ELEIÇÕES 2026

Por que pesquisas eleitorais 'erram'?

A BBC News Brasil levou essa e outras perguntas a especialistas para discutir como as pesquisas são feitas, quais suas limitações e por que elas são importantes.

Em meados de agosto de 2022, logo após o início oficial da campanha eleitoral presidencial, as pesquisas de intenção de voto mostravam o então presidente Jair Bolsonaro (PL) significativamente atrás do rival Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um eventual segundo turno.

Na pesquisa da Quaest, por exemplo, 51% dos entrevistados disseram que votariam em Lula e 38%, em Bolsonaro. Na consulta do Datafolha, a distância foi ainda maior: 54% para Lula e 37% para Bolsonaro.

Nas urnas, pouco mais de dois meses depois, Lula recebeu 49% dos votos totais e o então presidente, 47%. Quando excluídos os brancos e nulos, considerando apenas os votos válidos, a diferença foi ainda mais apertada: 50,9% para o petista e 49,1% para Bolsonaro.

O que explica os cenários distintos? A BBC News Brasil levou essa e outras perguntas a especialistas para discutir como as pesquisas são feitas, quais suas limitações e por que elas são importantes.

A 'foto' do momento e o 'filme' da eleição

"Essa é uma questão interessante, porque eu acho que existe meio que uma desconexão entre aquilo que as pessoas esperam que as pesquisas respondam e o que elas realmente respondem", pondera o estatístico Raphael Nishimura.

As pesquisas não têm o objetivo de prever resultados, ele diz. Buscam capturar o que o eleitor está pensando no instante em que ele é entrevistado. Sob essa lógica, quando bem elaboradas, nem erram, nem acertam.

"Tudo meio que recai naquele jargão que muitas pessoas usam, de que pesquisa é um retrato do momento", diz Nishimura, que é diretor de amostragem do Survey Research Center, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos.

"Se você levar ao pé da letra, o que isso quer dizer é que a pesquisa não tem como papel ser um prognóstico do que vai acontecer na urna."

Entre o momento da pesquisa e a hora do voto, muita coisa pode acontecer: tem eleitor que pode mudar de ideia, os indecisos podem finalmente escolher seu candidato, e por aí vai.

E isso, de certa forma, se reflete durante a campanha na evolução das pesquisas bem feitas.

No caso da eleição de 2022, por exemplo, em levantamentos como o do Datafolha, a distância significativa entre Lula e Bolsonaro no segundo turno se manteve por semanas, até o primeiro turno.

Depois da primeira rodada de votação, em 2 de outubro, quando foi dada a largada do segundo turno, Bolsonaro passou a crescer nas intenções de voto, enquanto Lula começou a cair.

Na última pesquisa do instituto, na véspera da segunda votação, Lula tinha 49% das intenções, levando-se em consideração os votos totais, e o então presidente tinha 45%.

No caso de Lula, o resultado das urnas foi exatamente esse. No de Bolsonaro, que obteve 47% dos votos totais, estava dentro da margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Cada uma das pesquisas é um retrato do momento e, juntas, essas fotografias se conectam em um "filme" que conta a história da eleição, ilustra a diretora do Datafolha, Luciana Chong.

"As pesquisas que a gente está fazendo agora [para a eleição de 2026] são um retrato desse momento: as pessoas ainda não estão totalmente informadas sobre as eleições, não sabem exatamente quem serão os candidatos. Então, a pesquisa mede isso agora", ela ressalta.

Chong explica que cada vez mais pessoas têm deixado para definir o voto muito perto do dia da eleição. O Datafolha pergunta aos indecisos quando pretendem se decidir — uma questão bastante discutida em 2022.

"Tem uma parcela importante de pessoas que deixou para o sábado à noite, depois da divulgação do resultado da pesquisa", diz ela, referindo-se à última eleição presidencial.

Esse foi um dos fatores apontados por Chong logo após o resultado do primeiro turno em 2022 para explicar por que Bolsonaro obteve um percentual bem maior de votos do que as últimas pesquisas haviam apontado.

Em entrevista na época, ela afirmou acreditar ter havido um movimento de decisão de última hora que acabou favorecendo o então presidente, especialmente de eleitores de Ciro Gomes (então no PDT, hoje no PSDB) e Simone Tebet (MDB), indecisos e os que poderiam votar em branco e nulo.

A decisão de voto pode ser um processo complexo e cheio de nuances, algo que aparece no trabalho de pesquisadores como Mariana Borges, que estuda o comportamento eleitoral.

