ENTENDA

Como Países Baixos se tornaram terceiro maior exportador de alimentos do mundo apesar do território pequeno

Reportagem mergulhou no ecossistema de inovação que permitiu que o país europeu se tornasse líder na produção de alimentos, apesar de ter uma área territorial mais de 70 vezes menor que a da Argentina.

Estufas de alta tecnologia do país têm produtividade até cinco vezes maior que convencionais -  (crédito: Wageningen University & Research)
Estufas de alta tecnologia do país têm produtividade até cinco vezes maior que convencionais - (crédito: Wageningen University & Research)

Centenas de pés de tomate crescem protegidos por uma grande estrutura de vidro. Mas esta não é uma estufa comum.

Desde os níveis de gás até a cor da luz, cada variável é monitorada por sensores que enviam as informações para computadores que, por sua vez, rodam algoritmos refinados com inteligência artificial.

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O resultado é uma produção até cinco vezes maior do que a de uma estufa de baixa tecnologia na América Latina.

As plantas estão localizadas no campus da Universidade e Centro de Pesquisa de Wageningen (WUR), nos Países Baixos, um centro de renome mundial para pesquisa em produção de alimentos.

A universidade fica no coração do chamado Food Valley ("Vale da Alimentação", em tradução literal do inglês), um complexo de centros de pesquisa que permitiu que os Países Baixos se tornassem o terceiro maior exportador de alimentos do mundo (em valor monetário) com um território de pouco mais de 41.000 km², 70 vezes menor que a Argentina.

Como isso foi possível? A BBC Mundo (serviço em língua espanhola da BBC) conversou com especialistas da Universidade de Wageningen, incluindo pesquisadores latino-americanos, sobre inovações na produção de alimentos no país, possíveis aplicações na América Latina e o grande desafio para os Países Baixos: reduzir o consumo de energia e aumentar a sustentabilidade.

Condições favoráveis

Tanto o clima quanto a localização geográfica favorecem os Países Baixos, afirma à reportagem o cientista Leo Marcelis, chefe do grupo de Horticultura e Fisiologia Vegetal da Universidade de Wageningen.

"Temos um clima razoável e água em abundância. Temos um clima marítimo; os verões não são muito quentes e os invernos não são extremamente frios", aponta ele.

O país também tem milhões de potenciais consumidores europeus nas proximidades, acrescenta Marcelis, e o maior porto de transbordo da Europa Ocidental para o setor agrícola, Roterdã.

Entre os principais produtos exportados estão vegetais, carne, laticínios, plantas ornamentais e flores. Os maiores mercados são Alemanha, Bélgica, França e Reino Unido, entre outros.

Um cientista da Universidade de Wageningen exibe uma planta com tomates grandes e maduros em uma estufa de alta tecnologia.
Wageningen University & Research
Estufas de alta tecnologia do país têm produtividade até cinco vezes maior que convencionais

Grandes quantidades de matéria-prima também são importadas para processamento e exportação.

Os Países Baixos são um dos principais exportadores mundiais de produtos de cacau, por exemplo, e o maior importador de grãos de cacau, que são processados ??em produtos semiacabados, como pasta de cacau, manteiga e cacau em pó, para exportação.

Marcelis enfatiza que, historicamente, a produção agrícola no país também tem sido caracterizada por uma tradição de abertura.

"Há um aspecto muito importante que talvez nos diferencie de muitos outros países: a colaboração e a cooperação."

A troca de experiências entre os agricultores é uma tradição secular, evidente nos leilões de hortaliças e flores e nas cooperativas de produtores.

"Os agricultores costumam se encontrar semanalmente. Eles visitam as fazendas uns dos outros para ver as plantações e aprender uns com os outros."

E essa troca é facilitada pelas curtas distâncias entre eles.

"Nosso país é muito pequeno. Aqui na universidade, estamos mais ou menos no centro da rede. Em duas horas de carro, você pode chegar ao ponto mais ao sul ou ao extremo norte do país; para o oeste, não posso dirigir duas horas porque chegaria ao mar antes disso; e para o leste, em meia hora você está na Alemanha."

Contêineres nas plataformas de carregamento do porto de Roterdã
Getty Images
Rotterdam é o maior porto de transbordo da Europa Ocidental para o setor agrícola

'Todo um ecossistema' de inovação

Para além das condições geográficas ou das tradições, o sistema de produção de alimentos nos Países Baixos é movido por uma inovação constante.

