de guerra!"
O papa Leão XIV criticou os belicistas e conclamou bilhões de pessoas em todo o mundo a abraçar a paz e a voltar "a acreditar no amor, na moderaçãoe na boa política". Durante vigília pela paz, na Basílica de São Pedro, na Cidade do Vaticano, o líder da Igreja Católica destacou que "há responsabilidades inalienáveis que incumbem aos governantes das nações". "A eles, nós clamamos: basta! É tempo de paz! Sentai-vos às mesas do diálogo e da mediação, não às mesas onde se planeja o rearmamento e se deliberam ações de morte!", declarou. Segundo o pontífice, "a guerra divide, a esperança une; a prepotência oprime, o amor eleva". Como fez no passado, o pontífice americano, naturalizado peruano, não citou nenhum político pelo nome nem apontou nenhum país em específico.
Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG) em 1997. Curioso por natureza, adora buscar histórias. Desde 2005, trabalha no Correio Braziliense, onde entrevistou laureados com o Nobel da Paz, embaixadores e ex-presidentes.