O Departamento de Estado norte-americano deve receber na próxima semana representantes dos governos de Israel e do Líbano para negociações diretas sobre um cessar-fogo bilateral — aparentemente, à margem da frágil trégua acertada na terça-feira entre Estados Unidos e Irã, com mediação do Paquistão. Em meio a controvérsias entre Washington e Teerã sobre os termos acertados, a aviação israelense fez na quarta-feira (8/4) um bombardeio maciço contra a capital, Beirute, e outras grandes cidades libanesas, com saldo de destruição assoladora e centenas de vítimas, incluindo mais de 300 mortos. O tema central das discussões deverá ser o motivo invocado para o ataque, condenado internacionalmente, pelo premiê Benjamin Netanyahu: a neutralização do movimento xiita pró-Irã Hezbollah.
Foi momentos antes da retomada dos bombardeios, nesta quinta-feira (9/4), que o próprio Netanyahu anunciou ter determinado ao seu gabinete a abertura de conversações diretas com o governo do premiê Nawaf Salam, um muçulmano sunita, com perfil mais próximo aos EUA e, sobretudo, partidário do desarmamento da milícia xiita. A decisão soa como resposta às condenações generalizadas à ofensiva israelense, empreendida no dia seguinte ao anúncio do cessar-fogo entre EUA e o Irã — que alega ter incluído o Líbano entre as condições para a trégua. "As negociações abordarão o desarmamento do Hezbollah e o estabelecimento de relações de paz entre Israel e Líbano", acrescentou o chefe de governo israelense.
A frente de guerra no Líbano foi aberta em 1º de março pelo movimento pró-iraniano, que lançou mísseis e drones contra o norte de Israel em resposta à morte, em bombardeio, do líder supremo da República Islâmica. Desde então, o sul e o leste do Líbano e os subúrbios do sul da capital foram alvo de bombardeios diários, com saldo de mais de 1.700 mortos e 1 milhão de cidadãos deslocados. Tropas israelenses avançaram por território libanês, com o objetivo de estabelecer uma "zona de segurança", despovoada e sob seu controle, até 30km da fronteira. Nessa área, sucedem-se combates com o Hezbollah.
Sob pressões
A ofensiva maciça contra o Líbano deixou por um fio a trégua entre EUA e Irã, que considera a frente libanesa parte do acordo, versão contestada por Donald Trump e Netanyahu. Embora os ataques a Beirute e outras regiões tenham se repetido ontem, a abertura do premiê israelense para negociações com o Líbano sugere uma interferência de Washington sobre o aliado, a fim de preservar as negociações marcadas para este fim de semana com emissários de Teerã, no Paquistão (leia mais abaixo).
"É muito possível que o governo Trump tenha pressionado Netanyahu a negociar com o governo libanês", disse ao Correio o professor de relações internacionais Gunther Rudzit, da ESPM. "Mas não são negociações com o Hezbollah", observa. Ele avalia que, em parte, a iniciativa pode satisfazer o Irã. "Tudo indica que essa guerra foi influenciada pelo governo Netanyahu, e levou a esse desastre político para Trump", analisa o estudioso. "Agora, ele tem o poder de impor isso a Netanyahu."
O professor da ESPM lembra que os governos israelense e libanês voltam a conversar desde o fim de 2024, quando acertaram um cessar-fogo para o conflito que se desdobrou da ofensiva militar de Israel contra o movimento islâmico palestino Hamas, na Faixa de Gaza, a partir de 7 de outubro de 2022. "O Hezbollah saiu muito enfraquecido dessa guerra, a ponto de ter tido que aceitar um primeiro-ministro favorável aos EUA", lembra Rudzit. Embora mantenha influência entre os xiitas, que formam a maior comunidade religiosa do mosaico libanês, o movimento pró-Irã enfrenta resistências crescentes das demais confissões e mesmo no próprio reduto. "Hoje, nem o Hezbollah nem o governo iraniano têm autonomia para impor qualquer coisa ao governo libanês."
