ESTADOS UNIDOS

Trump diz que não estava preocupado durante ataque em jantar

Segundo o procurador-geral interino dos EUA, Todd Blanche, escritos atribuídos ao suspeito indicam que ele queria atacar funcionários do governo Trump.

O secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., foi um dos muitos escoltados -  (crédito: Getty Images)
O secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., foi um dos muitos escoltados - (crédito: Getty Images)

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que "não estava preocupado" ao ser retirado de um jantar de correspondentes da Casa Branca, quando um atirador tentou invadir o local.

"Eu não estava preocupado. Eu entendo como é a vida. Vivemos em um mundo louco", disse Trump no domingo (26/4) em entrevista ao programa 60 Minutes da CBS News, um dia após o incidente em um hotel de Washington.

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A imprensa americana identificou Cole Tomas Allen, de 31 anos, como o suspeito, que foi preso depois que a polícia disse que ele abriu fogo perto de um posto de segurança durante o evento. Ele deve comparecer ao tribunal na segunda-feira.

A força-tarefa de investigação criminal e antiterrorismo do FBI está investigando o incidente.

O procurador-geral dos EUA, Todd Blanche, disse que o suspeito "provavelmente" tinha como alvo funcionários de alto escalão da Casa Branca, com base em descobertas "preliminares". A motivação do suposto atirador ainda está sendo investigada.

Trump estava acompanhado no evento de sábado por membros de alto escalão de seu governo, incluindo o vice-presidente J.D. Vance, o secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr., a secretária de imprensa Karoline Leavitt e o assessor Stephen Miller.

Depois de ser retirado às pressas do palco para um local seguro, Trump disse mais tarde a repórteres em uma coletiva de imprensa no sábado: "Não consigo imaginar que exista alguma profissão mais perigosa".

Em um comunicado divulgado no domingo, a Casa Branca afirmou que Trump "segue sem medo" após sobreviver, junto com membros do gabinete, a "uma tentativa de assassinato com disparo de tiros".

A presidente da Associação de Correspondentes da Casa Branca, Weijia Jiang, classificou o ataque como "assustador".

No domingo, Jiang, que estava sentada ao lado de Trump no jantar, agradeceu ao Serviço Secreto pelas ações que "protegeram milhares de convidados".

No domingo, Trump disse à Fox News que o suspeito "guardava muito ódio no coração há algum tempo" e afirmou que sua família sabia que ele tinha "problemas". Ele acrescentou que o suspeito tinha um "manifesto" e sugeriu que ele era "fortemente anticristão".

A imprensa americana noticiou, citando fontes policiais, que Allen tinha um histórico de postagens anti-Trump nas redes sociais.

Por volta das 20h35 no horário local (21h35 no horário de Brasília) de sábado (25/4), tiros foram disparados no saguão do hotel Washington Hilton. O jantar dos correspondentes da Casa Branca estava acontecendo no salão de baile do hotel, em um andar abaixo.

O presidente, a primeira-dama Melania Trump e o vice-presidente foram retirados às pressas do local pela segurança.

Um vídeo de agentes do Serviço Secreto retirando J.D. Vance do evento momentos antes da evacuação de Trump circulou nas redes sociais, com alguns espectadores questionando o momento em que isso ocorreu.

Em entrevista ao programa de notícias 60 Minutes no domingo, Trump disse que "não facilitou" a sua evacuação pelos agentes.

"Eu queria ver o que estava acontecendo... e naquele momento começamos a perceber que talvez fosse um problema sério."

Em certo momento, Trump disse que seus agentes de segurança pediram que ele se protegesse e "por favor, deitasse no chão". Ele elogiou sua equipe de segurança.

Kennedy cercado por quatro homens. Um deles o segura pelo ombro e o guia, enquanto três correm ao lado, com um deles à frente saltando para um palco. Eles parecem frenéticos. As pessoas atrás deles sentam-se ou ficam de pé, observando.
Getty Images
O secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., foi um dos muitos escoltados

Autoridades disseram que houve troca de tiros entre policiais e o suposto agressor, que foi interceptado. Ele não foi atingido, mas foi levado ao hospital para avaliação.

A polícia disse que ele portava duas armas de fogo, além de facas.

A CBS News teve acesso a um documento que se acredita estar ligado ao suspeito, Cole Allen. Outros veículos de imprensa dos EUA também noticiaram o mesmo documento.

O texto afirma que o atirador queria atacar membros do governo Trump "do mais alto ao mais baixo escalão" e que, embora hóspedes e funcionários do hotel não fossem os alvos pretendidos, eles seriam atacados se necessário para atingir as autoridades.

Segundo relatos, o irmão do atirador contatou a polícia no Estado de Connecticut após receber o texto. O departamento de polícia de New London, Connecticut, disse que foi contatado poucas horas após o tiroteio e notificou imediatamente as autoridades federais.

A BBC News não verificou de forma independente o suposto documento, que foi descrito como um manifesto e teria sido enviado a familiares do suspeito antes da tentativa de ataque.

