
Após perder o governo do Rio de Janeiro devido à cassação de Cláudio Castro, o PL aposta no deputado estadual Douglas Ruas, atual presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), para tentar retomar o comando do Palácio da Guanabara na eleição de outubro.
Com apoio do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o pré-candidato recebeu a missão após o ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar (União Brasil) ser afastado e preso por suspeita de ligação com facções criminosas. Bacellar era cotado para disputar o governo estadual com apoio do PL.
O principal adversário de Douglas Ruas será o ex-prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, pré-candidato ao governo pelo PSD. Paes lidera as pesquisas de intenção de voto.
Aos 37 anos, Ruas está no seu primeiro mandato de deputado. Antes, foi secretário municipal no governo de seu pai, o capitão Nelson Ruas, em São Gonçalo, segunda maior cidade fluminense. E, depois, como secretário de Cidades no governo de Cláudio Castro.
Em entrevista à BBC News Brasil, Ruas afirma que não pode ser responsabilizado por erros do ex-governador e promete fazer diferente caso seja eleito. Sem entrar no mérito dos escândalos de corrupção que atingem a gestão do correligionário, ele critica Castro diretamente pela forte deterioração das contas públicas e o crescente déficit do Estado.
"Há cinco anos, nós tínhamos um orçamento equilibrado no Estado do Rio de Janeiro, quando as despesas cabiam dentro da receita", disse à BBC News Brasil.
"O meu plano de governo não é continuidade de nenhum outro governo que tenha passado por aqui", afirmou ainda.
Nem tudo no governo Castro, porém, é alvo de críticas. Na sua visão, a megaoperação contra facções criminosas realizada nas comunidades da Penha e do Alemão, que resultou em 122 mortes e 113 presos em outubro, "foi totalmente legítima".
Questionado pela BBC News Brasil, disse concordar que os Estados Unidos bombardeiem embarcações suspeitas de relação com facções criminosas na costa do Rio de Janeiro, como defendido por Flávio Bolsonaro, pré-candidato ao Palácio do Planalto.
"Eu defendo que nós possamos, sim, buscar cooperação internacional para o enfrentamento ao crime organizado, entendendo que essas facções hoje têm atuação em inúmeros países", afirmou.
"Defendo medidas efetivas para impedir que essas armas e essas drogas cheguem ao nosso território. E, se for necessário bombardear esses traficantes de drogas, traficantes de armas, no mar aberto, antes dessas armas chegarem aqui no nosso território, nas nossas cidades, têm o meu total apoio", continuou.
Ao mesmo tempo que adota um discurso forte contra facções criminosas, disse não ver problema em contar com o apoio de Flávio Bolsonaro, que empregou em seu antigo gabinete na Alerj a então esposa e a mãe do miliciano Adriano da Nóbrega.
Ambas foram exoneradas em 2018, após o então senador eleito se tornar alvo de acusações de manter funcionários fantasmas na Alerj, em um suposto esquema de desvio de verbas de gabinete, conhecido como "rachadinha". Flávio Bolsonaro nega qualquer ilegalidade e vínculo com milícias.
No momento, o Rio de Janeiro é governado interinamente pelo desembargador Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Um julgamento no Supremo Tribunal Federal para decidir se uma eleição antecipada deve ocorrer por voto direto ou indireto está parado, após pedido de vista do ministro Flávio Dino.
A segunda opção beneficiaria o atual presidente da Alerj, mas Ruas diz ser a favor da eleição direta e critica o presidente Luiz Inácio Lula da Silva por defender a continuidade do governo Ricardo Couto.
"É lamentável que o presidente da República se posicione dessa maneira. A gente sabe o quanto as pessoas lutaram no passado para que nós tivéssemos a redemocratização, para que fosse estabelecido o direito ao voto".
Confira a seguir os principais trechos da entrevista, editada por concisão e clareza.
BBC News Brasil - Como avalia a atual situação política do Rio de Janeiro e o governo do desembargador Ricardo Couto?