"Reiteramos nossa rejeição a qualquer negociação direta entre o Líbano e o inimigo israelense, e a necessidade de manter os princípios nacionais", disse em comunicado, em nome do Hezbolah, o deputado Ali Fayyad. "Em primeiro lugar, a retirada israelense, o fim das hostilidades e o retorno dos moradores às suas aldeias e cidades", finalizou, em resposta ao anúncio do premiê Nawaf Salam.
Desolação
Em meio ao luto pelas vítimas dos ataques, equipes de socorro seguiam procurando corpos e eventuais sobreviventes entre os escombros de edifícios quase totalmente destruídos. Em Ain el Mreisseh, bairro residencial na orla de Beiture, sob as pedras e os pedaços de metal, foram retirados objetos da vida cotidiana, como um boletim escolar ou um urso de pelúcia.
"Não sabemos onde está minha sobrinha", disse à agência de notícias France-Presse Taha Qarqamaz, que perdeu nos bombardeios outra sobrinha e tinha mais duas hospitalizadas, em estado grave. Jaid Salam, um amigo que foi dar apoio, chamava a atenção dos repórteres entre as ruínas. "Olhem: são cadernos, anotações de aula, livros! Onde está o Hezbollah aqui?", questionava.
Três perguntas para
Três perguntas para
Gunther Rudzit, professor de Relações Internacionais da ESPM
Que garantias o Irã pode ter desse diálogo entre Israel e Líbano?
No máximo, a garantia é a palavra de cada um de que vai seguir no cessar-fogo, que tanto o Irã quanto Israel desrespeitaram. Nesse acordo, não existem garantias para nenhum lado.
O regime iraniano tem autonomia para negociar um acordo capaz de satisfazer o aliado e acalmar a situação na fronteira Líbano-Israel?
O que o governo israelense anunciou é que vai negociar com o governo libanês. Não podemos esquecer que o Hezbollah não é o governo libanês. É um grupo armado, mas também um partido político, mas tem que se subordinar ao governo.
Os houthis do Iêmen não parecem ter sido mencionados nas negociações. Teerã tem autoridade para assumir algum compromisso em nome deles?
Os houthis não são um governo. E, mesmo que fossem, nenhum governo tem soberania sobre outro. Os houthis não foram mencionados porque não têm essa capacidade de infligir danos expressivos a Israel, como o Hezbollah teve no passado. (SQ)
Islamabad prepara diálogo, em meio a ameaças
A partir de amanhã, autoridades de Washington e de Teerã estarão reunidas no Hotel Serena, um cinco estrelas de Islamabad, situado perto de prédios do governo e embaixadas, para traçar os rumos do conflito no Oriente Médio. Com histórico de atentados terroristas, o Paquistão — mediador do diálogo entre Estados Unidos e Irã — reforçou a segurança em vários pontos da cidade. O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, declarou que seu país "está fazendo esforços sinceros pela paz regional". "Por isso, as negociações de paz entre o Irã e os EUA foram convocadas", anunciou, por meio de seu gabinete, ao denunciar "a agressão contínua de Israel contra o Líbano". As tratativas entre americanos e iranianos esbarrarão na exigência de difíceis concessões envolvendo o Estreito de Ormuz e o enriquecimento de urânio.
O presidente dos EUA, Donald Trump, advertiu o Irã contra a imposição de um pedágio aos navios que cruzam Ormuz. "Há informações de que o Irã está cobrando taxas aos petroleiros que passam pelo Estreito de Ormuz. É melhor não fazer isso. Se eles estiverem fazendo, é melhor que parem agora!", afirmou o republicano em sua plataforma Truth Social.
