
"Simplesmente, o maior evento que a humanidade já viu."
Foi assim que o presidente da Fifa, Gianni Infantino, descreveu a Copa do Mundo da Fifa de Futebol Masculino que começa nesta quinta-feira (11/6) nos Estados Unidos, México e Canadá.
O dirigente máximo da organização descreveu este primeiro Mundial disputado em três países, com 48 seleções e 104 partidas, como a edição mais inclusiva, acolhedora e unificadora do torneio já promovida até hoje.
Mas muitas outras pessoas usariam adjetivos diferentes.
Esta poderá ser, por exemplo, a edição mais politizada, a mais cara, possivelmente a mais quente ou a mais poluidora. E, sem dúvida, a mais lucrativa para a Fifa.
Seja qual for o ponto de vista, o que parece certo é que, além do espetáculo dentro de campo, esta Copa do Mundo gigantesca poderá se tornar uma das mais controversas da história.
Desde a polêmica sobre os custos para os torcedores e os impactos da geopolítica e das políticas migratórias até questões de segurança, condições meteorológicas extremas, sustentabilidade e o papel do presidente americano, Donald Trump, o megatorneio vem causando inquietação e entusiasmo na mesma medida.
Mas quais sãos os maiores problemas? Como chegamos até aqui? E o que está em jogo, além do troféu de campeão?
Enquanto todos os olhares do mundo do futebol se voltam nesta quinta-feira (11/6) para a Cidade do México, frente ao jogo inaugural da Copa, os países anfitriões oferecem uma imagem clara do que irá tornar as próximas semanas tão fascinantes e, ao mesmo tempo, tão desafiadoras.
O lendário Estádio Azteca, marco do futebol mundial, faz história como o primeiro a receber a abertura de três Mundiais diferentes.
As expectativas são imensas. Mas, da mesma forma que no seu vizinho do norte — os Estados Unidos, que receberão cerca de 75% das partidas —, o alto preço dos ingressos causa indignação.
O México também tem preocupações com a segurança, já que o país vem sofrendo muito com a violência dos grandes cartéis.
Na capital mexicana, manifestantes derrubaram estátuas de jogadores relacionados à Copa do Mundo. E grupos de professores, exigindo melhores salários, ameaçam prejudicar as partidas se suas demandas não forem atendidas.
Já em Tijuana, no oeste do país, a presença da seleção iraniana é o maior exemplo das complexas tensões políticas que atingem a competição.
A BBC detalha abaixo os principais pontos que fazem deste Mundial um dos mais controversos da história.
1. Estados Unidos e Irã
Além da sua enorme magnitude, a Copa do Mundo de 2026 não tem precedentes em vários outros aspectos.
Nunca antes na história das Copas, por exemplo, um país anfitrião esteve em guerra com uma nação participante.
No mês passado, a Fifa confirmou a transferência da base de operações da seleção iraniana dos Estados Unidos para o México. Esta é mais uma consequência da campanha militar iniciada em fevereiro, quando os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã, desencadeando represálias em todo o Oriente Médio.
Apesar do cessar-fogo estabelecido no início de abril, os ataques entre as partes envolvidas permanecem até hoje.
Nos últimos meses, a participação do Irã na Copa do Mundo esteve cercada de incertezas.
Trump chegou a alertar que não seria "apropriada" a participação da equipe, "pela sua própria vida e segurança".
Seu enviado especial à região chegou até a sugerir a substituição do Irã pela Itália, tetracampeã do mundo, que não conseguiu se classificar para o Mundial.
Agora, aparentemente, o Irã irá participar da sua quarta Copa consecutiva, mesmo que o país tenha acusado os Estados Unidos de negar vistos de entrada para alguns de seus dirigentes e membros da comissão técnica.
Um funcionário do governo afirmou que os jogadores foram orientados a entrar e sair dos Estados Unidos no mesmo dia de cada um dos três jogos da fase de grupos.
Na terça-feira (9/6), a Federação Iraniana de Futebol anunciou que a designação de ingressos para seus torcedores na fase de grupos foi revogada. Para a entidade, a decisão "levanta sérias questões sobre a interferência de considerações não esportivas e políticas na organização do maior evento de futebol do mundo".
A Fifa declarou estar trabalhando para "maximizar as oportunidades para que os torcedores iranianos assistam às partidas".
Mas, considerando que, aparentemente, será proibido exibir a bandeira do Irã anterior à Revolução Islâmica nas sedes do torneio, os jogos da seleção iraniana serão carregados de tensões políticas — especialmente os dois primeiros, que serão disputados em Los Angeles, onde reside uma numerosa comunidade iraniana.