Douglas Ruas - O Estado do Rio de Janeiro passa por um imbróglio jurídico e institucional que se iniciou com a renúncia do ex-governador Cláudio Castro. Desde o início desse imbróglio, eu sempre tenho me posicionado a favor da realização de eleições diretas, porque entendo que o exercício pleno da democracia se dá através do voto popular. Conforme ocorreu ontem [21 de junho] no estado de Roraima, e foi eleito o governador pelo PL.
Lamentavelmente, o partido PSD entrou com uma petição no Supremo Tribunal Federal, inicialmente questionando a constitucionalidade da lei que regulamentou as eleições indiretas no Estado do Rio de Janeiro e, quando já estava praticamente com maioria formada no plenário virtual para um entendimento, inclusive acatando um dos pedidos desse partido, eles entraram com uma nova petição pedindo que suspendesse as eleições indiretas e, depois, entraram com uma outra petição pedindo para não cumprir-se a Constituição Federal no que diz respeito à linha sucessória no governo do Estado. Então, lamentavelmente, nós temos aqui um governo interino.
BBC News Brasil - O senhor vê interferência política do STF no Rio de Janeiro?
Douglas Ruas - Eu não quero ser leviano aqui de fazer uma afirmação de maneira, inclusive, generalizada, àquela que é a nossa Suprema Corte do nosso país. Mas a gente não concorda com a falta de celeridade com que foi tratado um tema de tamanha importância e que vem perpetuando um cenário de interinidade no governo do Estado.
Nós tivemos dois casos semelhantes no Brasil, um com desfecho por eleições indiretas, que foi o caso do Amazonas. E outro por eleições diretas, no estado de Roraima. E o único onde não teve uma definição foi o Estado do Rio de Janeiro. Recentemente, o atual presidente da República, o Lula, esteve no Rio de Janeiro e, num palanque, falou ao microfone que o governador interino vai permanecer por dez meses.
É lamentável que o presidente da República se posicione dessa maneira. A gente sabe o quanto as pessoas lutaram no passado para que nós tivéssemos a redemocratização, para que fosse estabelecido o direito ao voto. E agora aquele que está à frente do nosso país, eleito pelo voto popular, defendendo um governo que não foi constituído pelo voto popular.
BBC News Brasil – Após os escândalos de corrupção envolvendo o governador Cláudio Castro, por que o eleitor deveria dar uma nova oportunidade ao PL para comandar o Rio de Janeiro, elegendo o senhor?
Douglas Ruas - Nós somos o maior partido do Brasil. Vivemos no Estado Democrático de direito, onde todos os atos praticados por quaisquer cidadão, eles devem ser individualizados. E qualquer um, seja do meu partido, seja de partido aliado, seja de outro partido que tiver cometido algum ato ilícito, ele deve pagar por isso. E não pode as pessoas generalizarem a um partido por conta da conduta de A, B ou C.
Eu creio que a população vai, através da campanha eleitoral, conhecer o Douglas Ruas e fazer a escolha, analisando a minha trajetória de vida, a minha trajetória de trabalho e as minhas propostas. Não a daqueles que, por ora, tenham participado do nosso partido.
BBC News Brasil – O deputado federal Otoni de Paula (PSD), que apoia Eduardo Paes para o governo do Rio, disse à BBC News Brasil que Cláudio Castro instalou uma quadrilha no Rio de Janeiro, junto com Rodrigo Bacellar, que era o ex-presidente da Alerj, também aliado do senhor, e disse que a sua eleição seria uma continuidade desse grupo no poder. Como vê essa declaração?
Douglas Ruas - É até desprezível o posicionamento dessa pessoa que você menciona, porque não tem credibilidade alguma, se posiciona cada vez de uma maneira, de acordo com a conveniência do momento. O meu plano de governo não é continuidade de nenhum outro governo que tenha passado por aqui. Agora, enquanto os adversários tentam associar o Douglas Ruas a qualquer outra figura política, se a gente olhar o Eduardo Paes, apoiado por esse deputado [Otoni de Paula], a grande liderança política dele no estado do Rio de Janeiro nos últimos 20 anos foi o ex-governador Sérgio Cabral, que foi preso num caso emblemático de corrupção, dentre todas as figuras que foram alcançadas pela Lava Jato aqui no Rio de Janeiro.