"Aqui temos a universidade, mas também empresas derivadas da universidade, muitas vezes fundadas por pessoas que trabalham na universidade ou por alunos que criaram suas próprias empresas e querem manter-se conectados a Wageningen", explica Marcelis.

"No campus, também temos os departamentos de pesquisa de grandes empresas como a Unilever ou a FrieslandCampina, que é uma das principais cooperativas de laticínios. Você se encontra, portanto, cercado por todo um ecossistema aqui."

A universidade recebe financiamento do Conselho Nacional de Pesquisa dos Países Baixos.

Mas "muitas das verbas nacionais só conseguimos obter em cooperação com uma empresa, que, por sua vez, tem de arcar com parte dos custos da pesquisa".

"Isso significa que, se pesquisamos algo, precisa estar relacionado ao que as empresas consideram relevante, o que nos obriga a colaborar com elas para facilitar a transferência dos resultados para os agricultores. Claro que também temos financiamento para pesquisa puramente fundamental."

Os projetos, acrescenta Marcelis, exigem um acordo inicial com cada empresa.

"São estabelecidas regras sobre o grau de transparência ou confidencialidade dos resultados e sobre quando eles podem ser publicados, algo que, para nós como universidade, é importante: fazer boa ciência. E, claro, também existem acordos sobre direitos de propriedade intelectual."

Vista aérea dos edifícios no extenso campus da Universidade de Wageningen, onde inúmeras empresas instalaram seus departamentos de pesquisa ao redor do centro acadêmico.
Wageningen University & Research
Marcelis afirma que no campus da Wageningen também há departamentos de pesquisa de grandes empresas como Unilever ou FrieslandCampina

Estufas com sensores

Esse ecossistema fomentou inúmeras inovações na produção agrícola do país, desde drones e escaneamento do solo para o uso inteligente de fertilizantes em cultivos a céu aberto até estufas de alta tecnologia.

Em estufas, "em Wageningen, desenvolveram um sistema tão eficiente que permite rendimentos de até 100 kg de tomates por metro quadrado por ano", afirma à BBC Mundo a cientista mexicana Cristina Zepeda, professora associada de fitotecnia em Wageningen.

"Em uma estufa no México, sem muita tecnologia, talvez com alguma tela de sombreamento, a produção gira em torno de 20 kg por metro quadrado por ano."

O cientista brasileiro Nilson Vieira Junior, professor associado em Wageningen especializado em fisiologia vegetal e modelagem computadorizada de culturas, disse à reportagem que, nas estufas dos Países Baixos, "o uso da terra praticamente desapareceu".

"As plantas são cultivadas em substratos, o que permite maior controle do fornecimento de nutrientes e possibilita a reutilização quase completa da água de irrigação, aumentando significativamente a eficiência do uso da água e reduzindo drasticamente o impacto ambiental e a poluição gerada na produção de alimentos", afirma.

"Esses sistemas permitem o controle preciso das condições ambientais às quais as plantações são expostas, incluindo temperatura, níveis de CO2 (dióxido de carbono), umidade relativa e radiação."

A professora mexicana Cristina Zepeda, jovem e de óculos, inspeciona plantas em uma estufa.
Cristina Zepeda/Arquivo pessoal
Cientista mexicana Cristina Zepeda é professora associada de ciências vegetais em Wageningen

Cada variável, como a cor da luz, é monitorada por sensores, diz Zepeda.

"Temos luzes LED de diferentes cores que permitem que as plantas produzam mais.

As plantas possuem certos pigmentos que percebem diferentes cores, como vermelho, infravermelho e azul, e esses pigmentos sinalizam certas moléculas para iniciar a produção de diferentes compostos", explica a cientista.

"Com uma luz mais vermelha, por exemplo, a produção de pigmentos como antocianinas ou licopeno é ativada. Podemos moldar a planta para produzir os compostos que mais nos interessam."

"Realizamos extensos experimentos com luzes de diferentes cores e medimos como os níveis de açúcar, licopeno e amido mudam com diferentes porcentagens de luz azul ou vermelha."

Vieira Junior observa que uma das principais áreas de pesquisa atual é a criação de sistemas autônomos.