2. Restrições de entrada nos EUA
Já em 2017, durante o primeiro mandato de Donald Trump, Infantino havia indicado que a proibição de entrada de cidadãos de vários países de maioria muçulmana nos Estados Unidos seria incompatível com o regulamento da Copa e poderia frustrar as aspirações do país de receber a edição de 2026.
"Evidentemente, em relação às competições da Fifa, qualquer equipe que se classificar para o Mundial precisa ter acesso ao país, incluindo seus torcedores e dirigentes", alertou Infantino. "Do contrário, não há Mundial."
Mas as políticas migratórias aplicadas por Trump durante seu segundo mandato levarão os torcedores de quatro países participantes a enfrentar proibições totais ou parciais de viagem: Irã, Haiti, Senegal e Costa do Marfim.
A Casa Branca credita a tomada desta medida à necessidade de administrar ameaças de segurança.
Uma análise realizada pela BBC revelou que os torcedores de mais de 25% dos 48 países participantes da Copa do Mundo enfrentam proibições de viagem, restrições mais rigorosas ou altos índices de negação de vistos.
No mês passado, foram concedidas exceções aos visitantes de cinco países participantes da Copa: Argélia, Senegal, Costa do Marfim, Cabo Verde e Tunísia. Eles foram liberados da obrigação de depositar uma caução de até US$ 15 mil (cerca de R$ 77 mil) para obter o visto de entrada nos Estados Unidos.
No último fim de semana (6-7/6), a Associação Internacional da Imprensa Esportiva denunciou "um problema persistente e inaceitável para nós, jornalistas: a negação de vistos de entrada a colegas devidamente credenciados".
Além disso, na segunda-feira (8/6), a Fifa anunciou a exclusão do árbitro Omar Artan da lista de colegiados, por ter sido negada sua entrada nos Estados Unidos. Ele seria o primeiro árbitro da Somália a apitar jogos da fase final da Copa do Mundo.
As autoridades migratórias americanas não forneceram explicações, mas a Somália figura na lista de países afetados por restrições de viagens no governo Donald Trump.
"Este é um torneio em que os jogadores, torcedores e dirigentes não estão livres de riscos, se é que irão conseguir entrar", afirma o ex-capitão da seleção australiana Craig Foster, atual defensor dos direitos humanos.
Ele denunciou que, "para um esporte que preconiza há uma década seu compromisso com sua própria política de direitos humanos, isso é simplesmente vergonhoso".
"Isso deveria enterrar de uma vez por todas a ideia, ainda bastante difundida pelo mundo, de que existe uma separação entre a política e o esporte", prossegue Foster.
"Diferentemente de qualquer outro torneio esportivo de que se tenha lembrança nos tempos modernos, esta é uma Copa do Mundo profundamente politizada."
Desde sua eleição para a presidência da Fifa, em 2016, Infantino vem se aproximando habitualmente dos líderes dos países anfitriões dos seus eventos.
Mas a polêmica concessão do Prêmio da Paz da Fifa a Donald Trump, durante o sorteio da Copa do Mundo no ano passado, destacou suas estreitas relações com o presidente americano.
Desde então, os Estados Unidos realizaram ações militares na Venezuela, Nigéria e Irã. E Trump vem insinuando a possibilidade de novas operações na Groenlândia, México e na Colômbia, que também disputa a Copa do Mundo de 2026.
Surgiram ainda tensões entre os três anfitriões, em temas relacionados ao comércio, imigração e a luta contra o narcotráfico.
Na semana passada, o presidente americano voltou a se referir ao Canadá como "o 51° Estado" americano. Mas existe também a esperança de que o torneio traga uma oportunidade para a diplomacia.
Completando o panorama, os Estados Unidos comemoram em 2026 os 250 anos da sua independência. Espera-se que Trump ocupe um lugar central no torneio, como ocorreu na final do Mundial de Clubes do ano passado e no sorteio da Copa, em dezembro.
Depois das acusações contra a Rússia e o Catar, por usarem as duas últimas Copas para melhorar a sua imagem, a organização Human Rights Watch afirma que o evento deste ano será um "festival de sportswashing", a lavagem de imagem através do esporte.
A Anistia Internacional também alertou que o torneio corre o risco de se tornar um "palco para a repressão".
A organização destaca as práticas "abusivas, discriminatórias e letais de controle migratório e as detenções em massa nos Estados Unidos" e também alerta sobre "riscos significativos" para os espectadores.
Grande parte das críticas se concentram no Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês), que faz parte do aparato geral de segurança do evento.
No início do ano, agentes do ICE mataram a tiros dois cidadãos americanos, durante uma operação de controle migratório em Minneapolis.
