"Agora ou nunca", vem dizendo Péter Magyar aos húngaros durante sua incansável campanha pelo país rumo às eleições deste domingo (12/4). E as pesquisas de opinião indicam que ele pode vencer.
O ex-membro do partido governista Fidesz (União Cívica Húngara), de 45 anos, representa a maior ameaça ao regime de Viktor Orbán na Hungria, desde sua primeira vitória em quatro eleições consecutivas, em 2010.
O slogan de Magyar vem da convocação feita por um poeta revolucionário húngaro do século 19, para que as pessoas se mobilizassem em defesa da pátria.
E, depois de mais de 100 eventos de campanha, sua mensagem foi abreviada para "Agora". A premência levou à supressão da expressão "ou nunca".
Magyar se programou para visitar todos os 106 distritos eleitorais da Hungria, com quatro, cinco e até seis comícios por dia.
Ele formou uma poderosa base de apoio em mais de dois anos percorrendo o país, incluindo até mesmo as pequenas vilas e aldeias tradicionalmente dominadas pelo Fidesz.
No ano passado, ele andou 300 km da capital húngara, Budapeste, até a fronteira com a Romênia, em uma campanha para "reunir" a nação, tentando trazer eleitores do Fidesz para o seu lado.
Magyar promete combater a corrupção, melhorar a economia e buscou atrair a desfavorecida comunidade roma da Hungria. Ele também prometeu destravar bilhões de euros em fundos da União Europeia, que foram congelados devido a receios em relação ao Estado de direito no país.
Mas Orbán o descreve como "marionete" da União Europeia e da Ucrânia. Por isso, Magyar teve o cuidado de não se aproximar demais de Bruxelas. "Somos o verdadeiro partido da paz", prometeu ele aos eleitores.
Sua autoconfiança decorre de um profundo conhecimento do seu adversário.
Até fevereiro de 2024, Magyar fazia parte da família do Fidesz. Ele entrou para o partido na universidade e se casou com uma das suas estrelas em ascensão — Judit Varga, com quem teve três filhos.
Até que Magyar surpreendeu os húngaros com uma aparição ao vivo em um canal do YouTube pró-oposição chamado Partizán.
Em um país de 9,6 milhões de habitantes, um milhão de pessoas assistiram ao solene Péter Magyar explicando por que desistiu do seu partido.
"Todos me aconselharam contra isso, amigos, familiares, conhecidos", contou ele ao apresentador Márton Gulyás. "Obviamente, estive no sistema, neste círculo, por muito tempo."
A Hungria estava em meio a um escândalo. A presidente Katalin Novák concedeu perdão a um homem que havia ajudado a encobrir abusos sexuais em uma casa de acolhimento infantil administrada pelo Estado húngaro.
Ela renunciou e também a, agora, ex-esposa de Magyar. Varga havia sido ministra da Justiça e foi uma das signatárias do perdão.
Com isso, duas mulheres importantes do Fidesz levaram a culpa pelo episódio.
Varga tinha como destino ocupar grandes cargos no partido e havia deixado seu posto de ministra para chefiar a campanha do Fidesz para as eleições europeias. Mas aquele foi o fim da sua carreira.
Agora, ela não fazia mais parte da máquina do Fidesz e Magyar percebeu que aquele era o seu momento.
"Não quero fazer parte de um sistema em que as pessoas que realmente detêm o poder se escondem atrás das saias das mulheres", escreveu ele no Facebook.
Mais para o fim da sua entrevista ao Partizán, Magyar expressou sua esperança em mudanças políticas, percebendo que isso seria muito difícil enquanto Orbán ainda estivesse no poder.
Ele se queixou de que a oposição daquele momento era totalmente inepta e, por isso, a mudança teria que vir de dentro. Mas ele previu que, um dia, haveria mudanças e que, quando elas viessem, poderiam ser rápidas.
Sua entrevista no YouTube viralizou.
"Não foi uma jogada planejada", contou ele posteriormente à BBC.
"Minha mãe me ligou para que eu não fosse, mas fiz o contrário. Todos conheciam a situação na Hungria. Não é muito seguro ir contra o governo."
O casamento de Péter Magyar se desfez em 2023, mas ele continuou sendo uma figura importante no Fidesz, mesmo sendo pouco conhecido pelo público em geral.
Magyar se encaixava naturalmente entre os conservadores sociais de Orbán.
Filho de dois advogados (sua mãe era juíza de alto escalão), Péter Magyar também tem um ex-presidente da Hungria como padrinho e se interessa muito pela política desde jovem.
Ele cursou o ensino médio em uma escola católica de elite para meninos, perto do centro de Budapeste. Depois, ele estudou Direito em uma universidade católica, também na capital, durante o primeiro mandato de Orbán como primeiro-ministro (1998-2002).
Magyar entrou no partido após a derrota eleitoral de Orbán. Já a mulher com quem ele se casou, Judit Varga, era destinada ao sucesso no Fidesz e se tornou ministra da Justiça em 2019, nove anos depois do retorno de Orbán ao cargo.
