
Donald Trump finaliza os preparativos para embarcar rumo a Pequim, na terça-feira (13/5), sem incluir na bagagem o item que chegou a mencionar, na última semana, como talvez o mais precioso, de um ponto de vista imediato: um acordo para encerrar a guerra no Oriente Médio, iniciada em 28 de fevereiro com bombardeios ao Irã, coordenados com Israel. A China, embora tenha mantido postura diplomática discreta, dá sinais de crescente incômodo com o prolongamento do conflito, em particular com o bloqueio do estratégico Estreito de Ormuz, via marítima crítica para o transporte de petróleo.
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Um cessar-fogo em vigor desde 8 de abril estancou os primeiros 40 dias de confrontos, com a troca diária de ataques com mísseis e drones, mas desde então Irã e Estados Unidos mantêm um bloqueio naval recíproco que segura as cotações do petróleo no patamar de US$ 100 por barril. O mercado ensaiou recuos nas idas e vindas de um processo indireto de negociações mediado pelo Paquistão, mas voltou a sinalizar pessimismo, ontem, depois que o presidente norte-americano classificou como "totalmente inaceitável" a resposta de Teerã a sua oferta mais recente para um acordo de paz.
Depois de ter publicado sua reação na própria plataforma, a Truth Social, Trump advertiu, falando à imprensa na Casa Branca, que o cessar-fogo com o Irã está "em estado crítico, incrivelmente enfraquecido". Comparou a situação a "quando o médico entra (no quarto do paciente) e diz: 'Senhor, seu ente querido tem exatamente 1% de chance de sobreviver'". Mais tarde, falando por telefone à emissora Fox News, o presidente acenou mais uma vez com a retomada da operação militar de escolta de navios mercantes em Ormuz, lançada na segunda-feira passada, mas suspensa abruptamente no dia seguinte, depois de uma sequência de escaramuças com as forças iranianas.
"Moderados e malucos"
Sob crescente questionamento doméstico, com a guerra avançando pelo terceiro mês sem sinal de solução à vista — seja por um acordo, seja pela imposição militar clara —, Trump descartou a ideia de um recuo dos EUA. "Vamos alcançar a vitória total", insistiu, para em seguida afirmar que o Irã "se engana" se pensa que ele se sente "sob pressão". Em uma análise ao seu estilo, descreveu uma divisão no comando iraniano entre "moderados e malucos". "Os malucos querem lutar até o fim, mas será uma luta muito rápida", resumiu.
Em resposta indireta, o presidente do parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, que chegou a participar de uma rodada frustrada de negociações com emissários dos EUA, no Paquistão, escreveu na rede social X que a República Islâmica não teme a retomada plena das hostilidades. "Nossas forças armadas estão prontas para responder e infligir uma lição a qualquer agressão", postou, com uma advertência aos adversários: "Terão uma surpresa".
Correndo por fora
O impasse militar e diplomático no Golfo Pérsico coloca Trump em posição de desvantagem no encontro bilateral que terá, amanhã e depois, com o presidente da China, Xi Jinping, avalia o professor de relações internacionais da ESPN Gunther Rudzit. "Quem pode conseguir efetivamente pressionar o Irã a aceitar um acordo de paz é Pequim, que hoje importa 90% do petróleo que o Irã exporta", disse o estudioso, em entrevista ao Correio. "Se até agora houve esse prolongamento do conflito, é também porque é do interesse chinês enfraquecer o governo americano", arrisca.
Rudzit acredita que o virtual empate com o regime islâmico no terreno militar, depois de mais de 70 dias, "enfraqueceu muito a capacidade americana de lutar uma guerra até no curto e médio prazo, pelo gasto de mísseis de reserva estratégica que os EUA tinham". Mais importante, o andamento do conflito abala as convicções em uma supremacia bélica norte-americana indisputável. "A guerra mostrou que, definitivamente, com uma estratégia não convencional, o Irã caminha para derrotar os EUA."
Para Pequim, segundo o professor da ESPN, assistir de camarote ao conflito permitiu uma posição vantajosa para acelerar o processo de descarbonização da economia, compreendido pelo governo como "essencial". "Essa guerra só não está afetando mais profundamente o país porque a China aumentou muito as reservas estratégicas", explica. Rudzit lembra que a invasão da Venezuela, no início do ano, e o controle da atividade petroleira no país sul-americano pelos EUA colocaram Xi e sua equipe em alerta. "Ficou explícito que, com a perda da Venezuela e a possibilidade de perder também o Irã, como fornecedor, a China não pode continuar dependente da importação de petróleo."
Saiba Mais
Duas perguntas para
Gunther Ruzit, professor de relações internacionais da ESPN
O desgaste dos EUA com o Irã, de alguma maneira, beneficia a China?
Sem dúvida alguma, a China saiu fortalecida dessa guerra, já que, em termos diplomáticos, os EUA se enfraqueceram, se isolaram mais ainda de vários dos seus aliados, principalmente os europeus. E se enfraqueceu a relação com a Arábia Saudita, que percebeu que a capacidade militar americana não é suficiente para impedir o Irã de impor danos profundos às economias das monarquias.
Isso sugere que a China vê o caminho aberto para seus planos de expansão da influência global, via Rota da Seda?
Não é caminho aberto. Afinal de contas, a Índia, por exemplo, não aderiu e não vai aderir. Mas, com certeza, essa guerra ajudou no mínimo a enfraquecer a influência americana no Oriente Médio e mesmo na Ásia.
Europa sanciona colonos judeus
Os ministros das Relações Exteriores dos 27 países-membros da União Europeia (UE) aprovaram ontem novas sanções contra colonos israelenses extremistas pela violência contra a população palestina no território ocupado da Cisjordânia, depois de o novo governo da Hungria concordar com a medida e pôr fim a meses de impasse.
"Está feito. A UE sanciona as principais organizações israelenses culpadas de apoiar a colonização extremista e violenta da Cisjordânia, assim como seus líderes", anunciou nas redes sociais o chanceler francês, Jean-Noël Barrot. "Esses atos extremamente graves e intoleráveis devem cessar imediatamente", acrescentou.
A decisão teve pronta resposta do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que desde 2022 regularizou em massa novos assentamentos judaicos no território. Desde o ataque do movimento extremista Hamas a Israel, em outubro de 2023, que deixou mais de 1.300 mortos, o revide de Netanyahu matou mais de 72 mil palestinos na Faixa de Gaza. Paralelamente, os colonos judeus na Cisjordânia multiplicaram a invasão de vilarejos árabes e a destruição de plantações, criações e moradias, com saldo de mais de 1.200 mortes.
"Israel e EUA estão 'fazendo o trabalho' sujo pela Europa, ao lutarem pela civilização contra os jihadistas, enquanto a UE deixa evidente sua falência moral, ao equiparar cidadãos de Israel e terroristas do Hamas", escreveu Netanyahu no X.

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