ABUSOS SEXUAIS

'Meu avô abusou sexualmente de dezenas de crianças e mulheres — isso foi o que aprendi após confrontá-lo com uma câmera'

Aos 23 anos, Amanda Mustard decidiu investigar quem seu avô realmente era. Conversou com vítimas, dentro e fora de sua família, e descobriu que ele era um abusador sexual em série.

Mustard afirma que a religião dentro de sua família desempenhou um papel importante ao permitir que os abusos ocorressem -  (crédito: Amanda Mustard)
Mustard afirma que a religião dentro de sua família desempenhou um papel importante ao permitir que os abusos ocorressem - (crédito: Amanda Mustard)

Aos 23 anos, a americana Amanda Mustard embarcou em uma viagem que mudaria a sua vida para sempre.

Uma viagem pelas profundezas mais sombrias de uma história familiar para descobrir quem realmente era o seu avô, William Flickinger, um quiropraxista (profissional que trata dores na coluna e articulações através de ajustes manuais) que abusou sexualmente de inúmeras crianças e mulheres, dentro e fora de sua família.

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O resultado dessa viagem, dessa experiência foi o documentário da HBO Bela Foto, Bela Vida (Great Photo, Lovely Life), dirigido por Mustard e Rachel B. Anderson.

Uma das coisas que mais chamaram a atenção de Mustard durante a realização do filme foi a maneira com que os seres humanos reagem a situações extremamente dolorosas como essas.

"Eu me dei conta de que tudo que era considerado normal na minha família não era normal", afirmou a fotojornalista americana Mustard à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

E ela descobriu como esses segredos de família que todos conheciam, mas sobre os quais ninguém falava, "acabam apodrecendo as raízes da árvore genealógica durante gerações".

Ao vasculhar arquivos obscuros, coletar fotos e vídeos de família, conversar com pessoas que conheceram o seu avô e contatar alguns sobreviventes de abusos sexuais que ele cometeu, Mustard conseguiu montar um quebra-cabeça para recriar o perfil de um pedófilo que cometeu crimes com total impunidade durante décadas, inclusive depois de passar um breve período na prisão.

Ela não apenas teve longas conversas com a sua irmã e a sua mãe, abusadas por Flickinger quando eram crianças, mas também com o seu avô.

Um dia, juntou forças e, com uma câmera, foi confrontá-lo diretamente.

Este é um resumo da entrevista que Mustar concedeu à BBC News Mundo.

BBC News Mundo - Do que se trata o documentário Bela Foto, Bela Vida?

Mustard - O documentário foi uma tentativa, ao longo de oito anos, de falar pela primeira vez sobre o abuso desenfreado que minha família havia sofrido por três gerações. Foi a primeira tentativa de levantar o tapete ver o que estávamos escondendo debaixo dele.

BBC News Mundo - A figura central do filme é o seu avó. Como ele era? O que ele fazia da vida?

Mustard - Ele era quiropraxista, o que lhe dava acesso físico tanto a crianças quanto a mulheres. No início dos anos 1980, ele perdeu a sua licença para exercer a profissão por causa de má conduta, pois abusava de seus pacientes.

BBC News Mundo - As vítimas eram crianças ou também eram adultas?

Mustard - Eram crianças e adultos. Meu avô era um agressor sexual que, de fato, acabou no registro de agressores sexuais.

BBC News Mundo - Ele chegou a ser condenado à prisão?

Mustard - Acredito que ele só tenha cumprido dois anos e meio de uma sentença de quatro anos. E, pelo que eu sei, ele cometeu abusos durante toda a sua vida adulta, embora só tenha sido preso em 1992.

Havia muitos, muitíssimos casos de abuso contra ele, mas simplesmente todos foram arquivados. Meu avô escapou da Justiça uma vez ou outra, e grande parte disso se deveu a uma enorme cadeia de falhas institucionais, uma após a outra.

BBC News Mundo - Poderia me contar mais sobre a personalidade do seu avô?

Mustard - Ele era um homem muito carismático, manipulador e encantador. Devo dizer que não o conhecia tão bem quanto outros membros da minha família, e essa distância realmente me ajudou a fazer meu trabalho e quebrar o ciclo. Nasci nos anos 1990, quando ele já morava em outro Estado, então não me sentia próxima dele, nem o conhecia bem. Eu simplesmente sabia que não deveríamos estar perto dele, embora ele ainda viesse à nossa casa quando visitava a Pensilvânia [um Estado americano].

