
Cidades e vilarejos no sul do Líbano estão sendo devastados por demolições israelenses, revelam imagens de satélite e vídeos obtidos pelo BBC Verify, serviço de verificação da BBC.
A análise do BBC Verify identificou mais de 1.400 prédios destruídos desde 02/03, com base em evidências visuais verificadas.
Trata-se apenas de um retrato parcial dos danos causados por ataques aéreos e demolições israelenses, em razão do acesso limitado em solo e da disponibilidade limitada de imagens de satélite. A escala real provavelmente é muito maior.
A destruição dessas edificações civis por Israel ocorreu após a ordem do ministro da Defesa israelense, Israel Katz, em 22/03, para "acelerar a destruição de casas libanesas" próximas à fronteira entre Israel e Líbano. Essa estratégia israelense se baseia no "modelo em Gaza", como parte de sua campanha contra o Hezbollah, grupo político e militar muçulmano xiita que atua no sul do Líbano e é apoiado pelo Irã.
A demolição sistemática dessas cidades e vilarejos pode configurar crime de guerra, disseram especialistas em direito internacional ouvidos pelo BBC Verify.
As Forças de Defesa de Israel (FDI) afirmaram que operam de acordo com o Direito dos Conflitos Armados e não permitem a destruição de propriedades, a menos que haja imperativa necessidade militar.
As Forças de Defesa de Israel acrescentaram, sem apresentar provas, que o Hezbollah instalou infraestrutura militar em áreas civis da região.
Em 02/03, o Hezbollah lançou foguetes e drones contra Israel em retaliação ao assassinato do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, no início da guerra com Israel e os Estados Unidos em 28 de fevereiro.
As Forças de Defesa de Israel responderam com uma série de ataques ao Líbano, visando o que disseram ser infraestrutura do Hezbollah, e iniciaram uma invasão terrestre ao sul do Líbano.
Um porta-voz das Forças de Defesa de Israel ordenou inicialmente que civis libaneses que viviam próximos à fronteira deixassem a região em 02/03. Dias depois, a ordem de evacuação foi ampliada para os que viviam ao sul do rio Litani, a cerca de 30 km da fronteira, e depois foi estendida ainda mais para os que viviam ao sul do rio Zahrani, a 40 km da fronteira.
Em 16/03, as FDI disseram que suas tropas haviam iniciado uma operação terrestre contra o Hezbollah no sul do Líbano.
Estima-se que mais de 1,2 milhão de pessoas tenham sido deslocadas em todo o Líbano, incluindo 820 mil do sul, de acordo com dados do Escritório das Nações Unidas para Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha, na sigla em inglês). O órgão afirmou que a guerra no Líbano forçou muitos a fugir para áreas mais ao norte ou cruzar para a Síria.
O ministério da Saúde do Líbano disse que mais de 2.000 pessoas foram mortas desde o início da guerra. As autoridades israelenses disseram que 13 soldados e dois civis foram mortos pelo Hezbollah nas últimas seis semanas.
As cidades e vilarejos libaneses nas colinas da fronteira agora são dificilmente reconhecidos. Antes caracterizados por suas ruas sinuosas ladeadas por construções de pedra com vista para vales extensos, esses lugares se tornaram cinzentos pela poeira e pelos escombros das explosões, segundo vídeos verificados pelo BBC Verify.
O plano de Katz, ministro da Defesa israelense, para uma "zona de segurança" controlada por Israel, ocuparia cerca de 10% do território do Líbano, se estendendo da fronteira até o rio Litani. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que a medida serviria para "impedir a ameaça de invasão".
Com base em imagens verificadas e na análise de imagens de satélite disponíveis, o BBC Verify encontrou evidências de demolições controladas por Israel em pelo menos sete cidades e vilarejos na fronteira.
A cidade de Taybeh, a cerca de 4 km da fronteira, foi alvo de demolições particularmente intensas. Onze vídeos verificados pelo BBC Verify mostram bairros inteiros sendo destruídos simultaneamente por explosões.
Uma comparação de imagens de satélite feitas em 28/02 e 11/04 mostra que mais de 400 prédios, incluindo uma mesquita, foram demolidos no local.
Enquanto isso, na cidade de Khiam e nos vilarejos de Qouzah, Deir Seryan, Markaba e Aita al-Shaab, outros vídeos verificados mostram explosões coordenadas engolindo vários prédios.