O caso que abre o livro que ela está escrevendo com base em sua tese de doutorado, com uma pesquisa de campo feita com eleitores no sertão da Bahia, conta a história de uma mulher que era beneficiária do Minha Casa Minha Vida e do Bolsa Família e dizia estar "rezando muito" para Lula ganhar, mas confessava que não votaria nele.

A aparente contradição, diz Borges, vem de um fenômeno que não chega a ser raro, o "voto da família".

"Ela era uma pessoa de 40 anos de idade, independente... Acho até que o pai tinha morrido, mas ela queria votar de acordo com o pai dela, que não votava no PT", conta a cientista política, que é professora do Departamento de Política e Relações Internacionais da Universidade de Southampton, no Reino Unido.

É um exemplo que ilustra a diversidade de perfis que existem entre os eleitores no Brasil, algo que as pesquisas tentam em parte captar quando levam em consideração, por exemplo, parâmetros como gênero, idade e escolaridade para determinar quem vai ser entrevistado.

Getty Images
Primeiro turno das eleições de 2026 acontece em 4 de outubro

Como as pesquisas eleitorais são feitas

Antes de chegar à consulta aos eleitores de fato, os institutos precisam definir quantos serão entrevistados, ou seja, o tamanho da amostra, usando a linguagem da estatística.

Essa conta é geralmente feita de trás para frente, explica Fernanda Fiel Peres, mestre e doutora em Farmacologia, com especialização em estatística aplicada. É o tamanho da margem de erro (dentre outras variáveis) que vai apontar quantas pessoas devem ser ouvidas.

Para uma margem de erro de 2%, por exemplo, é necessário entrevistar 2.401 pessoas, diz Peres. Já para uma margem de erro maior, de 3%, o número cai para 1.068. Ou seja, quanto maior a amostra, menor a margem de erro. Essa relação, contudo, não é linear.

"Uma pequena redução na margem de erro implica em um aumento considerável no tamanho da amostra", observa Peres, que trabalha há mais de 15 anos com pesquisa e análise de dados.

"Para uma margem de erro de 1%, por exemplo, já precisaríamos de uma amostra muito maior: 9.604 pessoas. A pesquisa, portanto, seria muito mais cara, e, em geral, deixaria de ser viável."

Outro fator que entra no cálculo do tamanho da amostra é o nível de confiança, que normalmente é de 95% nas pesquisas eleitorais conduzidas no Brasil. Isso significa, em termos simples, que, se a mesma pesquisa for repetida 100 vezes, em 95 ela trará resultados semelhantes ao encontrado dentro da margem de erro estabelecida.

Depois vem a fase em que se decide como serão selecionados os entrevistados. No Brasil, as pesquisas eleitorais geralmente usam amostragem por cotas, ou seja, definem quais grupos vão estar representados na amostra. Os parâmetros podem variar, mas contemplam geralmente gênero, faixa etária e grau de instrução. Algumas também incluem o perfil de renda.

Peres exemplifica: "Considere que 7,1% dos eleitores são do sexo feminino, com idades entre 35 e 44 anos e com escolaridade até o ensino médio. Se a pesquisa irá entrevistar 2.401 pessoas, 7,1% delas — 171 pessoas, arredondando para cima — devem pertencer a esse grupo. Essa será a cota para esse grupo".

Os dados que vão balizar o tamanho das cotas geralmente são retirados de bases de dados como a da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua ou do Censo, ambos realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Depois de definido tudo isso, é hora de ir para a rua — ou não. Isso porque as pesquisas podem ser feitas pessoalmente — e aí o entrevistador pode ou ir de casa em casa procurando os eleitores ou se posicionar em "pontos de fluxo" nas cidades e abordar as pessoas na rua — ou por telefone ou pela internet.

As limitações das pesquisas eleitorais

A escolha de como será feita a consulta pode fazer diferença na qualidade da pesquisa, pontua Raphael Nishimura.

As pesquisas feitas online, por exemplo, podem acabar tendo uma participação menor de eleitores mais pobres, que podem estar menos conectados do que outros grupos com rendimentos maiores. Essa imprecisão tem inclusive nome: erro de cobertura, explica o estatístico.

Outro tipo de erro possível é o de não resposta, quando o eleitor declina o pedido do entrevistador para participar da pesquisa. Se isso acontecer em determinada escala e com um perfil específico de eleitor, pode gerar um viés no resultado.