O próprio presidente da República, o Lula, que, na verdade, não foi inocentado no processo dele. Todos sabem que ele foi condenado em diversas instâncias por corrupção. E hoje essa figura que ocupa o cargo de deputado federal, defende o Lula, defende o Eduardo Paes.
[Nota da redação: Após ficar 580 dias preso e ser impedido de disputar a eleição presidencial de 2018, Lula teve suas condenações na operação Lava Jato anuladas em 2021 pelo STF. Lula havia sido considerado culpado pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, mas o STF anulou essas condenações por entender que Lula não teve seus direitos respeitados ao longo dos processos conduzidos pelo então juiz Sergio Moro.]
BBC News Brasil – Políticos do PL costumam apontar o dedo para a corrupção do PT. O presidente do seu partido, Valdemar Costa Neto, foi condenado por corrupção no escândalo do Mensalão. Isso não é um problema?
Douglas Ruas - Nós não vamos tratar a campanha dessa maneira. Eu não quero dizer com quem o Eduardo Paes andou no passado, o que ele fez. Eu quero falar com o cidadão do Estado do Rio de Janeiro, que está preocupado com o avanço do domínio territorial das facções criminosas, que está preocupado com a redução no seu poder de compra por conta da política econômica instituída pelo atual governo federal, com a taxa de juros altíssima que trava o desenvolvimento do Estado e do país. É esse debate que a gente vai fazer.
Eu fiz apenas uma consideração diferente do que os nossos adversários trabalham, em apontar o dedo, em tentar associar a minha imagem a qualquer outra figura que seja do meu partido, de um outro partido aliado. Nós não vamos seguir nessa linha. Se fôssemos seguir, nós teríamos inúmeros exemplos, como esses que citei aqui. Mas não é dessa maneira que a gente vai conduzir a nossa campanha.
BBC News Brasil – O Rio de Janeiro vive um grave quadro de desequilíbrio fiscal. Apesar disso, estava sendo discutido na Alerj o aumento das emendas parlamentares em R$ 1,5 bilhão no próximo ano. Faz sentido ampliar essa despesa?
Douglas Ruas - Quando eu retornei à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro e posteriormente fui eleito presidente, essa proposta já estava tramitando na Casa desde o ano passado. E eu anunciei para todos os meus pares que essa proposta não vai tramitar. Pelo contrário, nós instalamos a Comissão Especial para Contenção de Gastos. Qual o objetivo dessa comissão? Entender aonde, no passado, o Estado do Rio de Janeiro se perdeu. Há cinco anos atrás, nós tínhamos um orçamento equilibrado no Estado, quando as despesas cabiam dentro da receita. E a gente foi entender o que aconteceu de lá para cá. A receita aumentou nos últimos cinco anos em 20%. Então, onde está o problema? No aumento da despesa.
Então nós estamos trabalhando para entender aonde foram esses excessos no aumento da despesa nos últimos cinco anos, para fazer a devida correção e buscar o equilíbrio fiscal do nosso Estado.
BBC News Brasil – Nos últimos cinco anos, era justamente o governo Cláudio Castro. Esse governo do PL fracassou? Foi incompetente?
Douglas Ruas - Eu estive no governo como secretário de Estado das Cidades. Eu sou um servidor público de carreira. Entrei no serviço público através de um concurso para a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro. Em todos os cargos que ocupei, eu nunca escolhi chefe, eu sempre escolhi a missão. A missão como secretário de Estado das Cidades era levar investimentos para os municípios do nosso Estado, que tem uma capacidade de investimento muito reduzida. E assim fiz nos últimos dois anos e meio. E foram mais de R$ 2 bilhões em investimento em 73 municípios. Obras de infraestrutura que levaram mais mobilidade, mais dignidade e melhoria na qualidade de vida para a população.