Foram encontradas evidências de que mais de 460 prédios foram demolidos apenas em Aita al-Shaab. Escavadeiras e veículos blindados também podem ser vistos em imagens de satélite do lugar, segundo Tony Reeves, fundador da empresa de análise de inteligência MAIAR.
Na cidade costeira de Naqoura, explosões provocadas por demolições israelenses também danificaram a sede da missão de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) no sul do Líbano.
Kandice Ardiel, porta-voz da Unifil, forças de segurança da ONU baseadas no Líbano, disse ter presenciado demolições regulares de vários prédios de uma vez desde o início de abril.
Uma análise de imagens de satélite pelo BBC Verify mostra que pelo menos 100 prédios foram demolidos em Naqoura nas últimas semanas.
Ardiel, da Unifil, disse que a maioria dos prédios em frente à base da Unifil havia sido destruída, descrevendo a "escala da destruição" em Naqoura como "de partir o coração". "Não são apenas prédios, eles representam uma comunidade", acrescentou.
A demolição deliberada de estruturas não é uma tática militar nova para Israel. Ela foi empregada em amplas áreas de Gaza durante a guerra iniciada após o ataque liderado pelo Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023.
"Ficou claro desde 7 de outubro [de 2023], e desde que Israel e Hezbollah entraram em guerra, que há uma estratégia de Israel para revisar o equilíbrio de poder na região", afirmou Renad Mansour, vice-diretor do programa para o Oriente Médio e Norte da África do Chatham House, think tank (centro de pesquisa e debates) britânico.
Vários especialistas em direito disseram ao BBC Verify que a destruição de propriedades é estritamente proibida pelo direito internacional humanitário, a menos que seja exigida por necessidade militar.
O critério de necessidade é mais rigoroso do que mera conveniência ou vantagem militar, segundo a professora Janina Dill, especialista em segurança global e direito internacional da Universidade de Oxford, no Reino Unido. "Certamente não abrange a destruição de vilarejos inteiros como condição prévia para a segurança nacional a longo prazo", afirmou Dill.
A análise também exige avaliação caso a caso para determinar quais prédios têm relevância militar, disse Yuval Shany, especialista em direito do think tank Instituto para a Democracia de Israel.
A possibilidade de alguns prédios civis serem usados para atividades militares "não justifica uma política abrangente de criação de 'zonas tampão' próximas à fronteira dentro das quais todos os prédios devem ser destruídos", acrescentou.
O professor Ben Saul, relator especial da ONU para contraterrorismo e direitos humanos, afirmou que a "extensa destruição de áreas residenciais, particularmente no sul do Líbano, mas também em partes de Beirute" por Israel parece violar o direito internacional humanitário.
As comunidades muçulmanas xiitas compõem a grande maioria da população do sul do Líbano, mas outros grupos, incluindo cristãos, também vivem na região.
"Em alguns lugares, o padrão de ataques parece ter como objetivo 'limpar' vilarejos e populações predominantemente [xiitas] do sul, punindo coletivamente populações civis entre as quais combatentes do Hezbollah podem estar misturados", disse Saul.
Em resposta, as Forças de Defesa de Israel afirmaram que "qualquer sugestão de que as FDI estão agindo para 'limpar' populações civis, punir comunidades ou atacar civis com base em religião ou seita é categoricamente falsa". E acrescentaram: "Esses avisos não têm como objetivo deslocar permanentemente civis ou impedir seu retorno legal".
Lawrence Hill-Cawthorne, codiretor do Centro de Direito Internacional da Universidade de Bristol, no Reino Unido, reiterou que a "regra fundamental do direito" é que bens civis não devem ser alvo de ataques.
"Não é uma defesa admissível alegar que a destruição total de cidades e vilarejos no sul do Líbano é necessária para criar uma zona tampão para conter o Hezbollah", afirmou Hill-Cawthorne.
"Mesmo que a guerra de Israel no Líbano possa ser considerada autodefesa contra ataques do Hezbollah, sua conduta parece ir muito além de uma guerra limitada de autodefesa contra ataques específicos", acrescentou Hill-Cawthorne.
*Reportagem adicional de Paul Brown e Adam Durbin.
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