GRAVIDEZ

'Vou ter quantos bebês meu corpo aguentar': como a guerra leva mulheres a se tornarem barrigas de aluguel na Ucrânia

A Ucrânia analisa uma lei que, na prática, proibiria estrangeiros de recorrer à barriga de aluguel no país

Ativistas criticam campanhas publicitárias e acusam clínicas de transformar reprodução em mercadoria -  (crédito: BioTexCom)
Ativistas criticam campanhas publicitárias e acusam clínicas de transformar reprodução em mercadoria - (crédito: BioTexCom)

Karina Tarasenko está grávida de seis meses, mas o bebê em seu útero não é dela.

A jovem de 22 anos, do leste da Ucrânia, é uma barriga de aluguel e está grávida de um embrião formado com óvulo e esperma de um casal chinês.

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Aos 17 anos, Tarasenko viu sua casa ser destruída quando sua cidade, Bakhmut, virou um dos principais campos de batalha desde o início da ofensiva russa em grande escala contra a Ucrânia.

Com boa parte da cidade destruída, ela e o parceiro se mudaram para Kiev, capital do país, mas tiveram dificuldade para encontrar um trabalho estável.

Foi quando, um dia, Tarasenko estava em uma loja, com dinheiro que mal dava para comprar pão e fraldas para a filha de um ano e meio, que decidiu recorrer à prática de barriga de aluguel remunerada.

Ela afirma que nunca teria se tornado barriga de aluguel se não fosse a guerra, que levou milhões de pessoas a perder empregos ou suas próprias empresas, provocou alta da inflação e uma queda acentuada do Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos pelo país) da Ucrânia.

"No começo, a ideia de ser barriga de aluguel me revoltou e decepcionou, mas agora simplesmente aceitei", diz Tarasenko, que hoje vive nos arredores de Kiev em um apartamento fornecido pela clínica de barriga de aluguel. Ela está grávida de uma menina.

Tarasenko receberá 12,5 mil libras (cerca de R$ 95 mil), aproximadamente o dobro do salário anual médio na Ucrânia, embora a maior parte do pagamento só seja feita após o parto.

Ela deveria receber 15,5 mil libras (cerca de R$ 118 mil), mas, quando um dos gêmeos de sua gravidez morreu, seu pagamento foi reduzido, conforme estipulado em contrato.

Apesar das dúvidas iniciais, Tarasenko pretende continuar trabalhando como barriga de aluguel para economizar dinheiro e comprar uma casa.

Mas isso pode mudar em breve.

Um anúncio em rede social traz as palavras “PROMOÇÃO BLACK FRIDAY”. Há cinco bebês de fralda e, atrás deles, uma mulher sorrindo. Ela tem cabelo castanho claro comprido e veste uma camisa branca com listras azuis
BioTexCom
Ativistas criticam campanhas publicitárias e acusam clínicas de transformar reprodução em mercadoria

Antes da guerra, a Ucrânia era conhecida como o segundo maior polo mundial de barriga de aluguel comercial, atrás apenas dos Estados Unidos.

Embora a guerra contra a Rússia tenha afetado fortemente o setor, especialistas disseram ao BBC World Service que o número de gestações por barriga de aluguel quase voltou aos níveis anteriores à guerra.

Mas o Parlamento ucraniano analisa agora um projeto de lei que prevê fiscalização mais rígida sobre a indústria de barriga de aluguel. Na prática, seria proibida a participação de estrangeiros, que representam hoje 95% dos futuros pais. As propostas têm amplo apoio no Parlamento da Ucrânia.

O projeto busca regulamentar de forma mais rigorosa um setor acusado de transformar a reprodução em mercadoria e explorar mulheres pobres e vulneráveis. Defensores da proposta também argumentam que mulheres ucranianas não deveriam ter filhos para estrangeiros por meio de barriga de aluguel em um momento em que a taxa de natalidade despencou devido à guerra, embora o número de bebês nascidos por barriga de aluguel represente uma pequena parcela dos nascimentos.

"Por causa da guerra, o número de mulheres em situação de desespero está aumentando, e as clínicas se aproveitam disso porque casais ocidentais querem comprar bebês de forma barata", afirma Maria Dmytrieva, ativista pelos direitos das mulheres que se opõe à barriga de aluguel por razões éticas e argumenta que a proposta em discussão no Parlamento não vai longe o suficiente.

Dmytrieva acredita que a prática deveria ser totalmente proibida na Ucrânia. Ela também acusa clínicas de barriga de aluguel de visar abertamente mulheres mais pobres, e cita anúncios publicados nas redes sociais.

Uma propaganda gerada por inteligência artificial em janeiro deste ano, publicada por uma clínica para recrutar novas barrigas de aluguel, mostra uma mulher forçada a decidir entre comprar lenha para aquecer o fogão ou roupas para os filhos, apelando às dificuldades enfrentadas por muitos ucranianos durante a guerra.