Agora, como presidente da Alerj, sou eu o responsável por conduzir esse debate da Lei Orçamentária. E eu não concordo que o Poder Executivo mande para a Assembleia um orçamento deficitário. Eu não concordo que o planejamento do Governo do Estado possa prever uma despesa para além da sua receita.
Então, eu não estou preso à continuidade, às práticas dos outros governos anteriores, ainda que seja do meu partido. Eu estou preso àquelas minhas convicções da boa prática da gestão pública.
BBC News Brasil – O senhor foi secretário de Cidades do governo Cláudio Castro. Críticos da sua gestão dizem que o senhor privilegiou de maneira demasiada São Gonçalo, onde seu pai, Capitão Nelson, é prefeito. Quanto desses mais de R$ 2 bilhões de investimentos foram para São Gonçalo? Eu solicitei essa informação ao atual governo e não esclareceram.
Douglas Ruas - Não existe privilégio. Nós alcançamos, em dois anos e meio, 73 municípios dos 92 [municípios do Rio de Janeiro]. Então, quem fala isso não tem conhecimento dos fatos.
BBC News Brasil – Em percentual de investimento, quanto ficou em São Gonçalo?
Douglas Ruas - Na minha gestão, eu só concluí um processo de licitação para São Gonçalo. Existiam outras obras já em andamento pelo Governo do Estado, na cidade de São Gonçalo, que eu, obviamente, dei continuidade, assim como foi em outros municípios também. Mas nós tivemos uma atuação em 73 cidades. Eu não tenho aqui agora o percentual exato do que foi destinado a São Gonçalo, mas de maneira alguma houve qualquer privilégio. Pelo contrário, hoje a gente recebe o apoio de muitos prefeitos do Estado do Rio de Janeiro, muito por conta disso.
BBC News Brasil – Na área de educação, o senhor promete 200 escolas cívico-militares. Como será feito isso?
Douglas Ruas - O Estado do Rio de Janeiro ocupa a 26.ª posição no ranking nacional do Ideb, ou seja, penúltima. Nós somos a segunda maior economia do Estado, nós somos o cartão de visita dessa nação, e temos essa posição pífia no ranking nacional.
Nós temos aqui um pouco mais de 1200 unidades escolares na rede pública estadual. Dentro dessas, nós encontramos 17 escolas cívico-militares e essas escolas tiveram um desempenho muito bom no Ideb. A nota delas no Ideb está entre 5,2 e 5,8. Só para se ter ideia, o primeiro lugar no ranking nacional do Ideb, o Estado do Paraná, tem nota [média] 4,9. Ou seja, se concorrêssemos apenas com as escolas cívico-militares, nós seríamos primeiro lugar no Brasil.
Então nós temos dentro da nossa rede um modelo de ensino aprovado pelos profissionais da educação, pelos pais dos alunos, pela comunidade escolar como um todo e com resultados comprovada na nota do Ideb.
Muitas das vezes, quando a gente fala de escola cívico militar, as pessoas acham que as nossas crianças, os nossos jovens, vão ser doutrinados a serem militares, e não é nada disso. São profissionais militares da reserva que se integram à comunidade escolar para criar um ambiente organizado, com disciplina, com civilidade.
E todos os professores que, até mesmo no início, tinham uma restrição a esse modelo de ensino, hoje a gente conversa com eles, eles aprovam. E por quê? Porque a única coisa que o professor quer é o respeito do aluno para com o professor. Isso faz com que a aula tenha mais fluidez, com que eles possam ter uma performance melhor para passar o conteúdo para os alunos. E os resultados estão comprovados.
A minha proposta é que a gente possa provocar reuniões com a comunidade escolar, apresentar esse modelo de ensino, inclusive proporcionar aos pais de alunos, aos profissionais de educação, visita a essas unidades que já estão em funcionamento e, apenas com a aprovação da comunidade escolar, nós vamos implementar. E a minha proposta é que nos próximos quatro anos a gente possa ter pelo menos 200 escolas estaduais já com esse modelo de ensino.
