
No dia seguinte à derrota histórica que o governo sofreu no Senado com a rejeição do advogado-geral da União, Jorge Messias, a uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), o Planalto se mantém em silêncio.
Não há expectativa, até o momento, de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se pronuncie, nem mesmo pelas redes sociais. A BBC News Brasil apurou que é possível — mas não está previsto — que Lula fale sobre o ocorrido em um evento público marcado para a tarde desta quinta-feira (30/4) no Planalto, para o anúncio de crédito para aquisição de caminhões e ônibus.
Já o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) afirmou ainda na manhã desta quinta que a derrota tem um "gosto amargo", porque Messias "seria um grande ministro no Supremo Tribunal Federal para ajudar no combate à corrupção".
Haddad, pré-candidato ao governo de São Paulo, disse em entrevista ao vivo ao portal Metrópoles que Messias tem tido papel importante no combate à corrupção, mencionando casos mais recentes, como o do Banco Master e o do INSS. "Esses casos todos contaram com uma Advocacia-Geral da União de prontidão para apoiar os ministérios a fazer o que tinha que ser feito".
Para Haddad, que afirmou não saber o que aconteceu para que Messias fosse rejeitado pelo Senado, chamando o gesto de "incompreensível", "o combate à corrupção e ao crime organizado perdeu um aliado no Supremo".
Ele mencionou também uma publicação do ministro André Mendonça, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ao STF, lamentando a decisão da maioria dos senadores.
"Respeito a decisão do Senado, mas não posso deixar de externar minha opinião. O Brasil perde a oportunidade de ter um grande Ministro do Supremo. Messias é um homem de caráter, íntegro e que preenche os requisitos constitucionais para ser Ministro do STF", escreveu Mendonça em sua conta no X.
"E amigo verdadeiro não está presente nas festas; está presente nos momentos difíceis."
- Oposição celebra rejeição de Messias ao STF enquanto governo atribui derrota a 'chantagem política'
- O que explica derrota histórica de Lula no Senado (e qual recado envia ao STF)
- A reação das lideranças evangélicas à rejeição de Jorge Messias para o STF
Apesar do silêncio de Lula, Haddad diz que o presidente "sempre sai fortalecido desses embates", mencionando outro episódio de queda de braço do governo com o Congresso.
No ano passado, a Câmara dos Deputados impôs uma derrota ao governo, ao deixar perder a validade uma medida provisória que aumentava tributos para impulsionar a arrecadação.
"Ano passado a gente foi taxar os super-ricos, o Congresso impôs uma derrota para o Governo, o Governo reagiu e saiu fortalecido", disse Haddad.
Servidor de carreira e com forte ligação com o PT, Jorge Messias recebeu 42 votos contra e 34 a favor de sua indicação, feita por Lula, contrariando o desejo do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que queria indicar o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG).
A votação foi secreta, ou seja, não é possível saber como os senadores votaram.
A rejeição no plenário veio após uma longa sabatina com Messias durante esta quarta-feira, realizada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).
A última vez que um nome indicado por um presidente para a Corte foi rejeitado pelo Senado ocorreu há 132 anos — o que fez com que parlamentares da oposição celebrassem o resultado.
Um deles foi o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que participou da sabatina de Messias. Ele publicou uma mensagem no X afirmando que a rejeição do indicado de Lula mostra que "o Brasil tem futuro".
"Por 42 votos a 34, o Senado fez história e evitou que a esquerda e o PT aparelhassem ainda mais o Estado e a Justiça. Podemos dizer com confiança que o Brasil tem futuro", escreveu.
Assim como ele, o senador Sergio Moro (PL-PR), que durante a sabatina fez críticas à indicação de Messias, alegando "que não era o momento para preenchimento da vaga no STF", também comemorou a rejeição.
"O AGU Jorge Messias foi rejeitado. Queremos um STF independente de Lula e do Poder Executivo, vinculado apenas à lei e à Constituição", escreveu Moro.
Para Haddad, no entanto, não existe vitória para nenhum lado.
"Tem gente comemorando, porque muitas vezes não sabe o que está falando, porque acha que foi uma vitória da oposição. Não foi. Foi o enfraquecimento da instituição Presidência da República e do combate à corrupção".