"Esses sistemas combinam sensores que monitoram variáveis ??climáticas e o estado fisiológico das plantas com modelos de simulação de crescimento de culturas", diz ele.

"Com o auxílio da inteligência artificial, esses sistemas não apenas recomendam estratégias de manejo mais eficientes, mas também controlam automaticamente o clima e a operação da estufa."

O professor brasileiro Nilson Vieira, jovem e sorridente, olhando para a câmera.
Nilson Vieira/Arquivo pessoal
Cientista brasileiro Nilson Vieira Junior é professor associado em Wageningen e se especializou em fisiologia vegetal e modelos computadorizados de culturas agrícolas

O principal gargalo: energia

Marcelis afirma que o próximo passo no controle de variáveis ??será abandonar as estufas e adotar fazendas verticais em ambientes fechados, completamente independentes das condições externas ou da luz solar.

Esses sistemas se tornarão mais comuns no futuro, acrescenta ele, mas, assim como as estufas, exigem grandes quantidades de energia.

"O consumo de energia é o principal gargalo, e é por isso que grande parte de nossa pesquisa se concentra nesse aspecto", destaca Marcelis.

Para a professora Zepeda, "o maior desafio aqui nos Países Baixos é que uma enorme quantidade de energia é usada para aquecer estufas, porque temos um clima muito frio. Então, precisamos queimar gás natural e acender luzes adicionais."

"A horticultura representa 10% do consumo nacional de gás do país. É muito caro, e o governo já declarou que não se poderá usar mais gás até 2050. Tudo terá que vir de fontes renováveis", ela acrescenta

Vasos de plantas monitorados por câmeras e sensores.
Sara Vlekke/WUR
Cada variável, como o nível de CO2 ou a cor da luz, é monitorada por câmeras e sensores

Zepeda pesquisa atualmente como reduzir o consumo de energia fazendo com que as plantas funcionem como "baterias".

A energia renovável flutua dependendo das condições do vento e da radiação solar, e o consumo de energia na estufa também pode flutuar, explica ela.

"As plantas crescem na natureza com noites mais frias e dias mais quentes, e conseguem suportar mudanças de temperatura e luz sem perder muita produtividade. E se, por exemplo, houver excesso de produção de eletricidade e ela for mais barata, é aí que dizemos: 'Ok, vamos aquecer a estufa'."

"Precisamos dar à planta a oportunidade de acumular suas reservas de açúcar se o dia estiver muito ensolarado, e se previrmos que amanhã estará um pouco mais frio, podemos forçar a planta a usar esses açúcares."

Usar plantas como baterias exige medir constantemente com sensores quanta fotossíntese elas estão realizando, quanto açúcar estão produzindo e até mesmo modelos computacionais mais avançados.

"É nisso que nosso grupo está concentrando grande parte da pesquisa atualmente."

IA na pecuária

Uma das inovações impulsionadas por Wageningen na pecuária é a redução das emissões de metano de animais ruminantes, como vacas e ovelhas.

Esse metano, um potente gás de efeito estufa, é gerado durante a fermentação dos alimentos no trato digestivo dos animais e liberado principalmente por meio de arrotos ou fezes.

"Alguns animais produzem mais metano do que outros, e isso se deve em parte a fatores genéticos", disse à BBC Mundo o professor Roel Veerkamp, ??chefe do Departamento de Melhoramento Animal e Genômica da Universidade de Wageningen e líder da iniciativa Global Methane Genetics, um projeto com mais de 50 parceiros em 25 países, incluindo programas na África e na América Latina.

"Selecionar animais com baixas emissões em programas de melhoramento genético para a próxima geração reduzirá significativamente as emissões ao longo do tempo."

Veerkamp afirma que ??uma redução de 25% nas emissões em 25 anos é uma meta realista.

Foto em close-up do rosto de uma vaca leiteira
Getty Images
Pesquisador diz que redição em 25% de emissões de metano na pecuária em 25 anos é objetivo realista

Outra prioridade é melhorar o bem-estar animal.

Veerkamp e seus colegas usam inteligência artificial para interpretar imagens e vídeos de animais.

