
Estrangulada por um bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos há mais de quatro meses, Cuba é uma ilha imersa em uma crise histórica sem solução à vista. Apagões de várias horas por dia, com impacto devastador na economia e no turismo, somam-se a ameaças constantes do presidente americano, Donald Trump, de derrubar o regime socialista. A pressão de Washington levou a uma reunião excepcional e incomum de John Ratcliffe, diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), com autoridades locais. Ratcliffe desembarcou em Havana na quinta-feira. Fontes do governo cubano anunciaram que o encontro deveria ajudar no "diálogo político" entre os dois adversários ideológicos. Um dia antes, Cuba demonstrou "disposição" para avaliar uma proposta de ajuda financeira da Casa Branca, estimada em US$ 100 milhões (cerca de R$ 490 milhões). A condição imposta pelos EUA é que o dinheiro seja repartido pela Igreja Católica, sem acesso pelas autoridades do regime.
A incomum visita do diretor da CIA a Cuba em meio ao agravamento da crise na ilha
Na sexta-feira (15/4), Cuba conseguiu religar toda a rede elétrica nacional, depois de um blecaute atingir sete das 15 províncias da ilha. A medida é considerada apenas paliativa: os apagões programados serão mantidos, ante a capacidade limitada de geração de energia. A usina termelétrica Antonio Guiteras, a 100km de Havana e a maior do país, foi danificada e permanece desativada.
Professor do Departamento de Ciências Sociais da Augusta University (em Augusta, no estado da Geórgia) e especialista nas relações entre Cuba e EUA, Paolo Spadoni destacou que não existe uma oposição cubana legalizada. "A Igreja Católica, historicamente, desempenha papel importante em várias fases de negociação com os EUA. Ela interpreta que existe uma questão humanitária em Cuba. De fato, o impacto do bloqueio energético tem sido devastador para a economia cubana. A medida adotada por Trump amplificou a crise existente, provocando uma situação quase sem precedentes e insustentável. É preciso destacar que Cuba produz apenas 40% de suas necessidades energéticas com petróleo bruto pesado", explicou.
Segundo ele, os 9,6 milhões de cubanos sofrem até 20 horas diárias de apagões. "Desde que os Estados Unidos tiraram Nicolás Maduro da Venezuela, em 3 de janeiro passado, Cuba recebeu do exterior somente petróleo da Rússia. Um petroleiro enviado por Moscou chegou à ilha algumas semanas atrás, e o estoque acabou", acrescentou Spadoni.
Ele disse que Cuba sustenta suas necessidades energéticas com o petróleo nacional — insuficiente para suprir metade das demandas. O estudioso lembrou que Trump falou em tomar o controle de Cuba, apesar de não ter sido específico. "A ameaça de ataque americano à ilha é real. Trump pretende fomentar o livre mercado e acabar com a economia socialista. E, então, implementar reformas econômicas a curto prazo e políticas a longo prazo. A ideia de Washington é estimular acordos econômicos importantes e benéficos para companhias americanas, além de criar condições para reformas políticas e mais liberdades em Cuba", avaliou. "A reforma econômica não implica mudança de regime. O Exército cubano controla a economia — o turismo, o funcionamento do Porto de Mariel e as finanças do país."
Jorge I. Domínguez, professor aposentado de estudos internacionais da Universidade de Harvard, admitiu ao Correio que o bloqueio energético paralisou o transporte público e inviabilizou o funcionamento de elevadores em prédios comerciais e residenciais. "Além disso, interrompeu a irrigação agrícola, levando à redução no consumo de alimentos. Também impede que a comida seja cozinhada e que as pessoas usem ar condicionado e ventilador em meio à chegada do calor", comentou.
Alternativas
Na opinião de Domínguez, Trump oscila entre duas opções. "Às vezes, diz que não há necessidade de uma invasão, porque Cuba cairia sozinha. Outras vezes, com o destacamento da Marinha e da Força Aérea ao redor da ilha, parece que uma invasão é apenas uma questão de tempo, até que a guerra com o Irã 'termine'", advertiu. Ele entende que os Estados Unidos têm aplicado pressão política sobre Cuba, mediante instrumentos econômicos: sanções contra transações financeiras internacionais, assédio a serviços médicos prestados por cubanos em outros países, proibição para que a empresa Western Union possa transmitir remessas e obstáculos ao turismo.
"Assim como no caso da guerra contra o Irã, as vantagens que Trump busca em Cuba nem sempre ficam claras. Elas incluem o desmantelamento das instalações de inteligência eletrônica que ele atribui à Rússia e à China, em Cuba; a rendição do governo e do Partido Comunista, abrindo caminho para outra liderança; e grandes mudanças na política econômica", explicou o professor de Harvard. No entanto, ele afirmou que não está claro se Trump busca uma solução tipo Venezuela, com a vice-presidente Delcy Rodríguez, se tenta numa mudança de políticas sem troca de regime ou se busca um novo governo — posição defendida pelo secretário de Estado, Marco Rubio.
A bordo do Air Force One, enquanto viajava com Trump para a China, na semana passada, o chefe da diplomacia de Washington traçou um panorama pessimista para Cuba. "É uma economia quebrada e disfuncional, e é impossível mudá-la. Eu gostaria que fosse diferente. Daremos uma oportunidade a eles. Mas não acredito que vá acontecer", declarou Rubio, filho de pais cubanos. "Não acredito que possamos mudar o rumo de Cuba enquanto essas pessoas estiverem à frente do regime."
Saiba Mais
EU ACHO...
"Os Estados Unidos pretendem acabar com todas as fontes de divisas da economia cubana. O objetivo é estrangular Cuba, a ponto de forçar concessões por parte do regime. A ilha está verdadeiramente no meio de uma crise humanitária, ainda pior do que aquela que vivenciou no início da década de 1990, após a queda da União Soviética e o início do chamado Período Especial."
Paolo Spadoni, professor do Departamento de Ciências Sociais da Augusta University (em Augusta, no estado da Geórgia)
"Acredito que as Forças Armadas Revolucionárias de Cuba tentarão resistir e reacender a 'guerra popular', o que envolveria táticas de guerrilha. Não tenho dúvidas de que os militares dos EUA conseguirão derrotá-las em pouco tempo, mas os episódios de violência podem persistir indefinidamente. Os cubanos lutaram para defender Nicolás Maduro; os cubanos lutaram contra barcos que tentavam infiltrar membros armados da oposição em Cuba."
Jorge I. Domínguez, professor aposentado de estudos internacionais da Universidade de Harvard

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