Mas sim, ele era muito encantador, muito inteligente e muito privilegiado. Acho que ele se safou de muitas coisas que fez nas décadas de 1950, 60 e 70 porque seu pai era muito influente, e acho que isso lhe deu muitos privilégios no início da vida. Meu avô preenche todos os critérios para psicopatia, mas não posso afirmar com certeza que ele era um psicopata porque não existe um diagnóstico formal. Não posso afirmar isso com segurança.

Colagem de Amanda Mustard, pertencente a um próximo livro de fotografia sobre o tema
Amanda Mustard
Mustard afirma que a religião dentro de sua família desempenhou um papel importante ao permitir que os abusos ocorressem

BBC News Mundo - Ainda que o tenha visto poucas vezes, que lembranças você tem dele?

Mustard - Quando éramos pequenos, tínhamos que enviar para ele e para a minha avó cartões de Natal, presentes, pequenas mensagens em fitas VHS que ninguém queria gravar, mas sentíamos que se esperava que o fizéssemos. Eram principalmente para a minha avó. Todos nós nos sentíamos muito mal por ela ter decidido ficar com ele. Eu só queria ser um raio de luz ou de positividade na vida de minha avó, porque sempre me senti em bastante conflito em relação ao fato de ela estar com ele.

BBC News Mundo - Então você sabia que o seu avô era um agressor sexual…

Mustard - Não se tratava de sabermos ou não. Esse tipo de linguagem não fazia parte do modo de falar da minha família. Minha família tinha um linguajar um tanto distorcido sobre o que ele era e a gravidade do tema. Não quero dizer que eles não levavam isso a sério, simplesmente acredito que todos estavam tão traumatizados por sua própria experiência com ele que nunca aprenderam a se expressar sobre isso ou tiveram as ferramentas para enxergar a situação de outra maneira.

Se você cresce sofrendo abusos cometidos pelo seu pai ou alguém próximo, não conhece outra realidade. E se não há recursos disponíveis, como terapia ou qualquer outro tipo de intervenção, a situação se distorce de geração em geração.

Foi assim que eu cresci. Nós sabíamos, nunca houve um momento em que eu não soubesse o que ele era, digamos assim, carinhoso demais ou assustador. Mas não, nunca usamos palavras como abuso, nunca usamos palavras como estupro, sabe?

E foi preciso minha própria experiência de ter sido agredida sexualmente em outro contexto, no início dos meus 20 anos, para aprender esse linguajar e relacioná-lo à minha família, e perceber que aquilo não estava certo.

Comecei a me perguntar: como é possível que todas as mulheres da minha família tenham sobrevivido a isso? Esse foi o grande despertar que tive no início dos meus 20 anos e que me levou a fazer o filme.

Amanda sentada no chão, olhando fotos de família. Foto feita em Toronto, no set de filmagem, durante a produção de material de arquivo para
Chet Tilokani
"Não é apenas a minha família, é muito mais comum do que você imagina", afirma Mustard, após uma extensa investigação sobre o tema

BBC News Mundo - Seu avô era uma pessoa religiosa?

Mustard - Sim, muito religioso, era um cristão evangélico. O cristianismo está bastante arraigado na minha família, e acho que isso desempenhou um papel realmente problemático ao permitir o abuso, porque todas as vezes que queríamos julgá-lo ou algo assim, nos diziam: "Não, isso é um assunto entre ele e Deus". Ou nos diziam coisas como que era nosso dever respeitar os mais velhos.

Há uma expressão que aprendi durante esse processo chamada "desvio espiritual", que se refere ao fato de ser possível interpretar certos valores ou doutrinas religiosas para evitar sentimentos realmente incômodos que surgem com problemas tão sombrios como esse.

Então, sim, grande parte de minha família se apegou à fé como uma maneira de sobreviver ao dano e ao trauma que havia vivido. Acho que isso nos impediu de enfrentá-lo pelo que ele era.

E meu avô também usou a religião para se absolver. Ele dizia: "Bem, a única coisa que tenho a fazer é perdoar a mim mesmo e estou bem com Deus". Então, não importava para ele o que qualquer outra pessoa na Terra pensava, porque ele só prestava contas a Deus. Então, é interessante ver as diferentes interpretações da religião, tanto para a sobrevivência quanto para a permissividade do abuso.

