PIX

Quem criou o Pix? Como nasceu o sistema de pagamentos que está na mira do governo Trump

O Pix foi desenvolvido por técnicos do Banco Central ao longo de 31 meses — e se popularizou rapidamente em todo o país.

Pix foi criado por técnicos do Banco Central brasileiro -  (crédito: Getty Images)
Pix foi criado por técnicos do Banco Central brasileiro - (crédito: Getty Images)

Os novos ataques do governo dos Estados Unidos contra o sistema de pagamentos Pix nesta semana reacendeu no Brasil um debate sobre quando e por quem foi criada a tecnologia.

Na segunda-feira, o governo americano concluiu uma grande investigação comercial iniciada contra o Brasil em julho do ano passado. O relatório tinha o Pix como um de seus alvos.

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"O Brasil tem prejudicado injustamente as empresas americanas que atuam em serviços concorrentes de pagamento eletrônico, inclusive por meio de políticas que favorecem seu campeão nacional, o Pix", afirma o documento.

No dia seguinte, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apareceu com um cartaz durante um evento em Goiás que dizia: "O Pix é do Brasil".

"Viram que eu entrei aqui com essa faixa: 'O Pix é do Brasil'. É porque ontem, o presidente americano, numa atitude intempestiva — porque nós estávamos negociando depois da minha visita ao presidente [Donald] Trump — de forma intempestiva, anunciou um aumento de taxação das coisas brasileiras para 25%, com base numa mentira", disse Lula, que é pré-candidato na eleição presidencial de outubro.

"Eu falei para ele: ô, Trump, ô cara, ao invés de ter medo do Pix, coloca o Pix para funcionar nos EUA. Faz um Pix para nós."

Um dia depois, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) exibiu em um evento em Minas Gerais um cartaz que dizia: "O Pix é do Brasil e do Bolsonaro".

Em seu discurso, ele disse: "É mentira que o Pix está ameaçado. Não tem absolutamente nada a ver o meio de pagamento com isso tudo. O Pix é brasileiro, foi feito pelo [ex] presidente [Jair] Bolsonaro. O Pix não é taxado porque o presidente Bolsonaro assim determinou que não fosse, é algo que revolucionou na segurança, então isso não está em discussão."

Afinal, como foi criado o Pix?

Como nasceu o Pix?

O Pix é um sistema de pagamento instantâneo criado por técnicos do Banco Central, que permite transferir dinheiro entre contas em segundos, a qualquer hora e dia. É conhecido por ser rápido e seguro e pode ser usado a partir de contas correntes, poupança ou pré-pagas.

O sistema se popularizou no Brasil e possui números impressionantes. Segundo o Banco Central, mais de 170 milhões de pessoas físicas — o que equivale a 80% da população brasileira — já fizeram uma transferência por Pix. Até outubro do ano passado, mais de R$ 3 trilhões haviam sido movimentados por Pix.

Só em janeiro deste ano, foram realizadas mais de 7 bilhões de transações. No dia 12 de dezembro de 2025 o sistema registrou seu recorde: foram 313 milhões de transações em um mesmo dia.

O Pix foi lançado em novembro de 2020 — durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Banco Central
Getty Images
Pix foi criado por técnicos do Banco Central brasileiro

Segundo um relatório de 2022 do Banco Central sobre o Pix, a primeira manifestação sobre "soluções que permitam, a baixo custo, pagamentos de varejo em tempo real e ininterruptos" aconteceu em 2014, durante o governo de Dilma Rousseff, em um relatório Relatório de Vigilância do Sistema de Pagamentos Brasileiro.

Mas o Pix só começou a ser desenvolvido pelos técnicos do Banco Central em maio de 2018 — ainda no governo de Michel Temer. Entre a criação de um grupo de trabalho específico e o lançamento do sistema, se passaram cerca de 31 meses.

A portaria 97.909 de maio de 2018 do Banco Central instituiu um grupo de trabalho com objetivo de "contribuir para a construção de um ecossistema de pagamentos instantâneos competitivo, eficiente, seguro e inclusivo".

O nome Pix ainda não era usado nessa ocasião. Mas algumas bases do sistema já estavam definidas nessa portaria.

"A infraestrutura centralizada de liquidação será operada pelo Banco Central do Brasil e estará disponível 24 horas por dia, sete dias por semana e em todos os dias do ano. As transações serão liquidadas uma a uma, no momento em que a ordem de liquidação for aceita pela infraestrutura", afirma a portaria.

O grupo de trabalho para pagamentos instantâneos (GT-PI) de maio de 2018 foi, segundo o Banco Central, "a primeira etapa para o desenvolvimento dos pagamentos instantâneos no Brasil". Esse grupo esteve aberto a qualquer parte interessada no tema, e recebeu contribuições de mais de 130 participantes.

Em dezembro de 2018, o último mês do governo Temer, o Banco Central divulgou o comunicado 32.927 no qual estabeleceu requisitos fundamentais do Pix que foram aprovados pela diretoria colegiada da instituição. Nesse comunicado, o BC se posicionou oficialmente como líder do processo de desenvolvimento e implementação do Pix.

A partir de outubro de 2019, já no governo Bolsonaro, a infraestrutura tecnológica começou a ser desenvolvida.

A marca Pix foi lançada em fevereiro de 2020. Segundo o Banco Centrarl, a marca "é baseada em tecnologia, transação e pixel, e representa a transposição dos limites do sistema financeiro, a comunicação entre os agentes de mercado e a solidez do pixel".