BBC News Brasil – Estudiosos da Educação dizem que as escolas cívico militares costumam ter um melhor desempenho porque têm orçamento maior, não necessariamente pelo modelo de ensino. Aqui no Rio, escolas federais e colégios de aplicação, que não são militares, mas também têm orçamento maior, também aparecem entre as melhores. Considerando que são mais de 1200 escolas no Rio de Janeiro, como trazer impacto para toda a rede?
Douglas Ruas - A minha proposta é que a gente possa oportunizar [o acesso a escolas civico militares], até mesmo porque, onde estão instaladas essas escolas, hoje existe uma procura muito grande. Então nós vamos estar atendendo a um anseio da população, dos pais de alunos, que querem aquele modelo de ensino.
Mas, para além das escolas cívico militar, nós temos outras boas práticas também, outros bons colégios que não estão dentro desse modelo de ensino. E a gente precisa pegar as boas práticas, entender o que está acontecendo de bom ali, e levar para toda a rede pública estadual.
Nós precisamos de uma atenção especial para a educação, entendendo que esse tema tem uma relação direta com a nossa posição também no que diz respeito à segurança pública. A mão de obra que está sendo utilizada pelas facções criminosas são dos nossos jovens.
Então, um outro debate importante que nós vamos levar para a educação é trazer a qualificação profissional já para o primeiro ano do ensino médio. Hoje os nossos jovens chegam dentro da sala de aula e muitos deles não conseguem enxergar que aquele tempo que eles estão entregando ali na escola vai lhe ser útil para alguma coisa no futuro. A gente precisa antecipar esse debate da qualificação profissional, pegar na mão do nosso jovens e mostrar a eles: existe um caminho de prosperidade na sua vida e esse caminho é através da qualificação profissional que vai te dar uma oportunidade no mercado de trabalho, a sua primeira oportunidade, e depois você vai ter a oportunidade de buscar mais qualificação e crescer na sua vida, ter dignidade.
BBC News Brasil – O campo do PL, da direita bolsonarista, fala muito do Escola Sem Partido. Essas escolas cívico-militares não são uma forma de levar uma ideologia de direita, ligada ao militarismo, para as escolas?
Douglas Ruas - De forma alguma. Isso é uma completa inversão de valores, falarem que o militarismo tem a ver com a direita. O militarismo é de todos. As Forças Armadas pertencem a todo o Brasil, é um orgulho para toda a nossa nação, independente de ideologia e de espectro político.
E como já falei aqui: são militares da reserva, que atuam para promover um ambiente escolar organizado, com respeito, com civilidade, com disciplina. Não tem viés político ideológico nesse modelo de ensino.
BBC News Brasil – O senhor apoiou a operação do governo Cláudio Castro, que resultou em 122 mortes nas comunidades da Penha do Alemão. O senhor considera que o Estado está mais seguro depois dessa operação?
Douglas Ruas - Eu apoio toda operação policial que seja em favor da população de bem do nosso Estado. O que aconteceu no Complexo da Penha e do Alemão é uma legítima ação do Estado para o cumprimento de ordens judiciais expedidas pelo Poder Judiciário, mandados de prisão contra criminosos que impõem um verdadeiro terror à população de bem.
E essa operação mostrou muito bem a maneira de atuação das forças policiais. Você falou dos 122 mortos, mas mais de 100 criminosos foram presos. Quem faz a opção são eles, aqueles que entenderam que o Estado chegou para cumprir as ordens judiciais e eles se renderam, a polícia cumpriu o seu papel. Agora, os 122 que empunharam um fuzil, que é um armamento de guerra, e correram para a mata para enfrentar o Estado, para enfrentar a população de bem, tiveram um resultado morte. E o policial é instado a se defender de uma injusta agressão para defender a sua vida ou a vida de um outro cidadão de bem.
