oriente médio

Israel faz ofensiva silenciosa em povoados da Cisjordânia

Com o mundo atento para a guerra no Irã e no Líbano, colonos judeus promovem incursões armadas e expulsam palestinos de povoados da Cisjordânia, com retaguarda do premiê Benjamin Netanyahu, que acelera a legalização de novos assentamentos

Moradores da via de Till, próxima a Nablus, carregam o corpo de adolescente: tropas israelenses dão cobertura à violência de colonos  
 -  (crédito: Jaafar Ashtiyeh/AFP)
Moradores da via de Till, próxima a Nablus, carregam o corpo de adolescente: tropas israelenses dão cobertura à violência de colonos - (crédito: Jaafar Ashtiyeh/AFP)

Enquanto as atenções da mídia e da opinião pública internacional se concentram sobre a guerra no Irã e a ofensiva de Israel contra o movimento xiita libanês Hezbollah, uma frente de conflito se desenrola silenciosamente no território palestino da Cisjordânia, desde 1967 sob ocupação do Estado sionista. Colonos judeus, frequentemente com cobertura ou mesmo apoio direto de forças israelenses, promovem incursões armadas contra aldeias árabes, em ritmo praticamente diário. Desde outubro de 2023, quando ataques do movimento islâmico Hamas desencadearam dois anos de ofensiva de Israel contra a Faixa de Gaza, com saldo acumulado de 72 mil vítimas, mais de 1.200 palestinos foram mortos na outra porção de terra destinada pela ONU a um Estado soberano destinado a conviver lado a lado com o Estado judeu.

Em meio à disparada da violência, ofuscada pelo conflito aberto que se alastra desde março pelo Oriente Médio, o gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu aprovou quase secretamente a legalização de mais 34 colônias, incluindo assentamentos estabelecidos anteriormente, mas ainda não oficializados. A decisão foi tornada pública mais de uma semana depois, sob protestos da Organização da Cooperação Islâmica (OCI) e denúncias do grupo israelense pró-direitos humanos Paz Agora. Os novos 34 se somam a 68 aprovados na atual gestão de Netanyahu, iniciada em 2022. "Até o estabelecimento deste governo, havia 127 colônias legalizadas na Cisjordânia", aponta um relatório do movimento. "Acrescentar 102 assentamentos representa um aumento de 80%."

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"A violência na Cisjordânia ocupada tem aumentado acentuadamente, com ataques diários de colonos israelenses aos palestinos, frequentemente com proteção do Exército e da polícia de Israel, e impunidade quase total", resume, em entrevista ao Correio, o professor de relações internacionais Alon Ben-Meir, da Universidade de Nova York. "Ao mesmo tempo, Israel está acelerando a expansão das colônias e 'legalizando' retroativamente assentamentos, em desafio ao direito internacional e a repetidos pareceres da Corte Internacional de Justiça que definem a colonização como ilegal."

"Terrorismo"

Em uma carta-aberta publicada recentemente na mídia israelense, ex-chefes dos serviços de inteligência e segurança doméstico (Shin Bet) e externo (Mossad) dirigiram-se ao primeiro-ministro para denunciar o alastramento desenfreado do que classificaram como "terrorismo judaico promovido pelo governo" na Cisjordânia. "Mais do que uma vergonha moral, isso representa um golpe estratégico fatal para a segurança nacional de Israel, em tempo de guerra."

A mensagem se refere, veladamente aos titulares da Segurança, Itamar Ben-Gvir, e das Finanças, Bezalel Smotrich. Ambos ligados aos colonos da Cisjordânia, eles são expoentes da ala mais à direita do governo de Netanyahu e se alinham ao nacionalismo ultrarreligioso que defende a anexação da Cisjordânia, de Gaza e de territórios na Síria e Líbano que constituiriam o chamado "Israel bíblico" — 'Eretz Israel', em hebraico. "Nos últimos três anos, os colonos primeiro expulsaram a população beduína original. Depois, se instalaram na terra com suas caravanas e rebanhos", protesta o padre Bashar Fawadleh, da paróquia do Cristo Redentor, no povoado de Taybeh, a 30km de Jerusalém.

Falando na inauguração de um novo assentamento — ainda não legalizado, àquela altura —, Smotrich parabenizou os colonos por ajudarem a "destruir completamente a ideia de um Estado palestino no coração da nossa pátria. O professor Ben-Meir, americano nascido no Iraque, de família judaica, lamenta que a sociedade israelense pareça anestesiada. "É trágico que a violência contra os palestinos na Cisjordânia e  em Gaza não provoque mais incômodo na população", afirma. "Depois de 58 anos de ocupação (dos territórios palestinos), os israelenses se acostumaram à violência incessante como se fosse natural."

O estudioso censura também as forças de oposição, que "nada fizeram para brecar a matança sistemática e a destruição de propriedades dos palestinos". E conclui, resignado: "Infelizmente, isso continuará fora do debate enquanto Benjamin Netanyahu seguir no poder."

Oito décadas de disputas

A Cisjordânia, assim como a Faixa de Gaza, compunha com as atuais Jordânia e Israel o mandato britânico da Palestina, instituído pela Liga das Nações no marco do desmembramento do Império Otomano (turco), ao fim da 1ª Guerra Mundial (1914-1918). Incapaz de concluir a reorganização dos territórios, e acossado por rebeliões dos árabes palestinos e dos imigrantes judeus, mobilizados pelo movimento sionista, o Reino Unido retirou-se da região ao fim da 2ª Guerra e deixou a solução do impasse para a recém-fundada Organização das Nações Unidas (ONU).

Em 1947, já com a Jordânia estabelecida, a Assembleia-Geral da ONU aprovou um plano de partilha que estabelecia um Estado judaico nos limites reconhecidos do atual Israel e uma Palestina compreendendo, aproximadamente, as atuais Gaza e Cisjordânia. O Estado de Israel foi proclamado em 1948, enquanto os territórios palestinos ficaram sob custódia de Egito e Jordânia, respectivamente. Na Guerra dos Seis Dias, em 1967, Israel ocupou ambos, incluindo o setor oriental (árabe) de Jerusalém.

Desde então, sucederam-se guerras e conflitos pontuais que não resultaram em alterações até os Acordos de Oslo, firmados em 1993 entre Israel e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Eles estabeleceram um regime de governo autônomo na Cisjordânia e em Gaza, mas não evoluíram para uma solução definitiva — seja para o status definitivo dos territórios, com soberania estatal plena, seja para Jerusalém, anexada por Israel, sem reconhecimento internacional.

Nos quase 80 anos decorridos, a colonização israelense se expandiu paulatinamente, em especial na Cisjordânia, mais intensamente com Benjamin Netanyahu à frente do governo. Ele assumiu o cargo pela primeira vez em 1996 e cumpre atualmente o terceiro período. (SQ)

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postado em 04/05/2026 03:22
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