
Vestindo a camisa amarela da seleção colombiana e protegido por um vidro blindado, Abelardo de la Espriella, conhecido como "El Tigre", comemorou no domingo (31/5) ter sido o candidato mais votado no primeiro turno das eleições presidenciais da Colômbia. Ele obteve mais de 10 milhões de votos.
O advogado e empresário abalou o cenário político da Colômbia.
Nascido em Bogotá em 1978, De la Espriella recebeu 43% dos votos e disputará a presidência no segundo turno contra o líder de esquerda Iván Cepeda, que defende a continuidade das políticas do atual presidente colombiano, Gustavo Petro.
De la Espriella será o nome da direita na disputa eleitoral do país sul-americano. Adversários o classificam como representante da extrema direita, enquanto aliados afirmam que ele encarna uma "extrema coerência".
O candidato presidencial promete agir com "mão de ferro" contra o crime, o narcotráfico, a corrupção e o que chama de ilegalidade, temas que considera os principais problemas da Colômbia.
Segundo sua campanha, o candidato recebe ameaças de morte frequentes, situação relatada também por outros políticos colombianos. Por isso, ele costuma aparecer em eventos públicos acompanhado de ao menos 35 seguranças, além de forte aparato policial.
Sem trajetória política anterior, ele se apresenta como um "outsider" (alguém de fora da política tradicional), empresário bem-sucedido e independente.
Ele diz admirar os governos de Nayib Bukele, em El Salvador, Javier Milei, na Argentina, e Donald Trump, nos Estados Unidos.
De la Espriella afirma que não pretende governar "com os de sempre", expressão usada na Colômbia para se referir à elite política que esteve no poder até a chegada de Gustavo Petro à presidência, em 2022.
Com o seu movimento, Defensores da Pátria, ele tenta atrair eleitores descontentes que atribuem à classe política tradicional muitos dos problemas do país.
No dia 21 de junho, os colombianos decidirão no segundo turno se ele chegará à Presidência em uma disputa contra Cepeda, que analistas dizem ocupar o extremo oposto de seu espectro ideológico.
Empresário precoce
O senador Enrique Gómez Martínez é um dos principais articuladores da campanha de De la Espriella. Integrante do Movimento Salvação Nacional, partido que se aliou ao candidato, ele ajudou o partido a conquistar quatro cadeiras no Congresso nas eleições legislativas realizadas em março.
Segundo Gómez Martínez, por trás da imagem de homem duro e provocador cultivada por De la Espriella, existe alguém "jovial, paciente, pontual, enérgico e que dorme pouco".
Gómez Martínez afirma que essas características já apareciam quando o hoje candidato começava a se destacar no mundo dos negócios, muito antes de ganhar projeção nacional como advogado de figuras controversas, entre elas Álex Saab, apontado como operador financeiro do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, capturado por forças militares americanas e levado para os EUA, onde responde a acusações criminais.
O jornalista colombiano Gerardo Reyes passou a investigar De la Espriella enquanto escrevia uma biografia sobre Saab.
"O biógrafo de De la Espriella, o jornalista Ángel Becassino, tenta retratá-lo como uma criança prodígio. Ele decorava os discursos de Luis Carlos Galán, que era admirado por seu pai, e os recitava em cima de um banquinho", conta Reyes.
Galán foi candidato à Presidência e acabou assassinado em 1989 por matadores ligados ao narcotráfico com a participação de agentes do Estado.
Anos depois, De la Espriella assumiria a defesa de Alberto Santofimio Botero, ex-ministro da Justiça condenado em 2007 por envolvimento no assassinato de Galán.
Ao relembrar a infância do candidato, Reyes conta que ele chegou a vender mantimentos em um bairro de Montería, cidade do norte da Colômbia onde foi criado.
Mais tarde, se formou em direito na Universidade Sergio Arboleda, em Bogotá.
"Ele também fazia negócios naquela época. Vendia roupas, uísque e esmeraldas nos EUA", afirma Reyes.
Hoje, De la Espriella diz controlar dezenas de empresas espalhadas por diferentes áreas, como mercado imobiliário, comércio de alimentos, bebidas, vestuário, pecuária e o escritório De la Espriella Lawyers.
Segundo Reyes, a campanha é financiada com recursos dessas empresas e por meio de empréstimos.
O advogado midiático
Além de Saab, de quem afirma ter se afastado em 2021, De la Espriella trabalhou em casos envolvendo artistas, vítimas de violência e desastres ambientais, além de pessoas associadas ao paramilitarismo.
