
Em termos militares, é possível dizer que Estados Unidos e Israel estão vencendo a guerra contra o Irã. Passados dois meses de conflito, o país persa sofreu mais baixas e danos em sua infraestrutura em comparação aos adversários.
Mas a análise puramente militar não é suficiente para determinar o vencedor de uma guerra, apontam especialistas. É preciso levar em conta aspectos estratégicos, políticos e econômicos, além da percepção popular sobre o conflito.
"A vitória militar é definida pelo que acontece no campo de batalha: se você degradou as capacidades do adversário e alcançou seus objetivos imediatos", explica o historiador Adam Howard, diretor executivo da International Churchill Society, que esteve no Brasil em abril, no Fórum da Liberdade em Porto Alegre.
"Já a vitória política ou estratégica tem a ver com o que vem a seguir, ou seja, se você de fato criou uma situação mais estável e segura."
Precedentes históricos
Alguns conflitos nas últimas décadas ilustram esse descompasso entre vitória militar e estratégica. Segundo Howard, a Crise de Suez em 1956 é um deles.
À época, Grã-Bretanha, França e Israel atacaram o Egito após Gamal Abdel Nasser, presidente do país árabe, nacionalizar a Companhia do Canal de Suez, que era controlada por interesses franceses e britânicos.
"Esses países estavam sendo bem-sucedidos no que faziam militarmente contra o Egito", explica Howard.
Mas, em poucos meses, as pressões políticas dos Estados Unidos e da União Soviética forçaram a retirada completa dos três países. Com isso, o Canal de Suez permaneceu sob controle egípcio e Nasser saiu fortalecido.
"É um lembrete de que você pode vencer taticamente e ainda assim encontrar limites estratégicos maiores", completa Howard.
A Guerra do Vietnã, iniciada em 1955, é mais um exemplo. No total, os Estados Unidos causaram 1,1 milhão de baixas militares ao Vietnã do Norte e aos guerrilheiros vietcongs, e sofreram 58 mil baixas. Mas fracassaram no objetivo principal de impedir a reunificação do Vietnã sob um governo comunista.
"Os Estados Unidos foram muito eficazes nos maiores enfrentamentos, especialmente no início, mas não converteram isso em um resultado político durável", analisa o historiador.
"Objetivos claros e alcançáveis"
O que é necessário, então, para alcançar uma vitória estratégica?
Segundo o historiador britânico Richard Evans, há uma condição essencial para isso:
"Os objetivos de guerra precisam ser formulados com clareza e serem relativamente limitados e alcançáveis", diz ele. "Isso é muito fácil de dizer, mas muito difícil de fazer na prática."
Para Evans, isso não aconteceu no conflito atual no Irã.
No início da guerra, em 28 de fevereiro, o presidente norte-americano Donald Trump anunciou como principal objetivo a eliminação da capacidade nuclear iraniana. Ele também pediu ao povo iraniano que "tomasse o governo", sinalizando uma mudança de regime como objetivo implícito.
A estratégia militar americana apostou na eliminação rápida do líder supremo Ali Khamenei, que foi morto no primeiro dia de conflito, e de outros membros da cúpula da República Islâmica.
"Foi um enorme erro", analisa Evans. "Eles superestimaram a disparidade entre seus recursos e resiliência em relação aos iranianos."
Menos de uma semana após a morte de Khamenei, as posições de liderança iranianas já haviam sido preenchidas. E, até agora, não houve mobilização popular por uma troca de regime.
Em resposta aos ataques, o Irã restringiu a navegação no estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo mundial, pressionando o mercado de energia e levando Trump à mesa de negociação.
Por fim, apesar dos esforços americanos, o Irã ainda mantém seu estoque de urânio enriquecido próximo ao grau necessário para produção de armas nucleares, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica.
"Na situação atual, acredito que Estados Unidos e Israel têm muitos sucessos táticos", afirma Adam Howard. "Mas uma vitória estratégica significa estabilizar a região — e é justo dizer que isso não foi alcançado."
O front narrativo
Além de objetivos claros e tangíveis, a percepção pública também é essencial para uma vitória estratégica, analisa Christopher Tuck, professor da King's College de Londres e especialista em encerramento de guerras.
"Vitória e derrota são condições imaginárias", diz. "O que você conquistou em termos tangíveis pode ser menos importante do que aquilo que sua base eleitoral pensa que você conquistou."
Adam Howard reforça que guerras são disputadas também no campo narrativo. "Governos moldam a história [de uma guerra] por meio da linguagem, ou seja, do que enfatizam ou omitem", diz.
Mas tentar impor uma narrativa vitoriosa antes da hora pode não ter o efeito esperado. Foi o que aconteceu com os EUA na Guerra do Iraque.
Após a queda de Saddam Hussein em maio de 2003, o então presidente norte-americano George W. Bush discursou a bordo do USS Abraham Lincoln sob uma faixa que anunciava "missão cumprida".
Mas o conflito só foi acabar em 2011, após anos de guerra civil que desembocaram na ascensão do grupo radical Estado Islâmico.
"Líderes querem sinalizar sucesso após grandes operações, mas a história sugere que muitas vezes esse é o momento em que a guerra está entrando em uma fase mais complicada", explica Howard.
Em 7 de abril deste ano, em movimento parecido, Trump declarou "vitória total e completa" no Irã ao anunciar um cessar-fogo para iniciar negociações.
Nesta semana, Trump afirmou estar confiante de que a guerra contra o Irã vai "acabar rapidamente". Ele disse também que a maioria das pessoas "entende" seu objetivo de encerrar as ambições nucleares de Teerã.
Segundo o site Axios, a Casa Branca prevê um memorando de entendimento de 14 pontos como base para negociações nucleares mais detalhadas.
O governo iraniano, por sua vez, afirma que ainda está analisando a proposta americana.
Até o momento, no entanto, não houve acordo formal de paz — e os especialistas se mostram céticos quanto à estabilidade da região mesmo com o fim do conflito atual.
Futuro instável?
"Na era moderna, as guerras são entre povos, não apenas entre governos ou gabinetes, como eram no século 18", explica Richard Evans. "Por isso, é essencial que haja uma aceitação popular do acordo de paz — o que claramente não vai acontecer no Irã."
Evans relembra o fim da Primeira Guerra Mundial, em que a rejeição por parte da população alemã aos termos do Tratado de Versalhes é tida como um dos motivos causadores da Segunda Guerra, anos depois.
"Havia uma direita nacionalista muito forte que se recusou a aceitar os resultados da Primeira Guerra e queria travar a guerra novamente", aponta. "Essa corrente chegou ao poder com os nazistas em 1933."
Christopher Tuck também entende que disputas não resolvidas podem produzir instabilidade futura.
"Ainda que Trump declare guerra encerrada e as forças americanas se retirem, as razões básicas pelas quais o conflito eclodiu não serão tratadas", diz ele. "As guerras decidem muitas coisas — o problema é que quase nunca decidem as coisas que você queria que decidissem."
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