Mohammad Eslami, chefe da Organização de Energia Atômica do Irã, descartou restringir o programa de enriquecimento de urânio do país, uma das principais exigências dos Estados Unidos e de Israel. "As reivindicações e exigências de nossos inimigos, que buscam restringir o programa de enriquecimento do Irã, não passam de ilusões que serão enterradas", declarou à agência Isna.
Nas negociações em Islamabad, os Estados Unidos estarão representados pelo vice-presidente J.D. Vance; pelo enviado especial ao Oriente Médio, Steve Witkoff; e por Jared Kushner, genro de Trump. Pelo lado iraniano, estarão presentes Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento e ex-comandante do Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica, e o chanceler Abbas Araghchi. Anfitrião do encontro, Shehbaz Sharif deverá estar presente no evento e pretende se reunir com atores de ambas as partes antes das discussões bilaterais. Ontem, Trump se disse "muito otimista" com a possibilidade de um acordo de paz com o Irã. "Os responsáveis iranianos se expressam de forma muito diferente nas reuniões em comparação com o que dizem à imprensa. São muito mais razoáveis", declarou Trump. "Eles aceitam tudo o que têm que aceitar. Não esqueçam que foram derrotados", acrescentou, aproveitando para alfinetar o regime.
Mojtaba Khamenei, filho do aiatolá Ali Khamenei alçado a líder supremo iraniano, divulgou uma mensagem por escrito na qual destaca que, apesar de não desejar a guerra, protegerá os direitos de seu país. "Não buscamos a guerra e não a queremos", disse, em um comunicado lido na televisão estatal. "Mas não renunciaremos aos nossos direitos legítimos sob nenhuma circunstância e, neste sentido, consideramos a frente de resistência em seu conjunto", acrescentou.
Congresso
Os republicanos que controlam o Congresso dos Estados Unidos bloquearam uma resolução apresentada pela oposição democrata destinada a limitar os poderes militares do presidente Donald Trump contra o Irã. Com a iniciativa, em grande medida simbólica, barrada na Câmara dos Representantes, os democratas buscavam manifestar sua rejeição à guerra deflagrada em 28 de fevereiro pelo presidente sem autorização nem consulta ao Congresso. A aprovação do texto fracassou durante uma sessão muito breve, enquanto a maioria dos parlamentares se encontra longe de Washington, em recesso.
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O presidente dos EUA, Donald Trump, advertiu o Irã contra a imposição de um pedágio aos navios que cruzam Ormuz. "Há informações de que o Irã está cobrando taxas aos petroleiros que passam pelo Estreito de Ormuz. É melhor não fazer isso. Se eles estiverem fazendo, é melhor que parem agora!", afirmou o republicano em sua plataforma Truth Social.
Mohammad Eslami, chefe da Organização de Energia Atômica do Irã, descartou restringir o programa de enriquecimento de urânio do país, uma das principais exigências dos Estados Unidos e de Israel. "As reivindicações e exigências de nossos inimigos, que buscam restringir o programa de enriquecimento do Irã, não passam de ilusões que serão enterradas", declarou à agência Isna.
Nas negociações em Islamabad, os Estados Unidos estarão representados pelo vice-presidente J.D. Vance; pelo enviado especial ao Oriente Médio, Steve Witkoff; e por Jared Kushner, genro de Trump. Pelo lado iraniano, estarão presentes Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento e ex-comandante do Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica, e o chanceler Abbas Araghchi. Anfitrião do encontro, Shehbaz Sharif deverá estar presente no evento e pretende se reunir com atores de ambas as partes antes das discussões bilaterais. Ontem, Trump se disse "muito otimista" com a possibilidade de um acordo de paz com o Irã. "Os responsáveis iranianos se expressam de forma muito diferente nas reuniões em comparação com o que dizem à imprensa. São muito mais razoáveis", declarou Trump. "Eles aceitam tudo o que têm que aceitar. Não esqueçam que foram derrotados", acrescentou, aproveitando para alfinetar o regime.
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Congresso
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