Então, a ação foi totalmente legítima. Lamentavelmente, nós vivemos nos últimos anos com muitas restrições para a ação das forças policiais por conta da ADPF 635, que foi uma ação proposta por um partido político, que é o PSB, que foi ao Supremo Tribunal Federal e disse que existe um estado de coisas inconstitucionais, com a presença das forças policiais dentro das comunidades. E é minha grande crítica desde o meu primeiro dia de mandato aqui na Assembleia em relação à ADPF 635 é que o Supremo Tribunal Federal não ouviu o que mais importava nessa decisão, que é o cidadão de bem que mora dentro das comunidades.
O Supremo Tribunal Federal decidiu a favor do pedido desse partido e nós tivemos as ações policiais restringidas durante um grande período. O que virou o Estado do Rio de Janeiro? Um resort para criminosos de tudo que é canto do país. É só buscar no noticiário, você vai ver: criminosos de Minas Gerais, Mato Grosso, Bahia, Rio Grande do Norte se instalaram nas nossas comunidades e passaram a comandar o crime organizado nos seus estados a partir daqui. Por que? Através de uma medida judicial, criou-se um ambiente seguro para eles [criminosos] ficarem. Para eles [policiais] entrarem, precisam avisar com antecedência a inúmeros outros órgãos e, obviamente, perde-se o fator surpresa. Então, quando a polícia chegava lá, praticamente não encontrava ninguém, porque eles tinham tempo para se organizarem, se esconderem e irem para outras comunidades onde não seriam realizadas as operações.
BBC News Brasil – O governo Cláudio Castro fez essa operação com discurso muito forte de combate às facções e, ao mesmo tempo, o ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacelar, que integrava o governo, está hoje preso suspeito de ligação com as facções criminosas. Então, esse tipo de operação é muito midiática, mas é isso que vai resolver o problema da violência?
Douglas Ruas - O maior problema hoje do estado do Rio de Janeiro é o domínio territorial pelas facções criminosas. Uma operação como aquela, se não tiver uma continuidade depois da presença do Estado, não só por parte da polícia, mas por outros órgãos, realmente não nos dá uma efetividade duradoura.
Nós precisamos ter um plano e é isso que nós vamos apresentar no nosso plano de governo de retomada do território. O Estado do Rio de Janeiro precisa assumir a sua responsabilidade e não podemos aceitar que as facções criminosas mandem em qualquer palmo do território do Estado do Rio de Janeiro.
BBC News Brasil – É sabido que as facções criminosas que atuam no estado do Rio de Janeiro são facilitadas pela corrupção policial. Como isso vai ser combatido num eventual governo seu?
Douglas Ruas - Nós vamos criar a Corregedoria Geral Unificada, uma figura que se perdeu nos últimos anos aqui no estado do Rio de Janeiro. E essa corregedoria vai ficar debaixo do meu guarda-chuva como governador, para ter total isenção e autonomia para trabalhar, para privilegiar o bom policial. Aquele que porventura esteja inserido dentro das nossas forças policiais, para praticar crime, para estar aliado às facções, terá uma punição severa e imediatamente nós vamos retirá-lo de circulação e punir com todo o rigor da lei.
BBC News Brasil – O pré-candidato presidencial Flávio Bolsonaro, seu aliado, chegou a defender que os Estados Unidos bombardeiem embarcações suspeitas de relação com facções criminosas na costa do Rio de Janeiro. O senhor apoia esse tipo de ação?
Douglas Ruas - Eu tenho defendido que nós possamos classificar as facções criminosas como terrorista, porque o que eles praticam é impor o terror à população de bem do nosso Estado. As pessoas estão com as suas liberdades cerceadas por essas pessoas. Lamentavelmente, o atual Presidente da República entende que eles não são terroristas e ainda o chamou de nossos criminosos. Nós não temos compromisso com criminosos. Não vamos chamá-los de nossos.
BBC News Brasil – Mas o senhor apoiaria uma ação dos Estados Unidos na costa brasileira?