Esse último ponto gerou críticas de partes da opinião pública, embora a sua equipe sustente que isso faz parte do trabalho de qualquer advogado criminalista e do direito de todo acusado à defesa.
"Ele se aproxima do universo paramilitar por meio de um antropólogo de Montería que ensinava geopolítica, boas maneiras e história a Carlos Castaño, líder das Autodefesas Unidas da Colômbia", afirma Reyes.
De la Espriella também atuou na defesa de David Murcia Guzmán, fundador da empresa DMG, que sofreu intervenção estatal após um escândalo envolvendo captação ilegal de dinheiro.
Além desses casos, o advogado representou comunidades afetadas pelos impactos ambientais da mina de níquel Cerro Matoso, vítimas de violência de gênero e a ex-congressista de esquerda Piedad Córdoba, acusada na época de enriquecimento ilícito.
A bandeira da segurança
De la Espriella anunciou sua intenção de disputar a presidência em julho de 2025, um mês depois de o pré-candidato Miguel Uribe Turbay ter sido baleado em público, em Bogotá.
Naquele momento, o empresário já havia construído uma presença prolífica nas redes sociais.
"Ele entendeu muito antes da campanha o momento digital do país. Com muitos vídeos e diferentes contas, conseguiu gerar debate antes mesmo de lançar a candidatura", analisa a estrategista política Catalina Suárez em entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.
Um dos temas centrais dessa conversa foi a segurança.
Após quatro anos do governo Petro e de sua contestada política de "paz total", a Colômbia viu grupos armados ampliarem a presença tanto em número quanto em território.
Além da tragédia envolvendo Uribe Turbay, que morreu dois meses após o atentado, o país também enfrenta uma crise de segurança ligada ao narcotráfico e a outras economias ilícitas.
Embora vários analistas apontem que a deterioração da segurança não seja consequência apenas da política de "paz total", a mensagem defendida por De la Espriella, de que ela é em grande parte responsável pela situação, encontra eco entre parte do eleitorado.
"Ele vai acabar com toda a criminalidade. Dá para perceber que é quem vai tirar este país do buraco", disse à reportagem uma apoiadora de classe trabalhadora, que preferiu não se identificar.
"Ninguém levantou a bandeira da segurança como De la Espriella. O apelido de El Tigre virou um símbolo para os descontentes. Com o colete, o púlpito blindado e seu esquema de segurança, ele transmite a ideia de que não se intimida. Com esse tema, criou uma forte polarização", afirma Suárez.
De la Espriella promete desmontar a política de paz de Petro e é um crítico contundente da Jurisdição Especial para a Paz (JEP), órgão de justiça transicional e reparadora criado no âmbito do acordo de paz firmado entre o governo e a guerrilha das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), em 2016.
Ele já chamou a esquerda de "inimigos da república".
Assim como Bukele, em El Salvador, De la Espriella afirma que pretende construir megapresídios, além de planejar "eliminar" narcotraficantes, dissidências guerrilheiras e outros grupos armados.
Anunciou ainda que quer pulverizar plantações de coca, bombardear acampamentos "narcoterroristas" e derrubar qualquer avião ou embarcação carregando drogas que deixe a Colômbia.
Segundo ele, para isso pedirá apoio aos EUA, à Europa e a Israel.
De la Espriella combina a imagem de homem forte com a defesa da família tradicional e do cristianismo, após ter se convertido à fé religiosa depois da perda de um ente querido, há seis anos.
Sua esposa, Ana Lucía Pineda, formada em administração e gestão de empresas, costuma acompanhá-lo em atos públicos. O casal tem quatro filhos.
De la Espriella também promete melhorar o sistema de saúde, agir com rigor contra a corrupção e estimular o crescimento econômico por meio da exploração de petróleo, gás e mineração, além de defender redução de impostos, ajustes fiscais e cortes severos nos gastos do Estado.
Para isso, afirmou que usará "a motosserra", assim como Milei na Argentina.
Discurso transgressor (e controverso)
De la Espriella afirma rejeitar o politicamente correto. Isso se encaixa, de certa forma, no discurso transgressor com que se apresenta ao eleitorado.
"Com essa foto ganhei vários votos bem bacanas do eleitorado feminino", disse De la Espriella em entrevista ao canal de streaming Piso8, no início de maio.