Também pode haver erro de mensuração, quando, por exemplo, o entrevistado não entende bem a pergunta e responde algo que não reflete sua opinião de fato ou responde algo que não corresponde à realidade.

"Por exemplo, a gente pergunta para a pessoa: 'Você vai votar na eleição?'. Ela fala que sim, mas [no dia] ela não vai votar", ilustra o estatístico Neale Ahmed El-Dash, fundador e diretor metodológico na PollingData, plataforma que agrega pesquisas de opinião pública e parceiro na elaboração do agregador de pesquisas da BBC News Brasil.

Costuma-se falar também do "eleitor envergonhado", que não é sincero nas respostas ao entrevistador — especialmente depois da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos em 2016 e na de Bolsonaro em 2018, quando esse fator foi apontado como um dos motivos por trás da diferença entre o que traziam as pesquisas e o resultado nas urnas. Nishimura acredita que essa seja uma questão menor, mas que também pode acontecer em alguns casos.

El-Dash pondera que todos esses erros são não amostrais, ou seja, não estão relacionados à forma como a amostra foi montada, e, por isso, muito mais difíceis de quantificar.

O erro amostral é aquele que costumamos ver divulgado junto com a pesquisa (geralmente dois pontos percentuais para cima e para baixo) e deriva do fato de que a entrevista é feita com um grupo de pessoas e não de toda a população de eleitores.

"Esse é o único erro de uma pesquisa eleitoral que a gente de fato consegue mensurar, prever de uma forma um pouquinho mais sistemática", ressalta El-Dash.

"Então, exigir que as pesquisas eleitorais contemplem o resultado da eleição somente levando em conta o erro amostral não é certo, porque você tem todos esses outros erros muito mais difíceis de mensurar."

Dentro do que é possível medir, contudo, muitos institutos e estatísticos estão em debate constante sobre quais as melhores metodologias para se realizar as pesquisas de opinião.

Há uma série de discussões acaloradas sobre a melhor forma de se construir uma amostra, por exemplo, ou de se fazer o ajuste estatístico após a coleta, a ponderação dos dados.

Essa costuma ser a fase final do processo, em que se atribuem pesos maiores ou menores para determinados grupos de eleitores para tentar corrigir eventuais desequilíbrios da amostra que tenham surgido durante a coleta, justamente por conta das limitações que as pesquisas eleitorais podem ter.

Reprodução/Datafolha
Cartão apresentado pelos entrevistadores do Instituto Datafolha no mais recente questionário para a pesquisa de intenção de voto para presidente de 2026

'Abrindo o capô' das pesquisas

Nem todas as pesquisas são feitas da mesma forma ou seguem um padrão único. Como entender então quais são confiáveis?

Nesse sentido, o estatístico Raphael Nishimura compartilha uma lista de atributos da metodologia das pesquisas que avalia que influenciam na sua qualidade.

Para ele, o critério mais importante a se considerar é a forma de coleta das opiniões. Quando se leva em conta as pesquisas feitas no Brasil, a presencial domiciliar, em sua visão, "tende a ter uma qualidade maior". Como os entrevistadores vão bater diretamente na porta das pessoas, nessa modalidade costuma haver um controle maior na seleção dos entrevistados.

Depois, vem a presencial em pontos de fluxo, em que os entrevistadores ainda fazem as entrevistas pessoalmente, em grandes pontos de circulação.

Por fim, as pesquisas feitas por telefone e pela internet. Nessas duas últimas, costuma ser maior o risco de a amostra acabar tendo uma proporção menor de alguns grupos de eleitores, que não costumem atender ligações de números desconhecidos, por exemplo, ou que tenham acesso intermitente à internet.

Outro fator a se considerar, ainda de acordo com o estatístico, é se a pesquisa utiliza cotas para compor sua amostra e/ou ponderação.

A maioria utiliza cotas, mas nem todas usam a ponderação para se tentar aproximar os resultados do universo da população estudada.

"Acho que pesquisas com cotas e com ponderação são o melhor dos mundos", diz Nishimura.

"Então, a pesquisa foi feita com cotas e teve ponderação? Ótimo. Não teve cotas, mas pelo menos teve uma ponderação? Acho que esse é o segundo melhor. Só teve cotas, mas não teve ponderação? Eu ficaria de olho, porque só as cotas também podem ter certos problemas."

