
Embora a revelação das conversas entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, hoje preso, tenha afetado negativamente a campanha à Presidência do filho de Jair Bolsonaro (PL), ela não será suficiente para impedi-lo de chegar, competitivo, ao segundo turno das eleições de outubro.
A leitura do cenário atual pelo filósofo e cientista político Marcos Nobre, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), porém, não vai na direção de que a polarização calcifica os polos antagônicos de forma a blindá-los de crises como essa.
Ao contrário, seu argumento é que, na estrutura da divisão social que o Brasil vive hoje, Flávio lidera a coalizão que busca interromper políticas de redistribuição de renda iniciadas nos anos 1990.
Essa coalizão, conformada por uma parte da direita tradicional e da direita radical, tem angariado votos desde, pelo menos, a eleição de 2018 — e reúne muitas condições para seguir disputando o pleito desse ano, na avaliação de Nobre.
Para ele, embora a relação de proximidade de Flávio com Vorcaro prejudique sua imagem de alguma forma, não abala sua campanha.
"Além disso, o timing da crise foi bom para o Flávio, porque dará tempo de ele se recuperar. Tem muito tempo até outubro", diz Nobre em entrevista à BBC News Brasil.
Flávio conta, para isso, com um novo ator da política brasileira, na visão de Nobre: um partido digital. Este é eixo central de O partido digital bolsonarista, livro que ele lançará em junho, ao lado da cientista política Ana Cláudia Chaves, pelo Centro para Imaginação Crítica (CCI) do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).
Do outro lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é apontado por Nobre como o líder de uma coalizão distributivista, que tem o desafio de não ter mais como acomodar o conflito pela distribuição da riqueza como fazia antes: por meio de um acordo entre as classes sociais. Foi por isso que, no atual mandato, ele partiu ao confronto com o Congresso, aponta o filósofo.
Para Nobre, é por isso que a tentativa de criar uma "terceira via" para o pleito de outubro é uma "ilusão". "Ela é como um estacionamento em que as pessoas ficam ali esperando se vão para um lado ou para o outro. É uma ideia fantasiosa", afirma.
Confira os principais trechos da entrevista.
BBC News Brasil - A descoberta de uma relação de proximidade entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, do Banco Master, vai impactar na campanha dele?
Marcos Nobre - Não. Estruturalmente, fica tudo do mesmo jeito.
BBC News Brasil - Por quê?
Nobre - O Flávio Bolsonaro já sai com uma base de 25% a 30% [do eleitorado]. Não há outro candidato de oposição ao governo Lula com essa condição ou que possa alcançar algo semelhante a isso. Vamos avaliar se terá alguma perda e, se tiver, de quanto ela será, mas a pergunta é: quem consegue ir para um segundo turno com o Lula? Hoje, a resposta é: só o Flávio.
BBC News Brasil - E para a campanha do presidente Lula? Qual é o impacto?
Nobre - Se o adversário comete um erro dessa magnitude, é de se comemorar, mas ele e a campanha dele sabem que não podem contar com um erro do rival para ser eleito. É preciso ter uma estratégia vitoriosa de qualquer forma. Além disso, o timing da crise foi bom para o Flávio, porque dará o tempo dele se recuperar. Tem muito tempo até outubro.
Na verdade, ficou como aprendizado sobre como ele pode lidar com essas situações desfavoráveis. Vai aprender a coordenar melhor sua comunicação de campanha. [O vazamento das conversas com Vorcaro] até é ruim, mas não é um desastre.
BBC News Brasil - Um dos argumentos comuns aponta que a polarização que o Brasil atravessa desde 2013 calcifica polos antagônicos. Então, mesmo crises como essas não são capazes de desestabilizar as candidaturas. Como o senhor vê isso?
Nobre - Não gosto das ideias de "polarização" ou de "calcificação". Elas são importantes para descrever a superfície das coisas, mas não vão até as raízes da conjuntura.
BBC News Brasil - E o que há nessas raízes?
Nobre - Temos duas coalizões. Uma, que poderíamos chamar de redistributivista, almeja manter a diminuição da desigualdade por meio das políticas públicas — programas de transferência de renda, ações afirmativas, etc. — que caracterizaram a própria redemocratização do país. A outra, que chamamos de anti-redistributivista, acha que esse processo de redistribuição da riqueza já foi longo o suficiente, e que agora o Estado não deve aprofundar mais essas políticas públicas.
Não se trata de uma polarização, mas de divisão. Na superfície dessa divisão, existem os valores morais e outras coisas que apontam por aí, mas precisamos olhar para a raiz da divisão, que diz respeito à distribuição da riqueza do país.