Em resposta às críticas, o grupo de trabalho da Casa Branca para a Copa do Mundo prometeu que o torneio será "o evento esportivo mais seguro e acolhedor da história". E também afirmou estar trabalhando para oferecer um campeonato "que destaque a hospitalidade dos Estados Unidos, seu compromisso com a segurança e seu espírito de excelência".
3. A polêmica dos preços
A Fifa adjudicou a Copa do Mundo de 2026 aos Estados Unidos, México e Canadá oito anos atrás. Na época, a entidade tentava se recuperar do escândalo existencial de corrupção levantado pelas enorme polêmica das votações realizadas em 2010, que elegeram a Rússia e o Catar como sedes das Copas de 2018 e 2022, respectivamente.
Com os dois países sendo obrigados a negar acusações de suborno, a Copa do Mundo na América do Norte deve ter parecido uma opção muito menos arriscada, já que a infraestrutura dos estádios nos três países já estava pronta.
O outro grande atrativo era financeiro. Impulsionado por acordos multibilionários de direitos de transmissão e patrocínio, o torneio ampliado será o evento mais lucrativo da história do esporte — e ocorrerá no mercado esportivo mais comercializado do mundo.
As previsões indicam que a Fifa gere uma receita recorde de US$ 9 bilhões (cerca de R$ 46 bilhões), apenas neste ano.
Todo este dinheiro permitirá a redistribuição de US$ 2,7 bilhões (cerca de R$ 14 bilhões) entre as associações nacionais de futebol nos próximos quatro anos. Este valor contribuirá para o desenvolvimento global do esporte e aumentará a probabilidade da terceira reeleição de Infantino para a presidência da Fifa, em 2027.
Mas a polêmica sobre a origem de grande parte deste dinheiro deixou grandes marcas nas preparações para a Copa do Mundo.
Em 2018, os responsáveis pela candidatura tríplice afirmaram que as entradas para a final custariam, no máximo, US$ 1.550 (cerca de R$ 8 mil). Mas, quando os ingressos começaram a ser vendidos em dezembro, para os membros dos clubes oficiais de torcedores de cada país, o bilhete mais caro custava US$ 8.680 (cerca de R$ 45 mil).
Um importante grupo de torcedores qualificou os custos de "traição monumental". A Fifa respondeu anunciando uma quantidade limitada de ingressos a US$ 600 (cerca de R$ 3,1 mil).
Mas a estratégia de preços gerou forte rejeição, aliada à implementação, pela primeira vez em uma Copa do Mundo, das "tarifas dinâmicas", com preços variáveis conforme a demanda no momento da compra.
Houve o receio de que muitos dos torcedores mais leais e apaixonados fossem excluídos do torneio, devido aos altos custos.
Na plataforma oficial de revenda, os preços foram enormemente inflacionados, com a Fifa retendo uma comissão de 30% de cada ingresso vendido.
No mês passado, autoridades de Nova York e Nova Jersey lançaram oficialmente uma investigação, frente às acusações de que a Fifa estaria "inflando artificialmente os preços" e "enganando os torcedores" durante a venda dos ingressos.
A Fifa destacou o poder aquisitivo dos consumidores americanos e a forte demanda. A entidade afirmou que foram vendidas mais de cinco milhões de entradas e que os ingressos estariam esgotados.
Mas a BBC Sport constatou a existência de milhares de entradas disponíveis para jogos de seleções menos populares, a preços muito abaixo do seu valor nominal, tanto no site oficial de revenda da Fifa quanto no mercado secundário.
O organismo também foi acusado de transferir para a plataforma SeatGeek o estoque que não pôde ser vendido por outras vias.
Outros custos também causaram mal estar.
As passagens de trem do centro de Nova York até o Estádio MetLife em Nova Jersey, sede da final da Copa, custam normalmente US$ 12,90 (cerca de R$ 66). Mas o preço disparou para US$ 150 (R$ 771), tendo sido reduzido posteriormente para US$ 98 (cerca de R$ 504).
O governador do Estado de Nova Jersey responsabilizou a Fifa pelo aumento, por se negar a subsidiar os gastos comtransporte.
O descontentamento dos torcedores aumentou ainda mais na semana passada, quando a Fifa anunciou que, por motivos de segurança, não será permitido o acesso aos estádios com garrafas de água reutilizáveis. Muitos atribuíram esta decisão de última hora a interesses comerciais.
Pesquisadores indicam que as temperaturas em 14 das 16 sedes da Copa atingirão níveis perigosos durante o torneio. Por isso, surgiu o receio de que a proibição das garrafas de água possa colocar em risco a saúde dos espectadores.
Frente às fortes críticas de grupos de torcedores e políticos, a Fifa recuou e acabou permitindo a entrada com garrafas d'água descartáveis lacradas.