Outra campanha publicitária, de 2021, da BioTexCom Centre for Human Reproduction, maior clínica de barriga de aluguel da Ucrânia, promovia uma "Black Friday" de bebês gerados por barriga de aluguel.

Questionada pela BBC sobre se esses anúncios poderiam ser considerados ofensivos, a BioTexCom defendeu as campanhas, afirmando que elas foram eficazes para atrair atenção em relação ao tema.

A clínica também tem sido alvo de críticas pela forma como opera. Em 2018, o Ministério Público ucraniano abriu uma investigação contra o diretor-executivo da clínica, Albert Tochilovsky, e outros dois ex-funcionários, sob suspeita de crimes, entre eles tráfico humano.

O órgão afirmou que a investigação preliminar foi posteriormente suspensa para permitir "cooperação internacional" e coleta de informações no exterior.

A BioTexCom e Tochilovsky afirmam atuar sempre dentro da lei e "negam categoricamente as acusações".

O Ministério Público não detalhou a acusação de tráfico humano, mas a BioTexCom disse à BBC que o caso envolve incompatibilidade de DNA entre um casal e um bebê. A clínica afirma que seus funcionários não foram responsáveis e que "suspeitam que o problema tenha ocorrido durante a coleta de esperma", realizada em outro país.

A empresa afirma ajudar pessoas a realizarem o sonho de se tornarem pais, oferecer às mulheres uma forma legal de obter renda e oferecer atendimento médico, hospedagem e alimentação.

Tarasenko inicialmente procurou a BioTexCom para atuar como barriga de aluguel, mas decidiu não continuar com a clínica por considerar que foi tratada com frieza nas primeiras consultas.

Crianças abandonadas

Uma mulher segura uma criança pequena nos braços. O menino está de costas para a câmera, e seu rosto não pode ser visto. Ele tem cabelo escuro e veste uma jaqueta azul e calças vermelhas. A mulher olha para a câmera; ela tem cabelo loiro curto e liso e usa uma blusa preta. Eles estão ao ar livre, e é possível ver grama alta e algumas casas ao fundo
BBC
Wei vive em uma instituição estatal na Ucrânia depois que os futuros pais decidiram não buscá-lo

Também há casos de bebês abandonados após o nascimento, quando os pais biológicos mudam de ideia.

Na Ucrânia, os futuros pais são legalmente responsáveis pelo bebê após o nascimento, e abandonar uma criança por qualquer motivo é ilegal.

Mas, na prática, a aplicação da lei entre diferentes países pode ser difícil.

Wei, hoje com cinco anos, sofreu graves danos cerebrais após nascer prematuro, em 2021. Sua gestação por barriga de aluguel foi intermediada pela BioTexCom.

Hoje, ele vive em uma instituição estatal para crianças com deficiência em Kiev.

Quando a BBC visitou o local, Wei comia banana amassada com as outras crianças da instituição. Eles fazem todas as refeições juntos.

Wei não consegue sentar sem ajuda, sustentar a cabeça nem enxergar adequadamente, e precisará de cuidados integrais pelo resto da vida.

Depois de saberem sobre seu estado de saúde, os futuros pais, de um país do Sudeste Asiático, decidiram não buscá-lo. Na prática, eles desapareceram, e sucessivas tentativas das autoridades e da BioTexCom de contatá-los fracassaram.

A mulher que gerou Wei por barriga de aluguel também não quis ficar com ele e, pela lei ucraniana, não tinha responsabilidade legal em relação à criança.

Valeria Soruchan, do Ministério da Saúde da Ucrânia e uma das defensoras da mudança na legislação, afirma que "muitas" crianças nascidas por barriga de aluguel são abandonadas, embora o governo não mantenha números exatos sobre isso.

Ela não é contra a barriga de aluguel em princípio, mas critica a falta de regulamentação na Ucrânia e apoia vetar o uso do serviço por estrangeiros.

Tochilovsky, diretor-executivo da BioTexCom, descreveu o caso como uma "tragédia" e afirmou que, quando pais abandonam uma criança, "consideramos que isso também é, em parte, nossa responsabilidade".

Quando as crianças são abandonadas, as clínicas não são obrigadas por lei a contribuir com os custos de permanência em instituições públicas, financiadas com recursos públicos e privados. A BioTexCom não contribuiu financeiramente para a instituição onde Wei vive.

Crianças com deficiências tão graves quanto as de Wei raramente encontram famílias adotivas. Quinze famílias analisaram o caso de Wei, mas nenhuma manifestou interesse em adotá-lo.

'Eles nos transformaram em uma família'

Um homem e uma mulher seguram uma criança pequena. O homem tem cabelo curto e escuro, barba e veste uma jaqueta acolchoada em tom verde-acinzentado. A mulher tem cabelo longo, escuro e ondulado, e usa um cachecol com estampa de oncinha. A criança tem cabelo escuro e veste um macacão acolchoado cinza-escuro com zíper
BBC
Himatraj e Rajvir Bajwa afirmaram que a barriga de aluguel 'nos deu algo que nunca pensamos ser possível, nos transformou em uma família'

Ainda assim, há quem argumente que a barriga de aluguel comercial pode beneficiar todas as partes envolvidas.