BBC News Brasil - E quem integra essas coalizões?
Nobre - A coalizão redistributivista é formada por setores da esquerda e pela direita mais tradicional, que não quer se aliar à extrema direita. A anti-redistributivista reúne a outra parte dessa direita tradicional com a extrema direita. Isso é fundamental: a divisão não é entre a esquerda e direita, mas entre a esquerda e parte da direita contra a direita e a extrema direita.
BBC News Brasil - E qual é a diferença entre divisão e polarização?
Nobre - Não existe solução para uma divisão. Uma polarização são dois polos antagônicos que estão em um mesmo campo magnético. Mas a divisão diz respeito a campos diferentes, inconciliáveis. Não deveríamos nos limitar falando de coisas como "polarização", "polarização afetiva", "calcificação". Temos que ir mais a fundo.
A divisão mostra que a redistribuição, que vem da redemocratização, chegou ao seu limite no Brasil. Ela não pode ser mais feita como foi entre 1995 e 2014, mais ou menos, em que se tentou fazer isso sem que ninguém perdesse muito. O esforço era por melhorar a vida da base da pirâmide social sem prejudicar as posições das outras classes sociais. Isso se deu aumentando a carga tributária, estimulando o endividamento das famílias e aproveitando o boom das commodities. O objetivo sempre foi evitar um conflito redistributivo que, agora, é incontrolável.
Estamos em um momento em que essas antigas acomodações não conseguem dar mais a volta nesse conflito redistributivo. A única forma de continuar nesse projeto é por meio do enfrentamento, mas as condições políticas pioraram. A estratégia de jogar a isenção do Imposto de Renda contra a taxação dos ricos, de dizer ao Congresso que, se ele não aprovar isso, terá o desafio das urnas, é a grande novidade de toda a situação atual.
BBC News Brasil - E isso vai chegar a algum termo?
Nobre - Não dá para saber. Só temos algumas indicações. Peguemos o terceiro governo Lula, que fez o que não tinha feito nos três mandatos anteriores. Pela primeira vez, parcelas mais ricas da população foram taxadas. O Lula já chegou a ter 80% de aprovação nas pesquisas, o PT governou o Brasil por 13 anos, e essa redistribuição jamais esteve colocada a partir da taxação dos mais ricos.
Foi a primeira vez que o conflito redistributivo se colocou como projeto de lei, como debate no Congresso, na sociedade. Isso aconteceu porque os caminhos da redistribuição da riqueza que existiam entre os anos 1990 e a primeira década de 2000 não estão disponíveis. É dizer: não dá mais para aumentar os impostos ou endividar famílias, e não temos mais o boom das commodities para financiá-la. O conflito está posto, na verdade, em um contexto em que o governo de ocasião é de minoria. É paradoxal.
BBC News Brasil - Um quarto do eleitorado (24%, de acordo com uma pesquisa Quaest/Genial de novembro de 2025) diz não querer nomes nem ligados a Bolsonaro ou Lula na Presidência no ano que vem. À luz dos esforços por uma candidatura de "terceira via", como avalia esse número? É suficiente para dar condições de disputa?
Nobre - Esse assunto é muito cansativo...
BBC News Brasil - Por quê?
Nobre - Porque, da mesma maneira, 90% dos brasileiros dizem que não se arrependem do voto que fizeram em 2022. Como a gente conecta esses dois números? Não é nada complicado: são as duas opções que existem [para votar] hoje.
A gente até gostaria que existisse outra — sonho todo mundo pode ter —, mas, politicamente, não existe terceira via. Ela é como um estacionamento em que as pessoas ficam ali esperando se vão para um lado ou para o outro. É uma ideia fantasiosa.
O que é importante é que essa divisão que estou apontando alcança, em termos de engajamento e de mobilização, uma parcela enorme do eleitorado. Se considerarmos que qualquer democracia dos últimos 80 anos teve cerca de 15% e 20% do eleitorado mobilizado, isso é gigantesco do ponto de vista político e eleitoral [no Brasil].
BBC News Brasil - A terceira via, nesse sentido, pode ter efeito de aumentar a divisão?
Nobre - A divisão é inescapável. Quando chega a eleição, mesmo quem não se interessa por política, quem acha que ela não faz parte do dia a dia, vai ter que escolher um lado ou outro.
BBC News Brasil - O cientista político Jairo Nicolau aponta que a divisão envolve 20% do país.
Nobre - Pois é, mas você pode dizer que são "apenas" 20% ou que são "espantosamente" 20% das pessoas politicamente engajadas. É gigantesco em termos de mobilização, até porque esses 20% atingem muito mais gente no cotidiano — e de formas muito diferentes.
