PSICODÉLICOS

A bizarra história da primeira viagem de LSD do mundo

Albert Hoffman descobriu por acaso os efeitos alucinatórios do LSD, em abril de 1943. Em entrevista à BBC em 1986, ele contou detalhes do seu "apavorante" passeio de bicicleta do laboratório até sua casa e as mudanças trazidas pelo seu "filho-problema" para o mundo.

Albert Hofmann defendia que o LSD poderia ser útil na psiquiatria e só se torna
Albert Hofmann defendia que o LSD poderia ser útil na psiquiatria e só se torna "muito, muito perigoso" quando tomado de forma imprudente - (crédito: Getty Images)

Importante: esta reportagem contém descrições detalhadas de uso de drogas.

"No final da síntese, tive uma situação psíquica muito estranha. Surgiu meio que um mundo de sonhos, uma sensação de unicidade com o mundo."

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O químico suíço Albert Hofmann (1906-2008) trabalhava em um experimento de rotina em uma empresa farmacêutica na Basileia (Suíça), quando fez, por acaso, uma descoberta que mudou o mundo.

Ele foi o primeiro a experimentar, de forma suave e misteriosa, a substância que ficaria conhecida como LSD. E sua decisão de tomar a droga psicodélica três dias depois trouxe visões terríveis e um dos passeios de bicicleta mais estranhos da história.

Tudo começou na sexta-feira, 16 de abril de 1943. Ele preparava um novo lote de dietilamida do ácido lisérgico, um composto que ele próprio havia sintetizado pela primeira vez cinco anos antes.

O químico tinha, na época, 37 anos e estudava plantas medicinais. Hofmann fazia experiências com cravagem, um tipo de fungo que cresce no milho. Seu objetivo era tentar produzir um medicamento que pudesse ajudar as parturientes a evitar o sangramento pós-parto.

O nome da substância em alemão é Lysergsäurediethylamid, que levou ao seu nome mais conhecido: LSD.

A BBC entrevistou Hofmann em 1986. Ele declarou que sua inesperada experiência com a droga fez com que ele relembrasse momentos "místicos" da infância, passados em bosques e florestas.

A sensação de "observar os verdadeiros aspectos da natureza, a beleza" encheu o cientista de alegria.

Hofmann se perguntava se aquele estado agradável de sonho, de alguma forma, estaria ligado aos cristais de LSD que ele estava purificando. Ele não havia ingerido o composto deliberadamente, mas talvez tivesse uma pequena quantidade da substância nos dedos.

Isso indicaria que se tratava de algo muito potente e o químico decidiu descobrir experimentando em si próprio, quando voltasse ao trabalho na segunda-feira.

Cauteloso por natureza, ele começou com o que imaginava ser a menor dose que poderia ter algum efeito.

"Comecei com 0,25 miligramas", relembrou Hofmann. Ele planejava aumentar a dose apenas se nada acontecesse.

"Mas mesmo esta dose muito pequena, a primeira planejada dos meus experimentos, foi muito, muito forte", ele conta.

Depois de tomar a droga, Hofmann começou a se sentir mal e foi para casa cambaleando pelas ruas da Basileia, na sua bicicleta.

Ao longo do trajeto, tudo ia ficando estranho. Sua visão ficou distorcida, como se ele estivesse olhando para um espelho deformador. E, quando chegou em casa, seu senso de realidade havia se desintegrado.

O cientista suíço Albert Hofmann, de terno e gravata, sorrindo para a câmera.
Getty Images
Albert Hofmann defendia que o LSD poderia ser útil na psiquiatria e só se torna "muito, muito perigoso" quando tomado de forma imprudente

Quando entrou na sua sala de estar, Hofmann ficou surpreso ao observar como ela parecia ter mudado completamente.

"A sala em si e os objetos no seu interior tinham uma forma muito diferente, cor diferente, significado diferente", contou ele à BBC.

Até uma cadeira comum parecia ser um "objeto vivo", como se estivesse se movendo. "Era tão incomum que realmente temi que tivesse ficado louco", relembra Hofmann.

As bizarras alucinações prosseguiram por toda a noite. Uma vizinha teve a gentileza de levar leite para ele como antídoto, mas ela parecia ter se transformado em uma bruxa.

"Às vezes, Hofmann se sentia como se tivesse morrido e chegado ao inferno", explica o repórter da BBC. O químico só sentiu que estava voltando ao mundo normal cerca de seis horas depois de tomar a droga.

Sem se deixar abalar por esta alarmante experiência, Hofmann tomaria LSD várias outras vezes nas décadas que se seguiram, para observar seus efeitos.

Seu trajeto de bicicleta do laboratório até em casa, naquela segunda-feira de 1943, é celebrado todos os anos, no dia 19 de abril, por pessoas inspiradas pelo LSD, seja científica ou criativamente.

Em 1985, o professor Thomas B. Roberts, de Illinois, nos Estados Unidos, cunhou a expressão "Dia da Bicicleta", para designar o aniversário.

Hofmann contou sua descoberta para seu chefe na companhia farmacêutica, a Sandoz.

Pelo efeito do LSD sobre ele, o químico calculou que uma colher de chá seria suficiente para 50 mil pessoas. Ele e seus colegas "perceberam rapidamente que se tratava de um agente muito importante, que poderia ser útil na psiquiatria e em pesquisas".

A Sandoz começou a distribuir LSD para hospitais psiquiátricos, em um medicamento experimental chamado Delysid. Alguns psiquiatras o administraram a pacientes, devido aos seus efeitos sobre a mente subconsciente, que permitiam que eles liberassem recordações suprimidas e conflitos mentais.