BBC News Mundo - Então, para te proteger, sua família lhe dizia para não se aproximar dele. Que idade tinha quando ouvir essas mensagens?

Mustard - Ele saiu da prisão quando eu tinha cinco anos, e vinha nos visitar a cada dois anos mais ou menos. Me diziam para não ficar no mesmo cômodo que ele, acho que houve algumas tentativas inquietantes, mas eu sabia o suficiente para dizer: "Não vou entrar naquele cômodo com ele". Mas o problema aqui é que ele tinha permissão para entrar em nossa casa.

Havia uma espécie de consciência, com uma espécie de advertência em voz baixa. É muito complexo o que acontece quando não são abordadas as situações de abuso que, ao não serem tratadas, são normalizadas.

BBC News Mundo - Você sentiu medo em algum momento?

Mustard - Não sei. Acho que muitas pessoas têm essa imagem de que ele é um monstro, mas, no fim das contas, ele é só um cara. Um cara muito, muito manipulador que estava rodeado por estruturas que lhe permitiram fazer o que fez.

As pessoas podem assistir ao meu filme e dizer: "Ah, que loucura o que aconteceu com essa família". Mas não é só com a minha família, é muito mais comum do que se pensa, muito mais comum do que se imagina.

E sabe o que mais? Eu não acredito que existam monstros. Eu acredito que todos somos seres humanos que podem fazer coisas monstruosas e que devem pagar por isso.

Mas acho que usar um linguajar demonizante, na realidade, nos absolve de nossa própria responsabilidade de buscar que essas pessoas paguem por isso. É como se disséssemos: "Bem, ele é um monstro, não podemos fazer nada porque isso está além do nosso controle".

Mas, no fim das contas, quando o abuso ocorre, todos os que estão ao redor se veem obrigados a escolher fazer algo ou não. E acredito que muitas pessoas não sabem o que fazer. Por isso, compartilho a história de minha família porque acredito que é muito importante tirar o estigma disso.

BBC News Mundo - Sabe quantas pessoas foram abusadas sexualmente?

Mustard - Não há como saber, mas é mais provável que isso atinja 3 dígitos [mais de 100] do que 2 dígitos.

BBC News Mundo - Você decidiu confrontar o seu avô. Como foi essa experiência?

Mustard - Eu realmente não sentia que tinha outra alternativa. Naquele momento, aos 23 anos, eu me dei conta de que tudo que era considerado normal na minha família não era normal.

A morte da minha avó, a esposa dele, foi o que realmente… Eu estava lá com ela, segurando a sua mão quando ela morreu. Foi algo muito sombrio, uma tragédia ver morrer essa mulher que havia dedicado a sua vida a ele, com profundo pesar. Sem poder dizer tudo o que queria. E percebi que, se não começássemos a falar sobre isso, todas as mulheres da minha família enfrentam a mesma situação.

Então, se tornou algo bastante urgente, e, sabe, eu não teria conseguido fazer isso sem a ajuda de minha mãe.

Quando fomos visitar o meu avô, foi assustador e estressante, mas, ao mesmo tempo, ele era apenas o meu avô. E eu era uma jornalista iniciante. Quando eu me dei conta do contexto mais amplo e do que havia acontecido com a minha família, e o fato de ele ter se safado de tantas coisas, eu senti que não tinha outra opção. Pensei: "Eu tenho que falar com ele".

BBC News Mundo - O que ele te disse?

Mustard - Eu cheguei com uma série de perguntas. O curioso é que eu o entrevistei com uma câmera antes de saber que iria fazer um filme sobre isso.

Eu perguntei a ele como foi a sua experiência, se alguma vez ele teve alguém para falar sobre isso. E acredito que a minha curiosidade o fez se sentir tão confortável que simplesmente começou a falar, quase se transformando em um alívio para ele poder desabafar e falar de muitas coisas que nunca tinha conseguido falar com ninguém.

BBC News Mundo - Ele admitiu as acusações?

Mustard - Ele respondeu a todas as perguntas que lhe fiz. Admitiu que sempre teve essa atração por crianças. Disse que não a entendia, que não sabia o que fazer a respeito, que nunca se sentiu à vontade para falar com ninguém sobre isso.

A situação era complicada porque ele havia aprendido a mentir tão bem que eu sabia que ele estava escondendo algumas coisas, eu sabia que ele não estava sendo completamente honesto.