Confusão generalizada

Na entrevista ao 60 Minutes no domingo, Trump ficou irritado com a jornalista Norah O'Donnell depois que ela perguntou sobre o conteúdo relatado dos supostos escritos, que incluem uma referência a um "pedófilo, estuprador e traidor" sem mencionar nenhum indivíduo pelo nome.

Trump disse que O'Donnell "deveria ter vergonha de si mesma por ler isso, porque eu não sou nenhuma dessas coisas".

Um policial que foi baleado e ferido durante o incidente recebeu alta do hospital. Seu colete à prova de balas "nos ajudou a evitar uma possível tragédia", disse o chefe de comunicações do Serviço Secreto, Anthony Guglielmi, à BBC.

Vários repórteres da BBC estavam presentes no jantar e descreveram cenas de confusão generalizada após o som de tiros.

Gary O'Donoghue, correspondente-chefe da BBC na América do Norte, disse ter ouvido "sons altos".

"Em instantes, pensei: 'Esse é o som grave e abafado que armas semiautomáticas fazem'", disse ele.

A sala foi brevemente isolada, antes de ser anunciado que o evento seria remarcado, e os participantes foram retirados do local.

Blanche disse à CBS News que os investigadores acreditam que o suspeito viajou para a capital de trem – de Los Angeles para Chicago, antes de seguir para Washington.

Allen se descreve na plataforma LinkedIn como engenheiro mecânico, desenvolvedor de jogos e professor. Ele é de Torrance, no Estado da Califórnia, onde um endereço que se acredita estar ligado a ele está sendo revistado.

Ele será formalmente acusado em um tribunal federal nesta segunda-feira (27/4) por agressão a um agente federal e uso de arma de fogo durante um crime violento, disseram as autoridades.

O presidente fez um pronunciamento na Casa Branca após o ataque. Vestindo um smoking, ele falou para uma sala cheia de jornalistas também de traje formal e elogiou o Serviço Secreto, dizendo que todos na sala deviam a eles uma "enorme gratidão".

Embora tenha criticado a mídia durante seus dois mandatos como presidente, inclusive na entrevista ao programa 60 Minutes, Trump também reservou um momento para agradecer à imprensa pela "cobertura responsável" do ataque.

Ele também pediu que as pessoas "resolvam suas diferenças pacificamente".

Ele usou o incidente para reforçar seu argumento a favor da construção de um novo salão de baile na Casa Branca, escrevendo no Truth Social que isso não teria acontecido "com o Salão de Baile Ultrassecreto Militarmente em construção".

O projeto polêmico enfrentou diversos desafios legais.

Um homem, vestindo um casaco do FBI, e uma mulher com um casaco preto simples caminham em direção a uma casa, de costas para a câmera. A casa tem dois andares, é cinza-clara e fica próxima à do vizinho. O caminho é ladeado por arbustos bem cuidados, e um carro prateado está estacionado na entrada da garagem.
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As autoridades estão realizando buscas em uma residência na região de Torrance, na Califórnia, ligada ao suspeito

Esta é a terceira vez que Trump enfrenta uma ameaça de assassinato. Ele foi levemente ferido em julho de 2024, durante um comício em Butler, Pensilvânia. Em setembro de 2024, um suspeito armado foi visto escondido nos arbustos de seu clube de golfe em West Palm Beach, na Flórida.

Trump estava participando do Jantar dos Correspondentes da Casa Branca pela primeira vez como presidente. Sua última participação havia sido em 2011, como cidadão comum.

Após o incidente, o ex-presidente Barack Obama disse: "É nossa obrigação rejeitar a ideia de que a violência tenha qualquer lugar em nossa democracia."

"É também um lembrete impactante da coragem e do sacrifício que os agentes do Serviço Secreto dos EUA demonstram todos os dias." Sou grato a eles – e agradeço que o agente que foi baleado esteja bem."

Líderes mundiais também condenaram o incidente.

O presidente Lula usou as redes sociais para se solidarizar com Trump pelo episódio.

"Minha solidariedade ao presidente Donald Trump, à primeira-dama Melania Trump e a todos os presentes no jantar com correspondentes em Washington. O Brasil repudia veementemente o ataque de ontem à noite. A violência política é uma afronta aos valores democráticos que todos devemos proteger", escreveu.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, disse estar "chocado" com o ataque, acrescentando: "Qualquer ataque às instituições democráticas ou à liberdade de imprensa deve ser condenado nos termos mais fortes possíveis."

Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, disse estar "aliviado" por Trump e a primeira-dama, juntamente com os presentes, estarem em segurança.

O premiê australiano, Anthony Albanese, também disse estar "satisfeito em saber" que os presentes no local estavam em segurança.

* Kayla Epstein contribuiu para esta reportagem.

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BBC
Imogen James; Helen Sullivan; Tabby Wilson
postado em 27/04/2026 06:06 / atualizado em 27/04/2026 06:50
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