A pessoa está no YouTube vendo uma live e, no comentário, tem alguém falando de detergente. Isso é política. Agora, essas pessoas vão buscar ativamente por informações políticas? Muitas delas, não. O ponto é que elas recebem esse tipo de informação mesmo que não busquem e, para elas, só há duas possibilidades: Lula ou Flávio. É hora de superar essa ilusão [da terceira via].
BBC News Brasil - Até agora, o que tem se constituído como "terceira via" são as chapas de Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo). O que ela tem de diferente em relação a candidaturas que tentaram ocupar o mesmo espaço político em pleitos passados, como Ciro Gomes (PDT) em 2018, ou Simone Tebet (MDB) em 2022?
Nobre - Caiado e Zema são da coalizão anti-redistributivista. Não são uma terceira via. Eles têm uma via.
BBC News Brasil - Mas e as tentativas anteriores?
Nobre - O mais importante é entender o conflito que está na base dessa ideia de terceira via, que é pela liderança da coalizão anti-redistributivista. Os esforços por uma terceira via são, no fundo, uma tentativa de impedir a extrema direita de liderar essa coalizão. A terceira via quer que a direita tradicional a lidere. É uma ilusão. Foi em 2018, foi em 2022 e será agora. A extrema direita vai liderar a coalizão anti-redistributivista.
BBC News Brasil - Por quê?
Nobre - Porque quem tem voto no Brasil, em termos de liderança, é a extrema direita.
BBC News Brasil - Mesmo com tudo o que aconteceu, o 8 de Janeiro, o julgamento no STF dos militares, a prisão de Bolsonaro, as relações de nomes da extrema direita com casos de corrupção, etc.?
Nobre - Mesmo com tudo isso, porque a extrema direita tem algo muito poderoso, que estamos chamando de partido digital bolsonarista. A direita tradicional não o tem. Do ponto de vista político, a tentativa de criar uma terceira via significa, primeiro de tudo, impedir que a extrema direita lidere a coalizão anti-redistributivista. Mas isso é impossível e, então, em segundo lugar, essa tentativa significa a capacidade de criar o espaço maior à direita tradicional dentro dessa coalizão. A candidatura nasce para negociar espaço político, seja na campanha ou em um futuro governo.
BBC News Brasil - O que sustenta o bolsonarismo, como fenômeno social, hoje, e como o senhor vê o futuro dele?
Nobre - Bolsonarismo é o nome genérico para muitas coisas. É uma identificação política. Nossas mensurações dizem que entre 15% e 25% da população se identifica assim. O petismo até mais: chega a 30%. Esses dados dependem, claro, da formulação da pergunta, do contexto, etc. Mas dizer sobre o fenômeno como um todo é difícil. Hoje, o que sustenta o bolsonarismo é sua organização política — que se dá, justamente, pelo partido digital bolsonarista. É dali que sai tudo.
BBC News Brasil - E o que é isso?
Nobre - Dentro do ecossistema digital da extrema direita, tem uma organização partidária bolsonarista capaz de, em primeiro lugar, hegemonizar esse ecossistema digital e, em segundo lugar, hegemonizar o próprio fenômeno do bolsonarismo, indo além das pessoas que já se identificam com ele. A partir daí, esse partido paralelo compete nas eleições. São etapas.
Esse partido digital tem uma vantagem de não ser partido oficial e, assim, pode hackear os partidos tradicionais, colocando candidatos para concorrer por vários deles. Além disso, ele não precisa prestar contas ao TSE. Mas, por outro lado, tal qual um partido tradicional, ele é muito disciplinado, tem uma capacidade enorme de coordenação, mobilização e engajamento, além de ter um programa político de fato.
Como é possível que o Flávio Bolsonaro consiga reunir, em dois meses, 30% das intenções de voto para a Presidência? Porque ele não está partindo do zero. Ele sai do partido digital bolsonarista, que estava operando para sustentar o bolsonarismo.
BBC News Brasil - O PT, do outro lado da divisão, não tem algo parecido?
Nobre - Não. É um partido analógico. A influência digital do PT é diferente. É uma tentativa de digitalizar sua força analógica. O partido digital bolsonarista já nasceu digital. Isso não me permite dizer que é impossível que o PT faça algo nesse sentido, mas se trata de reconhecer que, hoje, existem duas formas qualitativamente diferentes de organização política: o partido analógico pode se digitalizar, mas nunca vai ter a mesma estrutura de um partido que já nasceu digital. É interessante que ele nem se reconhece assim. Mas seria necessário regular instituições assim, que não são formalizadas, mas que estão operando, porque não tem como dizer que tudo o que acontece dentro delas não tem efeitos sobre as eleições. É uma vantagem desleal.
