DOENÇA

Vacina britânica contra Ebola pode ficar pronta para testes em meses

A variante rara do Ebola identificada no surto, chamada Bundibugyo, mata cerca de um terço dos infectados e ainda não tem um imunizante com eficácia comprovada

Profissionais de saúde com equipamentos de proteção do lado de fora do Hospital Geral de Referência durante ações de combate ao surto de Ebola, em 21 de maio de 2026, em Mongbwalu, na República Democrática do Congo -  (crédito: BBC)
Profissionais de saúde com equipamentos de proteção do lado de fora do Hospital Geral de Referência durante ações de combate ao surto de Ebola, em 21 de maio de 2026, em Mongbwalu, na República Democrática do Congo - (crédito: BBC)

Cientistas da Universidade de Oxford, no Reino Unido, estão desenvolvendo uma nova vacina contra o vírus Ebola que deve ficar pronta para testes clínicos em dois a três meses e pode ajudar a enfrentar a atual emergência sanitária.

O surto em curso, concentrado na República Democrática do Congo, já registrou 750 casos suspeitos e 177 mortes.

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Responsável pelo atual avanço dos casos, a variante Bundibugyo do Ebola é rara e ainda não possui vacinas validadas em testes. Ela mata cerca de um terço das pessoas infectadas.

Mesmo assim, os cientistas de Oxford afirmam trabalhar em ritmo acelerado caso o surto saia de controle e a vacina experimental precise ser utilizada.

Não há confirmação de que o imunizante funcione. Ainda serão necessários testes em animais e testes clínicos em humanos para confirmar a sua eficácia.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) elevou o risco do atual surto de Ebola de "alto" para "muito alto" na República Democrática do Congo.

Segundo a OMS, o risco também passou a ser considerado alto na região afetada pelo surto, embora permaneça baixo em nível internacional.

A atualização do status do surto ocorreu depois de a OMS declarar, no último domingo (17/05), emergência de saúde pública de interesse internacional, ressaltando que o surto não configura uma pandemia (situação em que uma doença infecciosa ameaça muitas pessoas ao redor do mundo simultaneamente, como ocorreu com a Covid-19).

Uma outra vacina experimental contra a Bundibugyo também está em desenvolvimento, mas a previsão é que leve entre seis e nove meses para ficar pronta para testes.

Mapa do leste da República Democrática do Congo e de Uganda mostra áreas afetadas por um surto de Ebola. Regiões destacadas em vermelho indicam locais com casos registrados, concentrados na província de Ituri, incluindo Mongwalu, Rwampara, Nyakunde e a cidade vizinha de Bunia, identificada como o local do primeiro caso suspeito. Outras áreas menores afetadas aparecem ao redor de Butembo, Goma, perto da fronteira com Ruanda, e em uma região próxima a Kampala, em Uganda, onde casos foram confirmados em viajantes vindos da República Democrática do Congo. Um mapa menor destaca a localização da região no continente africano
BBC

A vacina que está sendo desenvolvida em Oxford usa a mesma tecnologia trabalhada pela equipe durante a pandemia de Covid-19.

Trata-se de uma tecnologia altamente adaptável, conhecida como ChAdOx1, que pode ser rapidamente ajustada para combater diferentes infecções.

Durante a pandemia, ela foi carregada com código genético do coronavírus. Desta vez, os cientistas utilizaram material genético da variante Bundibugyo do Ebola.

A tecnologia emprega um vírus de resfriado comum que normalmente infecta chimpanzés, mas que foi modificado geneticamente para se tornar seguro para humanos.

Os pesquisadores envolvidos no desenvolvimento da vacina usam esse vírus da gripe modificado para transportar e entregar às células informações genéticas importantes sobre o vírus Ebola Bundibugyo. Com isso, o organismo aprende a reconhecer e a combater a doença real.

A vacina não provoca infecção nem sintomas de Ebola, mas prepara o sistema imunológico para oferecer proteção.

A BBC apurou que os testes em animais já estão em andamento em Oxford.

Assim que a Universidade de Oxford disponibilizar o material em padrão farmacêutico, o Serum Institute da Índia deve iniciar a produção em larga escala da vacina contra o Ebola.

"Assim que entregarmos o material inicial, eles poderão produzir rapidamente e em grande escala", afirmou à BBC News a professora Teresa Lambe, diretora de imunologia de vacinas do Oxford Vaccine Group.

Segundo a OMS, a vacina poderá estar disponível para uso em testes clínicos dentro de dois a três meses.

De acordo com Lambe, do Oxford Vaccine Group, agir rapidamente é uma prioridade.

