Tragédia na Venezuela

Venezuela enfrenta terremotos em meio a crise política e econômica

Além de mortes e destruição, os terremotos gêmeos castigam uma população acossada há anos pela instabilidade política e, agora, também por múltiplas pressões econômicas do governo Donald Trump

Sobreviventes dos terremotos buscam donativos em um centro de distribuição: calamidade se soma à penúria econômica que castiga o país -  (crédito: Juan Barreto/AFP)
Sobreviventes dos terremotos buscam donativos em um centro de distribuição: calamidade se soma à penúria econômica que castiga o país - (crédito: Juan Barreto/AFP)

Para as Nações Unidas e organizações humanitárias que prestam auxílio à Venezuela, nos últimos anos, a tragédia dos terremotos da quarta-feira caiu como uma tempestade sobre terra arrasada. No cruzamento entre a instabilidade política crônica, pautada na disputa entre o governo bolivariano e a oposição direita, e as sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos, o ano começou com a incursão militar pela qual comandos de elite norte-americanos capturaram o presidente Nicolás Maduro. Como desdobramento, o presidente Donald Trump impôs um bloqueio naval para colocar sob controle de Washington as exportações de petróleo. Como resultado, o país enfrenta a calamidade e a emergência nacional sobrepostas a um panorama de estagnação econômica, com traços de penúria explícita para setores da população.

Terremotos na Venezuela: tragédia já é comparada ao devastador sismo de 1967

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Mundo teve 4 grandes terremotos em poucas horas: tremores na Venezuela, no Japão e nos EUA têm alguma ligação?

O Departamento de Estado dos EUA puxava ontem a fila das ofertas de ajuda de emergência ao país, com a promessa de liberar de imediato US$ 150 milhões. Como os governos de cerca de uma dezena de países, Washington ofereceu igualmente apoio nas operações de resgate e no atendimento a feridos e desabrigados. "Temos uma resposta de todo o governo", anunciou o secretário de Estado, Marco Rubio, em viagem ao Oriente Médio. "Ela será ampla, rápida e eficaz", acrescentou, com o empenho das Forças Armadas em "um importante papel logístico". No Brasil, o presidente Lula manifestou solidariedade ao governo de Caracas e orientou o Itamaraty a coordenar o envio de ajuda humanitária e equipes de apoio.

"Na Venezuela, não temos uma crise apenas, mas muitas, simultâneas, nos terrenos institucional, econômico e humano, cada uma potencializando as demais", diz um relatório recente do Escritório para Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) da ONU. "Elas se originam e configuram em um contexto de ciclos constantes de conflito político, que faz erodir a estabilidade e a estrutura do Estado e causa um colapso profundo e extensivo, devastando as condições de vida da maioria da população", descreve o documento.

O diagnóstico traçado pelo OCHA indica que, hoje, mais de 18 milhões de venezuelanos sofrem de múltiplas carências no dia a dia. Pouco mais de 12 milhões — ou 43,5% da população — apresentam carências críticas. O país perdeu na última década 10 milhões de habitantes, que correspondem a 30% do contingente inicial. No início de 2026, de acordo com o relatório, 18 milhões estavam desprovidos de meios de subsistência. Desse total, 16,5 milhões apresentavam um quadro classificado como de "pobreza multidimensional". Como reflexo, 71% dos venezuelanos estão privados do acesso a uma dieta alimentar variada e suficiente, enquanto 23% vivem na condição extrema da fome absoluta.

Para este ano, a ONU solicitou US$ 632 milhões para assistência 5,5 milhões de venezuelanos em situação considerada mais críticas. No entanto, segundo o OCHA, até o fim de maio tinham sido efetivamente entregues apenas US$ 100 milhões, o que corresponde a pouco mais de 15% do total. Com esse montante, foi possível atender a 740 mil pessoas, das quais 62% são mulheres e meninas.

Ajuda a caminho

Além de EUA e Brasil, mais de uma dezena de países ofereceram apoio imediato para operações de socorro e resgate, atendimento a desabrigados e apoio à reconstrução da infraestrutura atingida pela calamidade. México e Cuba prometeram enviar equipes de socorro e pessoal médico. O Chile, palco recorrente de terremotos, mobilizou pessoal treinado para o resgate de sobreviventes e estuda a remessa de ajuda humanitária. Assim como os presidentes do Chile, José Antonio Kast, e da Argentina, Javier Milei, também Nayib Bukele, de El Salvador, afirmou que "à parte as diferenças políticas" com o governo venezuelano, o país enviará socorristas.

Enquanto o chefe de ajuda humanitária da ONU, Tom Fletcher, convocava "um esforço coletivo maciço" da comunidade internacional para apoiar o governo de Caracas, incluindo equipes do próprio Ocha, a Cruz Vermelha liberou de imediato US$ 2,5 milhões. China, União Europeia, Alemanha, Rússia, França, Itália, Portugal e Suíça se somaram às mensagens de condolências e solidariedade e aos compromissos de enviar socorristas, donativos e ajuda financeira à Venezuela.

  • Google Discover Icon
postado em 26/06/2026 04:50 / atualizado em 26/06/2026 05:24
x