Mas o fato de ele ter sido honesto o suficiente para admitir que havia abusado de crianças e que tinha dificuldade de controlar essa atração foi, para mim, como um estranho presente de reconhecimento que, muitas vezes, não está disponível para sobreviventes de abusos.

E, no contexto da produção cinematográfica, o fato de ele assumir a responsabilidade por seu próprio comportamento também significou, em certa medida, um alívio para as vítimas, que tiveram que compartilhar os detalhes para convencer as pessoas do que lhes havia acontecido.

Eu me senti realmente agradecida, do ponto de vista cinematográfico, de ele ter admitido o que fez, porque isso ajuda a tirar esse fardo das vítimas.

BBC News Mundo - Soa como uma espécie de jornada de cura.

Mustard - E, ao mesmo tempo, foi horrível, ultrajante e repugnante. Foi muitas coisas. Mas o fato de ele ter admitido parte do que faz foi um reconhecimento que pode ser absolutamente curativo.

Amanda Mustard sorridente, apoiada em um muro
Dani Fresh
"Este filme foi uma terapia artística para mim", diz Mustard

BBC News Mundo - Olhando para trás, o que aprendeu depois de percorrer todo esse caminho?

Mustard - Eu me transformei completamente. Esse filme foi uma terapia artística para mim. A princípio, quando eu estava, por assim dizer, no pé da montanha, me dando conta dos horrores que estavam ocorrendo e que haviam sido normalizados em minha família, não sabia o que fazer.

A gente não sabe o que fazer. Recebi milhares de mensagens e emails de pessoas que me dizem: "Isso está acontecendo em minha família. O que eu faço? Como posso denunciar?". Porque não sabemos o que fazer quando se trata de nossa família.

Naquele momento, eu era uma jovem jornalista e pensei: "Bem, eu posso confiar no processo jornalístico e em minha própria curiosidade para sair e chegar onde for preciso".

Fiz uma autoavaliação bastante exaustiva. A forma que os terapeutas costumam explicar é que todos nascemos com uma mochila cheia de coisas e que em algum momento de nossa vida vai ser útil olhar dentro dessa mochila e perguntar: O que tem aqui dentro? Sobre o que eu quero falar? O que eu não quero manter? O que está pesando? Como eu quero realmente viver a minha vida?

Sim, eu me sinto extremamente curada pela terapia e sinto que estou vivendo de acordo com os meus valores e que me libertei de muitas coisas que eu nem sabia que estavam afetando a minha vida.

Trata-se da natureza traiçoeira do trauma geracional. E definitivamente aprendi que não é tão simples quanto gostaríamos. É uma situação muito, muito complexa quando se sofre abuso de alguém que se ama, e quanto menos se fala sobre isso, maior será o dano causado à família.

BBC News Mundo - Muitas pessoas pensam que as leis deveriam ser mais duras contra os agressores.

Mustard - Castigar quem comete abusos não é a solução. Uma das coisas mais importantes que aprendi é que a prevenção é possível. Se pudermos proporcionar recursos e criar um espaço onde eles podem pedir ajuda antes de cometer crimes, isso mudaria tudo.

Penso constantemente em quanto sofrimento minha família poderia ter evitado se meu avô tivesse recebido ajuda quando tinha 20, 30 anos. Se não era possível naquele momento, no contexto daquela época, agora é possível. Existem muitas organizações que trabalham na prevenção e no apoio às vítimas.

Não basta mandar para a prisão. Meu avô saiu da prisão e continuou cometendo abusos. Por isso, é urgente falar desse tema e, em última instância, isso dará aos sobreviventes o espaço e a permissão para se sentirem compreendidos na totalidade.

Amanda Mustard olhando para a câmera
Jake Naughton
"Castigar quem comete abusos não é a solução", afirma a documentarista

Em caso de suspeita ou denúncia de exploração sexual contra crianças ou adultos no Brasil deve fazer uma denúncia pelo Disque 100 (com funcionamento 24h, inclusive nos finais de semana e feriados).

Em caso de emergência, é possível pedir ajuda à Polícia Militar (190), à Polícia Civil (197) ou ao Disque Denúncia (181).

Mulheres vítimas de abuso ou importunação também podem acionar a Central de Atendimento à Mulher, no telefone 180, disponível 24 horas por dia, inclusive em fins de semana e feriados.

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BBC
Cecilia Barría - BBC News Mundo
postado em 13/04/2026 08:06 / atualizado em 13/04/2026 08:37
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