O LSD se espalha pelo mundo

Os efeitos desta nova e poderosa substância chamaram a atenção do Exército americano, que deu início a um programa de pesquisa altamente secreto, conhecido pelo codinome MK-Ultra.

Ken Kesey (1935-2001) foi um dos civis expostos ao LSD durante esta pesquisa. Ele escreveria posteriormente o livro Um Estranho no Ninho (Ed. Record, 1976), que deu origem ao filme homônimo protagonizado por Jack Nicholson.

"Decidi que era algo importante demais para deixar nas mãos do governo", contou ele à BBC.

Impressionado com o poder alucinógeno da droga, na época ainda legal, Kesey começou a distribuí-la aos seus amigos. E, em 1964, ele reuniu um grupo de pessoas com pensamento parecido.

Eles se autodenominaram Merry Pranksters ("Alegres Brincalhões", em tradução livre) e saíram viajando pelos Estados Unidos, em um ônibus pintado com cores brilhantes.

Foi assim que o LSD saiu dos laboratórios e chegou a todo o país, alimentando a experiência da contracultura.

Na época, já se sabia que os usuários de LSD se arriscavam a enfrentar as chamadas viagens ruins — espirais de medo e pânico aterrorizantes, que podem causar danos psicológicos permanentes. Ainda assim, muitas pessoas que tomavam a droga defendiam seu potencial de mudar o mundo para melhor.

Um dos mais ativos promotores do LSD foi o ex-psicólogo da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, Timothy Leary (1920-1996). Sua famosa frase de efeito "turn on, tune in, drop out" (algo como "ligue-se, sintonize e caia fora") se tornou um slogan que definia a era psicodélica.

Leary escreveu para a farmacêutica suíça em 1963 com um pedido de 100 g de LSD, suficiente para dois milhões de pessoas. A carta foi endereçada a Hofmann.

Já alarmado pelo abuso da sua descoberta fora do campo da medicina, Hofmann recomendou à Sandoz que não atendesse à encomenda de Leary.

"Percebi imediatamente que seria perigoso porque uma substância com um efeito tão profundo deve ser usada com cuidado", contou ele à BBC.

Ônibus dos 'Alegres Brincalhões' de Ken Kesey, estacionado em uma rua de Nova York em 1964.
Getty Images
Os 'Alegres Brincalhões' de Ken Kesey saíram pelos Estados Unidos em um ônibus pintado com cores brilhantes (na foto, estacionado em uma rua de Nova York, em 1964)

Hofmann observou que culturas antigas e comunidades indígenas usaram os alucinógenos por séculos, mas apenas em ambientes religiosos e sempre "nas mãos do xamã, não em público".

Ele destacou que, na sociedade moderna, o equivalente mais próximo do xamã, neste caso, é o psiquiatra e que essas drogas "deveriam permanecer nas mãos do xamã".

Foi por isso que ele receou desde o princípio que "coisas ruins poderiam acontecer" com o uso imprudente e descontrolado do LSD. E ele sentiu que seu temor foi posteriormente confirmado.

Calcula-se que mais de um milhão de americanos tenham tomado LSD em 1969, sem supervisão médica.

Muitos acharam insuportável o lado sombrio dos seus efeitos sobre a mente. Mas Hofmann contou que nunca se sentiu culpado porque "não é o LSD que é ruim".

Ele defendia que, se consumido adequadamente, o LSD não é uma substância prejudicial. Ele só se torna "muito, muito perigoso" quando é tomado de forma imprudente e sem respeito pela sua "profunda influência sobre a sociedade e até sobre a consciência".

Mas, com tantas pessoas tomando a droga descuidadamente, em meio a um número cada vez maior de reportagens na imprensa sobre os seus efeitos prejudiciais, a regulamentação logo se tornou inevitável.

A Convenção das Nações Unidas sobre Substâncias Psicotrópicas de 1971 impôs rigoroso controle internacional sobre o LSD, que seria proibido em muitos países.

Atualmente, o LSD é ilegal em quase todo o mundo e permanece sob rígido controle nos países que permitem seu uso para pesquisas médicas.

O poderoso efeito da substância sobre a mente e o risco de flashbacks de longo prazo fizeram com que ela fosse classificada ao lado da cocaína e da heroína, devido ao seu alto potencial de abuso.

Albert Hofmann morreu em 2008, com 102 anos de idade. Ele contou à BBC que a principal percepção obtida na sua experiência com o LSD é que "a realidade não é algo fixo, mas sim um tanto ambígua".

"Antes, eu sempre pensei que só existisse uma realidade, uma realidade verdadeira. E, então, percebi que existem outras dimensões", contou ele.

O título da sua autobiografia, LSD: My Problem Child ("LSD: meu filho-problema", em tradução livre) reflete sua postura ambivalente em relação à droga. Mas ele manteve sua fé no potencial terapêutico do LSD.

"Acredito que, se as pessoas aprendessem a usar a capacidade indutora de visões do LSD com mais sabedoria, sob condições apropriadas, durante a prática médica e em conjunto com a meditação, este filho-problema, no futuro, poderia se tornar uma criança-prodígio."

Leia a versão original desta reportagem, com o vídeo da entrevista de Albert Hofmann à BBC em 1986 (em inglês), no site BBC Culture.

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BBC
Greg McKevitt - BBC Culture
postado em 19/04/2026 16:03 / atualizado em 19/04/2026 16:50
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