Um último ponto destacado por ele são as variáveis que estão sendo levadas em conta para a elaboração das cotas e da ponderação — gênero, idade, escolaridade, região, renda, por exemplo.

"Não necessariamente quanto mais, melhor, mas, em geral, quanto mais, melhor. Quanto mais variáveis você controlar, você tem um controle estatístico da qualidade dos dados um pouco maior", opina Nishimura.

Todos esses detalhes podem ser encontrados na página das pesquisas registradas no portal do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Do debate na TV ao voto útil

Fazer boas pesquisas dá trabalho. A existência delas é importante por diversas razões, na visão dos pesquisadores e profissionais ouvidos pela reportagem.

Uma delas é de ordem prática: o desempenho nas pesquisas é um dos critérios para definir os candidatos que participam dos debates na TV e no rádio.

"A gente tem 30 partidos hoje em dia ativos no país. Então, é importante ter esse filtro. Talvez ajude um pouquinho a tirar o ruído e focar ali nos candidatos mais competitivos", comenta Neale Ahmed El-Dash.

Ele acrescenta que as pesquisas também são importantes para os partidos e candidatos, para entender o que o eleitor está pensando e como responde, por exemplo, às suas propostas.

Elas também ensejam discussões que acabam fazendo circular um volume maior de informações sobre os candidatos, o que pode ser útil aos eleitores, e também lhes dá oportunidade de "se for o caso, exercer o voto útil".

Isso ocorre quando o eleitor decide votar de forma estratégica ou pragmática em um candidato que não seria necessariamente sua primeira opção, e escolhem outro candidato que considerem mais competitivo para impedir que um terceiro candidato ao qual se opõem seja eleito, por exemplo.

O estatístico pondera, contudo, que isso talvez não seja tão relevante em países como o Brasil, onde há segundo turno, já que o eleitor em teoria pode votar no primeiro turno no seu favorito sabendo que provavelmente ainda teria uma nova votação para tentar votar contra o candidato que rejeita.

Tânia Rêgo/Agência Brasil
Comportamento eleitoral é complexo e cheio de nuances

O que pesa na hora da decisão do voto

Nesse sentido, a cientista política Mariana Borges avalia que as pesquisas podem ser um termômetro do que passa pela cabeça do eleitorado, mas têm impacto limitado na decisão do voto de fato.

Para os eleitores indecisos — que, no cenário de uma divisão calcificada de parte do eleitorado entre lulistas e bolsonaristas, se tornam ainda mais importantes para fazer o resultado pender para um lado ou outro —, "a movimentação da campanha influencia muito", ela diz.

Essa influência se dá pela criação de uma imagem de força que as campanhas procuram criar para passar a sensação de que seu candidato é hegemônico.

As estratégias são várias: o endosso de políticos locais, por exemplo, que vão fazer campanha corpo a corpo para o candidato em suas bases; a presença das cores e símbolos do partido pelas ruas das cidades; ou a realização de eventos que reúnam multidões, que serão replicadas em fotos e vídeos nas redes sociais, reforçando essa ideia de que o candidato em questão é forte e que em torno dele há uma "onda".

"O que eu vivenciei de acompanhar as campanhas [eleitorais] no trabalho etnográfico de perto é que a coisa mais importante era você criar essa imagem de força eleitoral", diz Borges, que é também codiretora do Centro de Etnografia Política (CPE) da Universidade de Southampton.

O retrovisor de 2022 e perspectivas para 2026

Olhando o "filme" construído pelas pesquisas de 2022, o cientista político George Avelino avalia que o crescimento de Bolsonaro no segundo turno pode ter sido influenciado, dentre outros fatores, pela chamada vantagem do incumbente, da qual os candidatos à reeleição gozam por "estarem na mídia o tempo todo e terem recurso pra gastar".

Nesse sentido, Lula agora teria a mesma vantagem em 2026, acrescenta o professor da Fundação Getúlio Vargas e coordenador do Centro de Política e Economia do Setor Público (Cepesp) da FGV.

Ele pontua que, assim como na eleição anterior, esta também deve ser apertada, diante das rejeições altas dos dois pré-candidatos que estão à frente nas pesquisas, Lula e Flávio Bolsonaro (PL).

Nesse cenário, o voto dos indecisos continua sendo considerado de extrema importância. Observar como esse grupo vai evoluir e como se comportam as tendências de alta ou de queda dos candidatos, diz Avelino, podem ajudar na leitura das fotografias que as pesquisas vão trazer nos próximos meses.

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