
A prisão de Alexandre Ramagem (PL-RJ) nesta semana por agentes do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE) levou autoridades americanas a apurar internamente o que levou a agência a prender o ex-deputado, segundo fontes do governo dos Estados Unidos ouvidas pela BBC News Brasil em caráter reservado.
A detenção de Ramagem não seria de interesse do alto comando do governo do presidente Donald Trump, do contrário, ele não teria sido solto dois dias depois, após forte pressão da ala bolsonarista junto ao governo americano.
Nesse sentido, segundo uma fonte ouvida pela BBC News Brasil, o governo americano também quer esclarecer em que consistiu a cooperação entre autoridades policiais americanas e a Polícia Federal (PF), como apontou o órgão brasileiro em comunicado no dia da prisão de Ramagem.
Segundo esta fonte, haveria dúvidas sobre se o alto comando do ICE, do Departamento de Segurança Interna e do Departamento de Estado tinham conhecimento da? cooperação citada pela PF e a agência de imigração para prender Ramagem.
Ainda de acordo com a fonte, se houve alguma cooperação, ela ocorreu em níveis mais baixos do governo Trump.
Ramagem foi condenado a 16 anos de prisão em setembro de 2025 pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na mesma ação penal que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por crimes de tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito, tentativa de golpe de Estado e organização criminosa.
Ele foi diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante o governo Bolsonaro e foi eleito deputado em 2022, mas teve seu mandato cassado em dezembro passado após o STF determinar a perda de mandato por sua condenação.
Ramagem vive nos Estados Unidos desde o ano passado e é considerado foragido pela Justiça brasileira. De acordo com a PF, ele fugiu do Brasil pela divisa do país com a Guiana, de onde pegou um voo para os Estados Unidos.
A apuração interna do governo americano também busca compreender se a estratégia por trás da atuação brasileira contra Ramagem nos Estados Unidos teria sido uma tentativa de driblar o Departamento de Estado, comandado por Marco Rubio.
Nos Estados Unidos, a extradição precisa ser autorizada pelo Departamento de Estado. Por sua vez, Rubio mantém uma relação de proximidade com lideranças do campo bolsonarista e já criticou o julgamento que deu origem à condenação de Ramagem.
Além disso, há pelo menos cinco anos, autoridades brasileiras vêm enfrentando dificuldades para obter a extradição de investigados e condenados por atos contra ministros do STF ou aos atos do 8 de Janeiro que estejam nos Estados Unidos.
Um exemplo disso é a demora na avaliação ou mesmo a recusa dos Estados Unidos em atender pedidos de extradição, como os que existem contra Ramagem desde dezembro de 2025 e contra o blogueiro Alan dos Santos, expedido em 2021.
Nessa suposta estratégia, conseguir a deportação de Ramagem por questões migratórias seria a forma mais rápida de fazer com que o ex-deputado voltasse ao Brasil, uma vez que a deportação é um procedimento administrativo que não demandaria uma decisão política do Departamento de Estado.
O entendimento é que, se o objetivo da ação junto ao ICE para deter Ramagem era conseguir o envio de Ramagem ao Brasil desviando do Departamento de Estado, a manobra poderia gerar uma quebra de confiança entre as autoridades dos dois países.
Isso ocorre em um contexto já marcado por tensões agravadas pelo tarifaço imposto pelo governo dos Estados Unidos ao Brasil em 2025 e que vinha sendo contornado após a breve aproximação entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Além disso, o cenário em que Ramagem seria deportado sem conhecimento da alta cúpula do governo americano é considerado remoto tanto pela proximidade que a ala bolsonarista tem com parte da administração Trump quanto pela possibilidade de que ele possa exercer algum papel em um eventual governo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a partir de 2027, caso ele vença as eleições presidenciais deste ano.
Procurada pela BBC News Brasil, a PF disse em nota que "a cooperação policial internacional relacionada ao caso ocorreu entre a instituição e interlocutores policiais dos Estados Unidos, com o objetivo de localizar e prender foragido da Justiça brasileira com pedido ativo de extradição".
A PF afirmou ainda que não foi informada oficialmente sobre os motivos que levaram à soltura de Ramagem.
O jornalista e empresário Paulo Figueiredo afirmou ao jornal Folha de S.Paulo que Ramagem foi solto sem pagar fiança, porque sua situação no país foi considerada regular por aguardar julgamento de pedido de asilo nos EUA.
A defesa de Ramagem foi procurada pela BBC News Brasil, mas não se manifestou até a publicação desta reportagem.
Prisão 'relâmpago'
Alexandre Ramagem foi detido pelo ICE na segunda-feira (13/4), em Orlando, na Flórida, onde vive desde o final do ano passado com sua mulher e as duas filhas.
Seu nome e sua foto foram inseridos no sistema de localização de detentos por questões migratórias dos Estados Unidos. Dois dias depois, porém, ele foi liberado pelas autoridades americanas.
No dia em que foi preso, a PF divulgou uma nota afirmando que a detenção de Ramagem havia sido resultado de uma cooperação internacional.
"A prisão decorreu de cooperação policial internacional entre a Polícia Federal e as autoridades policiais dos EUA. O preso é considerado foragido da Justiça brasileira após condenação pelos crimes de organização criminosa armada, de golpe de Estado e de tentativa de abolição violenta do Estado de Direito", disse a PF.
Segundo uma fonte do governo brasileiro ouvida pela BBC News Brasil em caráter reservado, as conversas para a detenção de Ramagem foram lideradas pelo adido da PF na Flórida, que atua, há alguns meses, junto a agentes do Departamento de Segurança Interna.
Segundo esta fonte, o adido teria repassado informações sobre o endereço, a situação migratória e a condenação de Ramagem no Brasil para o ICE e pedido que ele fosse alvo de uma detenção.
Ainda de acordo com essa fonte, o trabalho envolvendo Ramagem foi semelhante ao executado em diversos outros casos relacionados a brasileiros condenados vivendo de forma irregular nos Estados Unidos.
Nas redes sociais, porém, aliados de Ramagem como o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Paulo Figueiredo questionaram a declaração da PF afirmando que não teria havido cooperação da PF com autoridades americanas no caso.
"Causa estranheza até ao mais distraído jornalista, que a detenção tenha sido feita pela polícia imigratória [ICE], enquanto o pedido de cooperação realmente feito pelo Brasil [extradição] segue parado há meses no Departamento de Estado", disse Paulo Figueiredo em seu perfil no X.
Em um vídeo divulgado por ele nas redes sociais, porém, Ramagem agradeceu ao governo Trump por sua soltura.
"Venho agradecer ao governo norte-americano, à mais alta cúpula da administração Trump, e de pessoas que já estavam cientes da nossa situação bem antes, e às pessoas que tiveram que se debruçar por ocasião dessa detenção", disse o ex-deputado.
Na quinta-feira (16/4), o adido da PF na Flórida se reuniu com representantes do ICE sobre a liberação de Ramagem.
A BBC News Brasil apurou que o ICE não teria dado explicações detalhadas sobre a soltura do ex-deputado condenado e que, para a PF, a decisão de liberar Ramagem foi política e não apenas porque ele alega ter um pedido de asilo político pendente.
Isso porque os Estados Unidos vêm deportando imigrantes em situação irregular mesmo que tenham pedidos de asilo como o do ex-deputado.
O ICE não divulgou nenhum posicionamento oficial sobre o caso.