Em seguida, pediu aos entrevistadores, entre eles uma mulher, que dessem zoom na imagem, após comentários feitos durante o programa sobre as partes íntimas do candidato e um suposto implante de silicone.
Sua postura foi criticada como machista por adversários políticos e usuários das redes sociais.
"Se uma mulher se sentiu desconfortável, um cavalheiro tem a obrigação moral de pedir desculpas (...) Tudo aconteceu em um contexto de humor", justificou-se o advogado.
Em outra entrevista, De la Espriella pareceu imitar a voz do político Juan Daniel Oviedo, que é abertamente gay, acrescentando que havia "coisas" nele "de que não gostava" e que "não tinham solução".
O comentário foi interpretado como homofóbico por políticos e outras vozes da esfera pública. O advogado afirmou que se tratava de uma piada tirada de contexto.
Como "outsider" e "empresário de sucesso", como se define, De la Espriella afirma ter independência em relação "aos de sempre" para tomar as medidas de que o país precisa.
Rodrigo Lara Restrepo, político e filho do ministro da Justiça Rodrigo Lara Bonilla, assassinado durante o auge do cartel de Medellín, declarou apoio público ao advogado justamente por esse motivo.
"O que me entusiasma é a sua independência e liberdade em relação à política tradicional e à elite empresarial. Isso é algo único na história da Colômbia", afirmou à BBC News Mundo.
Apesar disso, nas últimas semanas o candidato recebeu apoio de ex-integrantes de governos como os dos ex-presidentes Álvaro Uribe e Juan Manuel Santos.
Seu candidato a vice-presidente, José Manuel Restrepo, foi ministro da Fazenda e do Comércio no governo do ex-presidente Iván Duque. Ele também pertence a uma linhagem política que inclui Francisco de Paula Santander, um dos líderes da independência colombiana.
Já a família Char, poderoso clã político e econômico de Barranquilla, anunciou no início de maio apoio ao candidato.
Cinco analistas de diferentes universidades e centros de estudos ouvidos pela BBC News Mundo consideram que esses apoios vêm justamente da classe política tradicional que o candidato afirma rejeitar.
Em resumo, avaliam, "é difícil governar a Colômbia sem esse tipo de apoio e sem políticos experientes no funcionamento do Estado".
'Extrema coerência'
O discurso de linha dura de De la Espriella, somado a seu estilo confrontador, anti-elite e conservador, fez com que parte da imprensa, adversários políticos e analistas o classificassem como "ultradireitista" e representante da extrema direita.
É um rótulo que a sua campanha ignora.
"Nós driblamos a categorização de extremo falando em extrema coerência", explica Gómez Martínez, aliado do candidato.
"Não acreditamos que isso seja uma questão ideológica, mas de princípios e valores fundadores. Achamos que o povo colombiano não está debatendo ideologias. Quem faz isso são as elites, porque isso permite criar rótulos", acrescenta o senador recém-eleito, neto do ex-presidente Laureano Gómez e sobrinho de Álvaro Gómez Hurtado, influente político assassinado em 1995.
Os princípios e valores fundadores mencionados por Gómez Martínez giram em torno dos desafios do Estado colombiano nas áreas de segurança, produtividade, Justiça, corrupção, educação e valores sociais.
Questionado sobre quais seriam esses valores, Gómez mencionou a "moral cristã, judaico-cristã, que é a que constrói esta sociedade".
Segundo pesquisas recentes do Departamento Administrativo Nacional de Estatística, a população que se identifica como católica representa cerca de 80% dos 52 milhões de colombianos. Outros grupos cristãos somam aproximadamente 10%.
Patricia Muñoz Yi, cientista política da Universidade Pontifícia Javeriana, afirma que não vê De la Espriella como "tão ultradireitista", mas reconhece que ele "tentou ser mais radical do que a direita representada pelo Centro Democrático".
O Centro Democrático é o partido fundado pelo ex-presidente Álvaro Uribe e que, neste primeiro turno, foi representado pela senadora Paloma Valencia, que terminou em terceiro lugar, fora do segundo turno e abaixo do desempenho apontado pelas pesquisas.
Laura Bonilla, analista política e subdiretora da Fundação Pares, considera que o movimento do advogado representa uma "direita populista".
Independentemente dos rótulos, a disputa final pela próxima presidência está definida entre as alternativas vistas por muitos colombianos como as mais radicais: De la Espriella contra Cepeda.
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