
Donald Trump desmentiu na quinta-feira (23/4) que esteja sob pressão para fechar um acordo de paz com o Irã e encerrar a guerra iniciada em 28 de fevereiro, em parceria com Israel. Com o processo de negociações mediado pelo Paquistão efetivamente estagnado, embora um cessar-fogo esteja em vigor sem prazo definido, o presidente dos Estados Unidos alertou o adversário de que "o relógio está correndo". Mas, em Washington, a oposição democrata monitora o calendário de olho em 1º de maio: é quando vence o prazo legal de 60 dias para que a Casa Branca submeta ao Congresso um pedido de autorização para declarar guerra formalmente — sob pena de iniciar uma retirada ou desafiar abertamente o Legislativo.
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"Tenho todo o tempo do mundo, mas o Irã, não", escreveu Trump em suas redes sociais. "O relógio está correndo para eles!" O presidente deixou de mencionar a tentativa frustrada de retomar negociações diretas com o regime islâmico, na capital paquistanesa, e invocou o impacto que atribui ao cerco imposto pela Marinha norte-americana à entrada ou saída de navios mercantes, em especial petroleiros, dos portos iranianos. "O bloqueio (naval) é hermético e firme, e a partir de agora a situação só vai piorar", ameaçou.
A Lei sobre Poderes de Guerra determina que o presidente, caso tenha acionado as forças militares sem autorização de deputados e senadores, tem 60 dias para determinar o fim das operações. O prazo pode ser estendido por 30 dias, mas apenas se a Casa Branca apresentar ao Congresso, por escrito, garantias de que esse período se destina a proceder à retirada das tropas — não a continuar os combates. Caso contrário, o Legislativo tem de se pronunciar sobre uma declaração formal de guerra. Os ataques coordenados de EUA e Israel começaram em 28 de fevereiro, um sábado, mas o presidente só notificou os parlamentares na segunda-feira, 2 de março. Por essa razão, o prazo legal expira dentro de uma semana.
Cilada
Na avaliação do professor de relações internacionais Gunther Rudzit, da ESPM, Trump parece ter sido atraído pelo adversário a uma armadilha. "Quem está ganhando nessa guerra é o Irã, porque para ele não é uma guerra militar: é uma guerra econômica", observa, em entrevista ao Correio. "E o regime islâmico vai fazer de tudo para sobreviver, mesmo que isso implique um custo humanitário muito grande." O estudioso lembra que Teerã aposta "na sobrevivência", enquanto Washington deu início aos combates sem definir claramente seus objetivos, fossem militares ou políticos.
Enquanto mantiver o Estreito de Ormuz interditado para o tráfego naval, em particular de petroleiros, o governo iraniano vai seguir pressionando a economia mundial — e a dos EUA, onde Trump tem pela frente uma eleição legislativa na qual o Partido Republicano (governista) se vê seriamente ameaçado de perder a maioria apertada que mantém na Câmara dos Deputados, com risco de sofrer o mesmo também no Senado. "Trump não tem alternativas", conclui o professor da ESPM. "Caiu nessa armadilha, porque o Irã não precisa usar força excessiva para fechar o estreito: basta disparar contra um navio, ou tomar um navio, que as seguradoras suspendem as garantias. E nenhum armador vai passar um navio nessas condições."
"Destruir"
Numa demonstração de que enxerga o peso do xadrez econômico, e não ignora o custo político de opções como um ataque por terra, com potencial para causar numerosas baixas militares, o presidente dos EUA voltou a colocar ênfase no bloqueio naval que determinou, com a interceptação de embarcações com origem ou destino em portos iranianos. Como complemento, Trump anunciou que deu ordens à Marinha para "disparar e destruir" qualquer navio ou lancha que seja identificado colocando minas no Estreito de Ormuz.
Desde que o bloqueio foi imposto ao Irã, no último dia 13, as forças dos EUA relatam ter interditado ou abordado mais de 30 embarcações — todas em águas externas a Ormuz e ao Golfo Pérsico. O Irã, por sua vez, intensificou a interdição do estreito, e anunciou na quarta-feira ter forçado o retorno de três cargueiros que buscavam sair em direção ao Mar de Omã.
O impasse naval fez fracassar a tentativa do Paquistão de promover, no último fim de semana, uma segunda rodada de negociações presenciais entre representantes dos dois países. Uma semana antes, uma maratona de 21 horas de reuniões terminou sem acordo, e o vice-presidente dos EUA, J. D. Vance, que liderou a delegação americana, suspendeu de última hora a viagem para Islamabad, na quarta-feira. Ainda assim, Trump decidiu renovar, sem novo prazo, o precário cessar-fogo observado com o Irã — e acatado também por Israel.
"Existe uma vontade real dos EUA de terminar o conflito, para baixar o preço do petróleo e deixar de afetar a economia americana", diz o professor da ESPM. "Mas não acredito que haja essa vontade por parte do governo iraniano, porque ele quer prejudicar o governo Trump e os EUA", observa. "Eles só estão negociando por grande pressão da China."
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