
A crise que resultou no indiciamento do ex-presidente de Cuba Raúl Castro, 94 anos, pelos Estados Unidos, na semana passada, é o pano de fundo para um livro-reportagem filmado para o streaming com o ator brasileiro Wagner Moura em um dos papéis centrais.
Publicado em 2011, Os últimos soldados da Guerra Fria, do também brasileiro Fernando Morais, revela uma trama emoldurada pela tensão diplomática e militar entre Washington e Havana que se seguiu ao fim da União Soviética.
A escalada teve um de seus pontos culminantes no dia 24 de fevereiro de 1996, quando um jato MIG-29 da Força Aérea Cubana, derrubou dois aviões bimotores Cessna 337 de um grupo anticastrista sobre o Estreito da Flórida no dia 24 de fevereiro de 1996.
Os quatro tripulantes das duas aeronaves (três americanos de origem cubana e um cubano com visto permanente de residência nos Estados Unidos) morreram, enquanto uma terceira conseguiu escapar.
Na época, Raúl Castro era ministro da Defesa de Cuba, sob a presidência de seu irmão Fidel Castro (1926-2016). Agora, 30 anos depois, Raúl e outros cinco cubanos foram indiciados em uma corte federal da Flórida por suspeita de homicídio e destruição das duas aeronaves.
Em entrevista por telefone à BBC News Brasil, o escritor Fernando Morais recorreu a sua condição de "autor de livro e consultor de filme" sobre o assunto para justificar o "espanto" com a medida contra Raúl Castro.
Prestes a completar 80 anos no próximo dia 22 de julho, dos quais 50 dedicados à cobertura jornalística de assuntos cubanos, o jornalista e escritor atribuiu a decisão de uma juíza federal da Flórida a "mais uma manifestação delirante do presidente [Donald] Trump".
13 anos para escrever
Nono livro de Morais, Os últimos soldados é também um ponto fora da curva em sua obra.
As reviravoltas na produção do relato, que quase não chegou às prateleiras por falta de recursos do autor para concluí-lo, assemelham-se às da própria narrativa.
Observador atento da realidade do país ao qual consagrou seu primeiro título, A ilha (1976), Morais virou sua atenção para o caso pela primeira vez em 1998. A bordo de um táxi, ele ouviu pelo rádio a notícia da prisão de cinco cubanos acusados de espionagem nos Estados Unidos.
O sinal verde para consultar arquivos cubanos do caso ocorreu apenas em 2005, quando Fernando Moraes estava às voltas com O mago, biografia do romancista Paulo Coelho.
O início efetivo do trabalho só ocorreria três anos depois, quando o jornalista teve tempo e recursos de sua editora, Companhia das Letras, para uma série de viagens a Cuba e Estados Unidos.
No meio da investigação, o trajeto São Paulo-Havana-Miami consumiu todo o dinheiro.
Os últimos soldados da Guerra Fria só veio a lume graças à compra do argumento para o cinema pelo produtor Rodrigo Teixeira, que também co-produziria Ainda estou aqui (2024).
A providencial venda de direitos para a tela grande custeou a conclusão do livro. A obra revela Morais no auge de seus poderes de narrador, capazes de conduzir o leitor por uma magistral reportagem histórica em ritmo de thriller.
Meses antes do lançamento, o autor recebeu a ligação de um repórter que acabara de ler a prova de divulgação do livro distribuída pela editora.
"Fernando, o seu livro é do...", disse-lhe o interlocutor, completando a frase com o célebre palavrão à brasileira.
A reação do escritor foi uma sonora gargalhada.
"Vou responder a você com as mesmas palavras que [o dramaturgo] Nelson Rodrigues disse a José Lino Grunewald [tradutor] ao encontrá-lo na rua e ouvir dele um comentário parecido com o seu sobre uma peça: 'O senhor escreva o que está dizendo, o senhor assine e o senhor publique'."
Em 2019, Wasp Network: rede de espiões, co-produção franco-belgo-hispano-brasileira estreou no Festival de Cinema de Veneza. O filme é dirigido pelo francês Olivier Assayas e tem os astros Wagner Moura, Gael García Bernal, Penélope Cruz e Ana de Armas no elenco.
No ano seguinte, o filme passou a fazer parte do catálogo da Netflix.
Com três obras adaptadas para o cinema (Olga, Chatô, o Rei do Brasil e Corações sujos), o escritor atuou como consultor histórico de Wasp network: rede de espionagem.
Derrubada de aviões
Apesar de marcante em Os últimos soldados, o abate dos aviões está longe de ocupar posição central no livro.