A primeira Copa do Mundo realizada nos Estados Unidos, 32 anos atrás, contribuiu para popularizar o esporte entre o público do país.
Agora, com uma liga nacional consolidada e investimentos americanos espalhados pelo futebol europeu, a expectativa é que seja dado um novo passo importante.
"Em 1994, o mercado do futebol nos Estados Unidos estava começando. Hoje, contamos com pujantes ligas profissionais e alguns dos melhores estádios do mundo", declarou à BBC Sport o diretor-executivo da Federação Americana de Futebol (US Soccer), J.T. Batson.
"Este verão representa uma oportunidade incrível de transformar o panorama do futebol nos Estados Unidos", destaca ele.
Mas uma pesquisa recente indica que a maioria dos americanos acredita que assistir a uma partida do torneio é caro demais para o cidadão médio.
Outra pesquisa, realizada entre os hotéis, revelou que as reservas ficaram muito abaixo do esperado em quase todas as cidades-sede, o que reforça a percepção de que os recordes de custos, aliados ao contexto político, agiram como fator de dissuasão.
"Haverá muita gente que não poderá assistir devido aos preços", declarou à BBC o líder da Associação de Apoiadores do Futebol da Inglaterra, Thomas Concannon.
Cerca de 12 mil a 15 mil torcedores ingleses assistirão às três partidas da seleção do seu país na fase de grupos, a serem disputadas em Dallas, Boston e Nova Jersey.
"Estes números são meio decepcionantes, considerando a expectativa que foi gerada", lamenta Concannon. "Esperávamos um público maior."
4. O prejuízo ambiental
A Fifa se comprometeu a reduzir suas emissões de carbono em 50% até 2030, atingindo zero emissões em 2040.
Realizar todas as partidas deste Mundial em estádios já existentes colabora com este objetivo. Mas a enorme ampliação do torneio é um ponto negativo, já que o transporte aéreo representa 80% a 90% da sua pegada de carbono.
Os ecologistas afirmam que este será o evento "mais prejudicial para o clima" da história da Copa do Mundo. A grande dependência de viagens aéreas irá gerar o equivalente a mais de 9 milhões de toneladas de dióxido de carbono, quase o dobro da média dos quatro Mundiais anteriores.
Na sua proposta de candidatura original, as três nações anfitriãs apresentaram uma estimativa preliminar de 3,6 milhões de toneladas de CO?e. Os Estados Unidos, México e Canadá expressaram seu desejo de "estabelecer novos padrões de sustentabilidade ambiental no esporte".
Poucas semanas atrás, um grupo de cientistas de renome mundial alertou a Fifa que suas atuais medidas de segurança frente ao calor durante a Copa do Mundo são "insuficientes" e poderão colocar jogadores em risco de sofrer graves danos.
A Fifa declarou estar "comprometida com a proteção da saúde e da segurança dos jogadores, árbitros, torcedores, voluntários e funcionários" e garante que todos os riscos relacionados ao clima estão sendo avaliados.
Mas os efeitos das condições meteorológicas extremas devem sofrer intensa avaliação. Eles incluem os longos atrasos que poderão ocorrer, em caso de partidas interrompidas por tempestades.
Um exemplo foi o jogo preparatório da Arábia Saudita contra Porto Rico, disputado no Texas no último dia 6 de junho, que foi paralisado por quase duas horas.
Também surgirão questões sobre a possibilidade de que a Fifa esteja contribuindo para este problema.
Como se tudo isso não bastasse, as autoridades precisam também enfrentar as crescentes preocupações causadas pelo surto de Ebola na República Democrática do Congo.
Classificada para a Copa, a seleção do país irá jogar na fase de grupos em Houston e Atlanta, nos Estados Unidos, além de Guadalajara, no México.
Um porta-voz do Departamento de Estado americano confirmou que os Estados Unidos estão coordenando uma estratégia "para proteger os nossos cidadãos, incluindo os milhões de visitantes, torcedores, atletas e turistas esperados durante a Copa do Mundo da Fifa".
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Em maio, Infantino expressou seu entusiasmo com o potencial econômico do futebol nos Estados Unidos.
Ele destacou que o mercado americano representa apenas 3% do PIB mundial do esporte, o que representa uma enorme oportunidade de crescimento para os investidores, avaliada em trilhões de dólares.
As próximas semanas irão determinar se este fenômeno esportivo e comercial conseguirá finalmente triunfar nos Estados Unidos, ou se o próprio torneio corre o risco de ser manchado pelos altos custos e pelas questões políticas envolvidas.
Tudo está pronto para fazer brilhar os maiores astros de futebol do planeta. Mas o evento também poderá revelar até que ponto o futebol e seus torcedores estão dispostos a apoiar sua expansão e seus preços excessivos.
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