BBC News Brasil - E o "lulismo"?
Nobre - Ele acabou.
BBC News Brasil - Como assim?
Nobre - O "lulismo" corresponde àquele momento de fazer as políticas redistributivas sem um confronto aberto. Aquela etapa de acomodação. Ela não existe mais. Podemos continuar até dando o mesmo nome, mas aquilo ali acabou.
BBC News Brasil - Se hoje o país está dividido, como o senhor argumenta, o que existia antes da divisão?
Nobre - Aí, sim, polarização. O mundo em que os polos eram o PT e o PSDB era um mundo de polarização. Eles estavam no mesmo campo magnético, eram do mesmo campo redistributivo, com visões diferentes de como fazê-lo. A divisão começou, de fato, em 2015, quando a coalizão anti-redistributivista começou a se formar.
BBC News Brasil - A divisão é, então, uma novidade histórica?
Nobre - A pergunta é: nós já tivemos uma coalizão redistributivista em conflito com uma anti-redistributivista liderada pela extrema direita? Não. O que nós tivemos foi o golpe [em 1964], justamente porque essa coalizão não tinha condições de ganhar eleição no Brasil. A saída era um golpe.
Foi só quando o [Jair] Bolsonaro conseguiu liderar essa coalizão anti-redistributivista com parte da direita que isso [ganhar eleições] se tornou possível. Mas isso só aconteceu porque, antes, houve o período de redistribuição. Foi uma reação.
BBC News Brasil - Mas mesmo o governo Bolsonaro não mexeu nos programas sociais.
Nobre - A coalizão anti-redistributivista não diz que vai acabar com o Bolsa Família ou que vai mudar o Benefício de Prestação Continuada. O que ela diz é que políticas como essas não chegaram aonde deveriam chegar, e que, a partir de agora, é cada um por si e que o mercado vai resolver [o conflito redistributivo]. Lembremos que o Bolsonaro não acabou com o Bolsa Família, mas, ao contrário, por questões puramente eleitorais, de maneira irresponsável, aumentou o valor de base com o prazo de 31 de dezembro daquele ano.
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BBC News Brasil - Nas últimas semanas, o governo Lula teve vitórias e derrotas. Viu seu último indicado ao STF, Jorge Messias, ser barrado no Senado, mas reforçou o papel estratégico na reunião com Trump, nos EUA. Viu alguns números econômicos melhorarem, mas segue empatado com Flávio em pesquisas de intenção dos votos. Com o Centrão e o Congresso mais à direita e mais poderoso, como vê a governabilidade de Lula daqui até a eleição?
Nobre - Mesmo nessas condições adversas, ele conseguiu alcançar objetivos da sua coalizão. Mesmo sendo a minoria. É um espanto.
BBC News Brasil - No âmbito proporcional, vê mais espaço para uma mudança estrutural na composição do Congresso ou, ao contrário, as emendas conseguirão mantê-la mais ou menos como hoje?
Nobre - O primeiro de tudo é que acabou o presidencialismo de coalizão. Ele era possível quando havia um desequilíbrio entre o Legislativo e o Executivo em recursos. Eles, porém, foram se igualando, e o presidente foi perdendo capacidades. Hoje, apenas as emendas impositivas estão em um nível inédito: correspondem a 20% do gasto discricionário do governo.
Além disso, tem uma limitação das medidas provisórias – que é uma coisa muito importante —, o financiamento público das campanhas de congressistas e a própria autonomia do Parlamento impedindo uma formação de grandes coalizões políticas como era antes. O Lula pode ter 13 partidos na coalizão, mas não necessariamente conta com os votos dela, porque existe um núcleo que atua de maneira mobilizada.
BBC News Brasil - O senhor chama isso de Centrão "sem medo".
Nobre - Isso. Que não tem medo de se aliar à extrema direita. O Executivo precisa negociar com esse núcleo. Isso é diferente dos anos 2000, em que o presidente negociava os projetos com cada partido, às vezes com cada deputado, cada senador. Hoje, a única coisa que o governo tem no Congresso é uma base anti-impeachment. Ou seja, ele tem apenas uma garantia de que não vai cair.
Quando quer aprovar algum projeto precisa negociar com um bloco do mesmo tamanho da sua coalizão. Ou ele tem os 200 votos ou 400. Não tem meio termo. E aí vem a governabilidade que você tinha me perguntado: a sintonia não está funcionando. Vejamos as derrubadas inéditas de vetos ou a primeira vez que um indicado ao STF [Jorge Messias] foi rejeitado no Senado.