O episódio é narrado no oitavo dos 15 capítulos da obra, quando a trama de espionagem, ameaças e cerco de três vértices – o regime cubano, as administrações de quatro presidentes norte-americanos e o ecossistema anticastrista de direita da Flórida – está bem avançado.
O objetivo de Morais era contar a história de personagens aos quais o noticiário atual quase não faz referência: os agentes cubanos que inspiraram o título do livro, infiltrados pela inteligência do país nos grupos de oposição baseados nos Estados Unidos.
A narrativa começa por seguir os passos de dois oficiais cubanos, René Gonzalez e Juan Pablo Roque, que desertam em momentos distintos para os Estados Unidos em meio ao colapso econômico da ilha após o fim da União Soviética.
De tão prosaicas, as fugas não despertam suspeitas: enquanto Gonzalez rouba um avião da base aérea onde serve, Roque viaja de ônibus até as proximidades da base americana de Guantánamo e nada até os muros da instalação.
Na Flórida, os dois não têm dificuldade em aproveitar a formação como pilotos para integrar-se a grupos anticastristas que sobrevoam Cuba em desafio às autoridades da ilha.
As organizações também patrocinam ataques a turistas e hotéis e transportam drogas para os Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, Gonzalez e Roque tornam-se informantes do FBI, a polícia federal americana, à qual fornecem pistas sobre as atividades dos bandos da Flórida que contrariam as leis americanas.
Os policiais mantêm os desertores sob estrita vigilância, suspeitando de que sejam o que finalmente revelarão ser: espiões a serviço de Havana.
A Rede Vespa, da qual fazem parte os dois pilotos e outros 12 operadores em solo americano, acabará desbaratada pelas autoridades, e cinco de seus integrantes – incluindo Gonzalez – serão presos e condenados.
Em Cuba, para onde regressarão entre 2013 e 2014 por meio de uma troca de prisioneiros, os chamados Cinco Cubanos são cultuados como heróis.
A derrubada
Contariando a justiça americana, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), para os quais o abate deu-se fora do espaço aéreo territorial cubano, Morais sustenta a versão de Havana de que a derrubada ocorreu no interior desse perímetro.
Nenhuma das perícias e inquéritos sobre o caso conseguiu estabelecer com precisão a posição das aeronaves no momento em que foram atingidas pelos mísseis disparados pelo MIG-29.
Durante ao menos um ano antes do incidente, porém, o governo cubano havia endereçado múltiplos protestos por violação de espaço aéreo por aviões oriundos da Flórida junto às autoridades americanas.
Os órgãos de aviação civil dos Estados Unidos, por seu turno, tinham advertido o grupo Irmãos pelo Resgate, ao qual pertenciam os aparelhos alvejados, por atitudes "provocativas".
Na prática, o episódio de fevereiro de 1996 obrigou Washington a proibir definitivamente os voos dos grupos anticastristas sobre Cuba, atendendo, assim, à principal reivindicação do regime de Havana.
Morais afirma que cogitou pedir à CIDH a reabertura das averiguações do caso com base em seu livro, mas desistiu em razão do esgotamento de prazos legais.
"Não me surpreenderá se [os Estados Unidos] tentarem fazer alguma coisa semelhante ao que fizeram em Caracas. O que eu tenho segurança, pelo que conheço deles [os cubanos], é que o resultado não será semelhante", diz o escritor, aludindo à captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro por forças especiais americanas, em janeiro.
Raúl e Fidel
O escritor relembra que Os últimos soldados propiciou seu último encontro com os irmãos Castro, em Havana.
"Foi um mês antes do falecimento do comandante Fidel [ocorrido em 25 de novembro de 2016]", afirma.
De passagem pela capital cubana para o lançamento da edição cubana do livro, Morais foi à residência de Raúl, então presidente do país, para presenteá-lo com a obra.
"Ele [Raúl] atendeu uma chamada no telefone celular. Era o irmão mais velho [Fidel]. Disse-me: 'Está se queixando de que você não foi levar o livro para ele'."
O autor, que não procurara Fidel em razão das notícias sobre sua saúde precária, retornou ao hotel para apanhar um exemplar e levá-lo ao líder nonagenário, a quem encontrou lúcido, apesar da postura encurvada.
"Pode-se dizer que era um velhinho", recorda-se.
Em alguns minutos de visita, segundo Morais, Fidel disse-lhe que pretendia ler o livro, sobre o qual ouvira comentários positivos.
A visita seguinte do escritor a Cuba ocorreu dois meses depois, em companhia dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, para o funeral de Fidel, morto em 26 de novembro de 2016.
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