Um ano após o começo do desenvolvimento da infraestrutura tecnológica, em outubro de 2020, foi iniciado o cadastramento de chaves por usuários iniciais. Em 3 de novembro, o sistema começou a funcionar de forma restrita — e em 16 de novembro ele passou a operar de forma plena.

Em outubro de 2020, um mês antes do lançamento oficial do sistema, o então presidente Jair Bolsonaro manifestou desconhecer o meio de pagamento quando foi parabenizado por um apoiador na saída do Palácio da Alvorada.

Na ocasião, Bolsonaro se confundiu e achou que se tratava de algo relacionado à desburocratização na aviação civil. Ao ouvir a explicação do apoiador de que o Pix era um novo meio de pagamento criado pelo Banco Central, respondeu: "Não tomei conhecimento, vou conversar essa semana com o [então presidente do BC] Roberto Campos".

Impacto

No Brasil, a forma como o Pix foi estruturado beneficiou empresas nacionais, especialmente bancos digitais e fintechs. "Alavancando o modelo do Pix", elas desenvolveram inovação e cresceram, expandindo-se inclusive para outros mercados.

Isso acabou fazendo do país uma referência internacional, inspirando outros países, como a Colômbia.

"O Brasil é bem conhecido hoje por seus 'neobancos' [bancos digitais] e pelo seu ecossistema doméstico de inovação financeira", disse a pesquisadora Polina Kempinsky à BBC News Brasil.

O Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman elogiou o Pix por ser quase instantâneo e por ter custos de transação baixos e sugeriu que o Brasil pode ter inventado o futuro do dinheiro com esse sistema.

"Outras nações podem aprender com o sucesso do Brasil no desenvolvimento de um sistema de pagamento digital", escreveu Krugman.

Celular com pix e mesa cheia de reais
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Pix foi alvo de investigação do governo americano

E disse que o sistema brasileiro de pagamentos está "conseguindo de fato o que os defensores de criptomoedas alegaram, falsamente, ser capaz de se alcançar por meio do blockchain — baixos custos de transação e inclusão financeira."

"Compare os 93% de brasileiros que usam o Pix com os 2%, isso mesmo, 2% de americanos que usaram criptomoedas para comprar algo ou fazer um pagamento em 2024", disse o economista em 2025.

"Ah, e usar o Pix não cria incentivo para sequestrar pessoas e torturá-las até que entreguem suas chaves de criptografia. Então, teremos um sistema semelhante ao Pix nos Estados Unidos? Não. Ou pelo menos não por muito tempo."

Especialistas também disseram à BBC News Brasil que o Pix incomodou algumas das big techs americanas.

"Estamos falando aqui de uma competição tecnológica, onde os EUA visam tirar qualquer tipo de tecnologia que possa oferecer algum tipo de inovação e que não esteja sendo gerida dentro do próprio país ou que não esteja sob controle dos EUA", diz Bruna Martins dos Santos, gerente de políticas e advocacy da Witness, organização internacional sem fins lucrativos focada em tecnologia e direitos humanos, em entrevista em julho de 2025.

O que os EUA dizem sobre o Pix

Na conclusão apresentada esta semana da investigação com base na chamada Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 — um instrumento legal que permite a Washington apurar práticas estrangeiras consideradas injustas ou discriminatórias contra empresas e produtos americanos — o governo dos EUA acusa o Pix de prejudicar "injustamente as empresas americanas".

A investigação diz que o Banco Central brasileiro exerce papel duplo — "como regulador e proprietário/operador" do Pix — criando um "conflito de interesses, na ausência de salvaguardas processuais adequadas".

"O banco tem atuado como regulador para desfavorecer provedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA e privilegiar o Pix. Por exemplo, o Banco Central exige o uso do Pix por instituições financeiras com mais de 500 mil contas e requer que o Pix seja exibido na tela principal do aplicativo das instituições participantes com destaque igual ou superior a qualquer outra funcionalidade de pagamento ou transferência."

Além disso, há críticas pelo fato de o Banco Central exigir que o Pix seja ofertado sem taxas aos clientes. Segundo a conclusão da investigação, as autoridades brasileiras obrigam empresas americanas a promover o competidor brasileiro (Pix) sem compensações às instituições americanas.

"Os atos, políticas e práticas do Brasil relacionados ao tratamento preferencial dado ao Pix são injustos e discriminatórios. É injusto exigir que os concorrentes ofereçam vantagens ao Pix, como disponibilidade, visibilidade e limites de taxas, e o Brasil discrimina os fornecedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA ao conceder essas vantagens apenas a seu campeão nacional do Brasil."

Como resultado da investigação, que inclui outras críticas a práticas comerciais do Brasil, os EUA propõem tarifas de 25% a produtos brasileiros. Essas propostas ainda serão negociadas entre os governos até o dia 15 de julho.

A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) defendeu o Pix das críticas do governo americano. Em nota, a entidade disse que as conclusões da investigação foram baseadas em "informações incompletas" sobre os objetivos e o funcionamento do sistema.

"O Pix é uma infraestrutura de pagamento, e não um produto comercial, que favorece a competição e o bom funcionamento do sistema de pagamentos", disse a Febraban.

A entidade diz que o Pix contribui para a inclusão financeira ao reduzir custos e ampliar o acesso aos meios digitais de pagamento.

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BBC
BBC Geral
postado em 04/06/2026 08:32 / atualizado em 04/06/2026 09:02
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