"As pessoas estão preocupadas com esse surto. Em geral, é preciso se preparar para o pior cenário possível. Esperamos que o rastreamento de contatos e quarentena sejam suficientes, mas não podemos desacelerar", afirmou.

Gráfico de bolhas intitulado “Variantes Cepas raras do vírus estão por trás do novo surto de Ebola”, no qual o tamanho dos círculos representa o número de casos confirmados. Um grande círculo roxo mostra a epidemia de Ebola na África Ocidental entre 2014 e 2016, com 28.715 casos, muito acima dos demais surtos, ao lado de um círculo menor referente ao surto de 2018–2020, com 3.470 casos. Grupos menores representam surtos das variantes Zaire, Sudão e Bundibugyo. A variante Sudão aparece com círculos de tamanho intermediário, enquanto a Bundibugyo inclui um destaque para o surto de 2026, com mais de 50 casos confirmados e mais de 600 suspeitos. Uma observação informa que o vírus ebola foi identificado pela primeira vez em 1976 e que os números de casos podem estar subestimados. Fonte: CDC, OMS
BBC

O atual surto de Ebola representa um desafio porque é causado por uma variante rara do vírus.

Existem seis espécies do vírus Ebola, mas apenas três provocam grandes surtos em humanos.

O vírus Bundibugyo causou apenas dois surtos anteriores — em Uganda, em 2007, e na República Democrática do Congo, em 2012 — e não era detectado havia mais de uma década.

Já existe uma vacina contra a variante Zaire, mais comum, mas ainda não há uma vacina comprovadamente eficaz para a Bundibugyo.

As vacinas contra o Ebola não seriam aplicadas em massa da mesma forma que ocorreu durante a pandemia de Covid-19.

Em vez disso, elas são usadas em uma estratégia conhecida como vacinação em anel, na qual apenas as pessoas com maior risco de infecção são imunizadas. Isso inclui contatos próximos de pacientes com Ebola e profissionais de saúde que tratam pessoas infectadas, que podem transmitir o vírus com facilidade.

A equipe de pesquisadores de Oxford já vinha trabalhando em vacinas semelhantes para a variante Sudão do vírus Ebola e para o vírus de Marburg.

A imagem mostra um prédio parcialmente aberto, com área interna sombreada e chão de terra na parte externa. Em primeiro plano, duas pessoas usam equipamentos completos de proteção, como aventais azuis, luvas, máscaras e viseiras transparentes. Uma delas gesticula com as mãos enquanto a outra a observa, sugerindo uma conversa ou coordenação de trabalho. Ao fundo, várias pessoas aparecem sentadas ou em pé sob a cobertura do prédio, próximas a motocicletas estacionadas e a uma parede com janela
Getty Images
Profissionais de saúde com equipamentos de proteção do lado de fora do Hospital Geral de Referência durante ações de combate ao surto de Ebola, em 21 de maio de 2026, em Mongbwalu, na República Democrática do Congo

O que é Ebola e quais são os sintomas?

Ebola é uma doença rara, mas mortal, causada por um vírus.

O vírus do Ebola normalmente infecta animais, geralmente morcegos frugívoros, mas surtos entre humanos às vezes podem começar quando as pessoas comem ou manuseiam animais infectados.

Os sintomas levam de dois a 21 dias para aparecer. Eles surgem repentinamente e começam como se fosse uma gripe, com febre, dor de cabeça e cansaço.

À medida que a doença progride, surgem vômitos e diarreia, podendo levar à falência de órgãos. Alguns pacientes, mas não todos, desenvolvem hemorragias internas e externas.

O vírus se espalha de uma pessoa para outra pelo contato com fluidos corporais infectados, como sangue ou vômito.

O que está sendo feito para conter o surto?

O governo da República Democrática do Congo enviou equipes de saúde para Bunia com equipamentos de proteção.

A OMS e a organização médica Médicos Sem Fronteiras (MSF) também estão presentes. Elas estão montando centros de tratamento e trabalhando em um plano de resposta.

Foi disponibilizado um número gratuito para a comunicação de sintomas.

Os residentes foram incentivados a tomar medidas como:

  • ligar imediatamente ao surgirem sintomas
  • evitar contato com corpos de pessoas que morreram com sintomas ou com animais mortos
  • não consumir carne crua, pois alimentos mal cozidos podem transmitir o vírus
  • praticar distanciamento social

*Reportagem adicional Emery Makumeno e Hafsa Khalil

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BBC
James Gallagher - Correspondente de Saúde e Ciência
postado em 22/05/2026 18:47 / atualizado em 22/05/2026 19:20
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