O presidencialismo de coalizão desapareceu. Hoje, o que há é um governo de minoria com base suficiente para não sofrer impeachment e que negocia com o resto do Congresso quando quer passar algo do seu interesse, mas de forma muito mais acirrada.
BBC News Brasil - Mas, então, as eleições desse ano podem mudar essa estrutura?
Nobre - Vai mudar para pior. O que o governo Lula faz para conseguir se manter como um governo de minoria? Ele negocia com o Centrão, que opera como um colegiado e entrega os votos em bloco para aprovar qualquer coisa. O caminho alternativo do governo é o Supremo Tribunal Federal [STF], que passou a ser um ator vital para que o governo consiga barrar as tentativas do Congresso de aumentar sua margem de manobra.
Mas o que aconteceu é que a hostilidade que o governo Lula tinha na Câmara se estendeu para o Senado. Desde 2023, a estratégia do bolsonarismo é ter maioria no Senado, porque daí o STF fica mais vulnerável, fica refém do Congresso por causa do impeachment [dos ministros].
Em um eventual quarto mandato Lula, as condições institucionais serão ainda mais difíceis, porque a ideia de usar o STF para impedir o Congresso de amarrá-lo ainda mais será mais complicada. Tanto a Câmara quanto o Senado vão se tornar mais opositores ainda [nessas eleições]. No Senado, o bolsonarismo vai ganhar e, na Câmara, vai continuar essa correlação de forças que é desfavorável à coalizão redistributivista.
BBC News Brasil - Mas por que as eleições não desestruturam a lógica do Centrão? Ele continua lá independentemente dos pleitos.
Nobre - Essa pergunta é a liga de tudo o que estamos falando aqui, porque aquela fase de acomodação de políticas de redistribuição, que almejava fazer isso sem prejudicar ninguém, foi também um acordo para que o Centrão se reproduzisse na máquina do Estado. Esse foi o acordo e, não à toa, ele se reproduziu ao longo dos governos petistas sem dificuldades.
Em segundo lugar, quando houve a aliança entre direita tradicional e extrema direita, ela conseguiu reunir aquela forma tradicional de reprodução de partidos — a clientelista, típica das emendas atuais — com a atuação do partido digital bolsonarista. Os partidos têm um orçamento eleitoral muito alto. Já é uma capacidade de reprodução significativa. Quando teve uma mudança nas leis de financiamento — que passaram a ser só por vias públicas —, a direita disposta a se aliar à extrema direita era maioria no Congresso. Qual foi o resultado disso? Elas passaram a ter mais dinheiro.
De outro lado, e o que é a novidade, a atuação digital faz com que muitos candidatos dessa coalizão sequer precisem do dinheiro do fundo partidário. Pegue o caso do Nikolas Ferreira. Quanto ele usa desse fundo? Ele diz que usa zero. Então, o Centrão se sustenta, porque ele soma o clientelismo de antes com a atuação digital de agora. Isso é muito poderoso.
BBC News Brasil - E o Centrão também tem aquele conflito por uma liderança?
Nobre - Claro, e desde 2018 tem sido a extrema direita. Isso vai mudar? Não sei. Até agora, não há indicativos disso.
BBC News Brasil - Diante de tudo isso, o Brasil é mais ingovernável hoje?
Nobre - Depende do que você chama de ingovernável. Quem acha que estamos em um contexto de normalidade, que a democracia está funcionando bem, vive em outra realidade. Quase tivemos um golpe. É evidente que estamos em uma situação de anormalidade. Estamos sob risco de ruptura o tempo todo.
A crise dos Poderes é uma crise de arranjo institucional. Não conseguimos evitar sequer a possibilidade de um golpe, de evitar o fechamento do regime. Não tem como ter normalidade se existe a possibilidade de um golpe. Mas, para além disso, que tipo de arranjo será possível caso a gente consiga isolar a extrema direita? Esse me parece o problema.
Primeiro precisamos de um projeto coletivo para isolar a extrema direita, porque ela ameaça a democracia todos os dias. Depois, precisamos pensar em um arranjo político que permita ao país ser governado de forma saudável, que consiga trazer a população para a conversa política sem riscos de ruptura. Ou seja: não estamos sequer na fase de perguntar se o país é governável ou não, mas de questionar as condições de termos um arranjo sem o risco permanente. Isolar a extrema direita e definir regras justas de competição democrática são duas tarefas históricas que temos agora.
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