Por cinco anos, Himatraj e Rajvir Bajwa, de Londres, no Reino Unido, tentaram sem sucesso ter um filho, incluindo duas tentativas de fertilização in vitro (FIV), antes de decidirem recorrer à barriga de aluguel.

Rajvir, de 38 anos, tem endometriose severa, o que torna a gravidez mais difícil. Ela também tem esclerose múltipla.

O casal descartou o Reino Unido, onde apenas a barriga de aluguel solidária é permitida, o que significa que a mulher não recebe recompensa financeira, embora tenha direito ao reembolso de despesas.

No Reino Unido, os acordos de barriga de aluguel são mais informais e frequentemente organizados por amigos, familiares ou organizações sem fins lucrativos que colocam futuros pais em contato com barrigas de aluguel.

Pela legislação britânica, a mulher que gera o bebê tem responsabilidade legal pela criança até que uma decisão judicial transfira essa responsabilidade aos futuros pais.

Himatraj e Rajvir estavam preocupados com a possibilidade de não terem direitos legais imediatos sobre o bebê. Já houve casos de barrigas de aluguel solidárias decidirem ficar com os bebês, embora essas situações sejam extremamente raras.

O casal ficou impressionado com a organização do sistema de barriga de aluguel na Ucrânia, e o custo do procedimento no país também pesou na decisão.

Eles recorreram à BioTexCom no ano passado e pagaram cerca de 65 mil libras (aproximadamente R$ 495 mil) — valor muito inferior ao dos EUA, onde a barriga de aluguel pode ultrapassar 110 mil libras (cerca de R$ 837 mil). O casal afirma ter tido uma boa experiência com a BioTexCom.

Por meio de fertilização in vitro, eles criaram um embrião em Londres, que foi enviado para Kiev e armazenado nos tanques criogênicos da clínica.

Em junho do ano passado, eles chegaram a Kiev para o nascimento do bebê.

Mas, por causa da demora das autoridades britânicas em concluir a documentação e emitir o passaporte do filho, passaram os três primeiros meses dele em Kiev, entrando e saindo de abrigos antibomba enquanto a Rússia bombardeava a cidade.

"Foi assustador e surreal", diz Rajvir.

O casal voltou para o Reino Unido no fim de agosto com o filho.

Em junho, eles vão celebrar o primeiro aniversário do menino.

Os dois se opõem ao projeto de lei ucraniano e argumentam que a agência de barriga de aluguel à qual recorreram lhes trouxe "alegria e felicidade".

"Eles nos deram algo que nunca pensamos ser possível, nos transformaram em uma família", afirma Himatraj, de 37 anos.

Himatraj e a mulher pediram para encontrar a barriga de aluguel uma vez e levaram chocolates e flores para ela.

Eles disseram não acreditar que ela tenha sido explorada.

"Obviamente, sempre foi escolha dela, e isso é um meio de vida para elas. E, se isso vai ajudá-las, então, no fim das contas, tenho certeza de que todos ficam felizes com o resultado final."

Uma mulher grávida está deitada em uma cama de clínica fazendo um exame. Outra mulher, de jaleco branco e cabelos longos escuros presos, realiza o procedimento. As duas olham para a tela, onde é possível ver um feto
BBC
Karina rejeita a ideia de que a barriga de aluguel comercial seja exploratória: 'O corpo é meu, a decisão, também'

'Ninguém está nos forçando'

Tarasenko, grávida de um embrião formado com óvulo e esperma de um casal chinês, também rejeita a ideia de que a barriga de aluguel comercial seja exploratória.

"Ninguém está nos forçando. Este é o meu corpo, minha decisão… Vou receber minha recompensa por dar felicidade a eles."

Ela se opõe à mudança na lei e afirma que ela "arruinaria completamente" seus planos de comprar uma casa.

Olhando para a barriga, acrescenta: "Eu sei que esta não é minha filha, mas eu a amo. Converso com ela. Quando ela mexe, digo que os pais dela estão esperando por ela."

E conclui: "Só espero que ela tenha uma boa vida."

Reportagem adicional de Fay Nurse, do BBC World Service, e Victoria Prisedskaya, da BBC News Ucrânia

Arte gráfica com “Global Women” (Mulheres Globais, em tradução livre) escrito em branco sobre fundo roxo, com arcos em tons de azul e roxo à direita, formados por círculos
BBC

* Esta reportagem faz parte da série Global Women, da BBC World Service, que reúne, em inglês, histórias importantes e pouco conhecidas de diferentes partes do mundo.

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BBC
Sofia Bettiza - Repórter global de saúde do Serviço Mundial da BBC e da BBC News Ucrânia
postado em 10/05/2026 17:23 / atualizado em 10/05/2026 17:30
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