Magyar se tornou diplomata na missão permanente da Hungria em Bruxelas. Posteriormente, ele dirigiu a equipe de Orbán junto ao Parlamento Europeu e também foi diretor de empresas estatais.
Seu descontentamento com o partido cresceu gradualmente.
"Depois de um certo tempo, fiquei cada vez mais crítico, abertamente e entre meus amigos. Posso dizer a você que o Fidesz que vemos hoje é muito, muito diferente daquele no qual entrei em 2002."
"Os políticos sempre me disseram que isso é necessário para manter o poder e eu aceitei por algum tempo. Mas é claro que a reviravolta se deu em 2024", contou ele ao correspondente da BBC em Budapeste, Nick Thorpe.
Por um certo tempo, Magyar receava ter cometido um erro. "Tenho três filhos, eu os amo muito e também fiquei muito preocupado com o futuro deles", ele conta.
Se a entrevista no YouTube foi a reviravolta, o próximo grande momento viria em 15 de março de 2024, um feriado nacional que marca o aniversário da fracassada revolução húngara de 1848.
Enquanto Orbán falava na escada do Museu Nacional em Budapeste, condenando a UE e convocando a "ocupação de Bruxelas", Péter Magyar se dirigia a um público estimado de 10 mil pessoas, invocando principalmente a corrupção e a má gestão da economia.
Ele anunciou que estava formando um novo partido, poucas semanas antes que os húngaros votassem nas eleições europeias.
Magyar reforçou suas acusações de corrupção, divulgando uma gravação secreta de uma conversa com sua ex-esposa em 2023, na qual ela fala sobre um importante julgamento.
Judit Varga declarou ter ficado chocada com as ações de Magyar. Ela o acusou de abuso, o que ele nega.
Magyar também rompeu com um ex-amigo. Ministro de Orbán, Gergely Gulyás declarou que Magyar "primeiro, trai sua família e, depois, trai o seu país como agente de Bruxelas".
Questionado sobre seu desafiante, Orbán respondeu à BBC: "Ele saiu do Fidesz e isso é tudo."
O ex-marido de Varga continuava avançando politicamente e formando novas amizades, incluindo o popular ator Ervin Nagy.
Magyar assumiu um partido dormente chamado Tisza e ganhou 29,6% dos votos e sete cadeiras no Parlamento Europeu. O Tisza ficou bem atrás do partido governista Fidesz, de Orbán, com 44,8%. Mas Magyar marcou forte presença.
No outono de 2024, seu novo partido estava à frente do Fidesz nas pesquisas e ele criticou severamente os estreitos laços de Orbán com a Rússia, quando ambos lideraram marchas rivais marcando o levante húngaro de 1956 contra a União Soviética.
Orbán rotulou o Tisza de "belicista", evocando uma "marcha de guerra a Bruxelas". E Magyar insultou o primeiro-ministro, ao dizer que, em 1989, ele convocou as tropas russas a sair da Hungria e, agora, desprezava o legado de 1956 por ser, segundo ele, "o aliado mais leal do Kremlin".
"Sr. primeiro-ministro, por que o sr. não diz mais 'russos, vão para casa'?", perguntou ele.
Magyar não é liberal. Ele ridicularizou abertamente a oposição liberal que tentou derrubar Orbán no passado e acabou com o líder do Fidesz conquistando a maioria de dois terços do parlamento, necessária para moldar a Constituição do país.
Uma das razões para o seu sucesso é a demolição dos antigos partidos fragmentados de oposição. Ele considera que o ex-primeiro-ministro socialista Ferenc Gyurcsány (2004-2009) não é melhor do que Orbán.
Magyar também não teve medo de enfrentar os novos órgãos de imprensa pró-Orban que dominam o cenário midiático da Hungria. No início deste ano, ele alegou ter sido alvo de uma tentativa de campanha de difamação "no estilo russo", envolvendo uma fita de sexo.
Jornalistas receberam uma imagem de câmera de segurança em preto e branco, aparentemente mostrando drogas sobre uma mesa, perto de uma cama. Sob a insinuação de que outras filmagens estariam por vir, Magyar decidiu se antecipar.
Ele admitiu ter tido sexo consensual com uma ex-namorada, mas afirmou categoricamente não ter tocado em nada sobre a mesa. Ele disse ter sido atraído para uma "armadilha" montada pelos serviços secretos.
"Minha consciência está limpa", declarou ele.
Posteriormente, ele destacou que havia feito um teste de drogas em 22 de março para provar que não havia consumido substâncias nos últimos meses. E indicou ter tido outros resultados negativos no passado.
Até o momento, nenhuma das acusações e farpas dirigidas a Péter Magyar permaneceu. E ele acredita que sua antiga função de consultor do Fidesz oferece a ele uma vantagem.
"Eu os conheço, conheço seus truques", afirmou ele. "Sei que eles estão muito assustados."
"Esta é uma oportunidade única na vida, não para Péter Magyar, mas para o país", concluiu o candidato.
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