"Gravamos vídeos de galinhas e vacas em grupos, ou de vacas individualmente caminhando em frente a uma câmera. A partir dos vídeos, usamos IA para monitorar seu comportamento: o quanto se movem, se se movem normalmente ou se têm problemas nas patas, se descansam o suficiente ou se movem muito pouco", explica.

"Com base nesses dados, desenvolvemos medidas para monitorar ou melhorar o bem-estar animal."

De Wageningen à América Latina

Todos os anos, pessoas de todo o mundo frequentam os cursos da escola de verão de Wageningen, incluindo o curso de estufas de alta tecnologia, que começa em 31 de agosto.

As estufas nos Países Baixos exigem um investimento significativo, mas Zepeda afirma que alguns elementos dessa tecnologia podem ser aplicados em regiões como a América Latina.

Um deles é a hidroponia, ou irrigação por gotejamento. "Aqui a água não é o problema, mas é na América Latina", ela destaca.

Um cientista segura um monitor de temperatura na mão em frente a diversas plantas que crescem em substratos hidropônicos.
Joris Aben/WUR
Luzes LED de diferentes cores permitem controlar quais compostos a planta produz

Outra opção é o uso de luz adicional de diferentes cores para ajudar as plantas a produzirem mais.

Mas tanto Zepeda quanto Vieira concordam que as soluções devem ser adaptadas a cada contexto específico.

"É importante ressaltar que não se trata de um simples processo de 'copiar e colar'", afirma Vieira.

"Um exemplo claro é o controle climático em estufas. Nos Países Baixos, o principal desafio é aquecer o ambiente e fornecer luz artificial para compensar a baixa radiação solar durante o inverno.

Na América Latina, especialmente nas regiões tropicais, o desafio é praticamente o oposto: reduzir as temperaturas excessivas e melhorar o aproveitamento da alta disponibilidade de radiação solar.

Uma possível tecnologia que poderia ser transferida, segundo Zepeda, é a parede úmida ou sistema de resfriamento ativo, no qual a ventilação é feita pela passagem de água fria através de mantas em uma extremidade da estufa e pela instalação de um exaustor na outra extremidade para recircular o ar frio.

Para Vieira, "o principal valor das inovações desenvolvidas em Wageningen reside não na sua replicação direta, mas na sua adaptação inteligente, que contribui para sistemas agrícolas mais eficientes, resilientes e sustentáveis ??na América Latina".

Pequenas plantas cultivadas em substratos hidropônicos
Joris Aben/WUR
'As plantas são cultivadas em substratos, o que permite um maior controle do fornecimento de nutrientes e possibilita a reutilização quase total da água de irrigação', destaca Vieira.

Na América Latina, os maiores desafios são diferentes.

"Com uma população crescente, teremos que aumentar a produção de alimentos, preservando os recursos naturais e promovendo a inclusão socioeconômica de produtores com diferentes perfis, desde agricultores familiares até grandes produtores", destaca Vieira.

"Precisamos ser capazes de aumentar a produção de alimentos preservando simultaneamente os recursos naturais e promovendo a inclusão socioeconômica de produtores com diferentes perfis, desde agricultores familiares até grandes produtores", observa ele.

"Um dos principais desafios será produzir de forma mais eficiente e rentável, sem a necessidade de expandir as fronteiras agrícolas para preservar a biodiversidade."

"Além disso, há uma crescente necessidade de promover sistemas de agricultura regenerativa que não apenas minimizem os impactos ambientais, mas também contribuam para a recuperação de áreas degradadas."

Zepeda destaca que, enquanto no passado o foco era produzir calorias suficientes, agora a questão é: como garantir que todos tenham os nutrientes necessários?

Com as mudanças climáticas e as secas, acrescenta, é muito mais difícil produzir em campo aberto para fornecer esses nutrientes à população.

"Estamos ficando sem água e solo, e há muitos eventos climáticos extremos."

A produção intensiva nos Países Baixos pode indicar um caminho a seguir.

"Vejo que a horticultura tem um valor imenso", diz Zepeda. "Porque com uma estufa você pode produzir mais em uma área menor e proteger suas plantações", ressalta ela.

"O desafio, claro, é como adaptar a tecnologia à situação em cada parte do mundo."

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BBC
Alejandra Martins - BBC News Mundo
postado em 10/05/2026 13:20 / atualizado em 10/05/2026 14:00
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