Douglas Ruas - Eu defendo que nós possamos, sim, buscar cooperação internacional para o enfrentamento ao crime organizado, entendendo que essas facções hoje elas têm atuação em inúmeros países, não estão restritas ao nosso território nacional, até mesmo porque não temos histórico de produção de entorpecentes no nosso território nacional.
A cocaína que é vendida aqui no Rio de Janeiro, que chega às nossas cidades, que destrói as nossas famílias, a gente sabe onde é produzida: nos nossos vizinhos, países sul-americanos. Nós não temos a produção de armas. Ano passado, foram apreendidos aqui 920 fuzis, armamento de guerra, num território urbano. E eles não são produzidos aqui. Entram pelas nossas fronteiras sem qualquer controle. Então, defendo medidas efetivas para impedir que essas armas e essas drogas cheguem ao nosso território. E, se for necessário bombardear esses traficantes de drogas, traficantes de armas no mar aberto, antes dessas armas chegarem aqui no nosso território, nas nossas cidades, têm o meu total apoio.
BBC News Brasil - O senhor tem um forte discurso de combate à criminalidade, ao mesmo tempo, é um aliado importante do Flávio Bolsonaro. Quando Flávio foi deputado estadual da Alerj, ele empregou a esposa e a mãe do Adriano da Nóbrega, que era acusado de ser o chefe do Escritório do Crime, um miliciano. Isso não é um problema?
Douglas Ruas – Eu não estava aqui na Assembleia Legislativa no passado. Esse foi o meu primeiro mandato. Não acompanhei de perto. As informações que eu tenho a respeito desses casos eu acompanhei através do noticiário, então não tenho conhecimento dos autos para poder falar sobre esse assunto tecnicamente.
Agora, volto a dizer: eu sou o Douglas Ruas, pré-candidato a governador, respondo por todos os meus atos. Não respondo pelos atos de qualquer um aliado, seja ele do meu partido ou seja de outro partido. O que nós estamos apresentando à população do Estado do Rio de Janeiro é um plano de governo que possa reconhecer que nós temos que fazer o enfrentamento para retomar os territórios do nosso Estado, devolver a liberdade econômica e o direito de ir e vir para a população de bem.
Nós vamos encarar o outro grande desafio, que é o equilíbrio fiscal, que pode, inclusive, comprometer todas as outras políticas públicas para além da segurança, como saúde, educação, assistência social, política para as mulheres, entre outros. É isso que nós vamos apresentar à população.
O meu pré-candidato à Presidência da República é o Flávio Bolsonaro, tem o meu total apoio aqui. O que nós vimos nos últimos quatro anos no nosso país foi uma política econômica que travou o nosso desenvolvimento. O poder de compra das famílias foi reduzido. Nós temos um recorde de endividamento. A gente tem total convicção de que o país não resiste a mais quatro anos do PT. E o Flávio tem, sim, um plano de governo que vai devolver a liberdade econômica, vai acabar com essa gastança no governo federal para colocar o nosso Brasil no rumo certo.
BBC News Brasil - Estou me referindo a um fato objetivo: os registros históricos de quem atuou no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro são públicos, e ele empregou a mãe e a então esposa do Adriana da Nóbrega por anos. Isso não é um problema?
Douglas Ruas - Pra minha pré-candidatura, não é problema algum. As pessoas podem pesquisar minha trajetória de vida, minha trajetória de trabalho.
BBC News Brasil – E o problema de o senhor ser aliado a ele?
Douglas Ruas - Eu sou aliado ao Flávio, e o Lula, quem são os aliados? Quem Lula nomeou? Lula recebeu a Deolane [Bezerra], que está presa. Vão dizer o quê: o CPF dele está atrelado à prática dela? Ele praticou algum ato? O Flávio praticou algum ato junto com quem quer que seja relacionado a algum crime?
BBC News Brasil - O seu pai, o capitão Nelson, prefeito de São Gonçalo, era próximo da juíza Patrícia Acioli, que foi assassinada por combater milícias e facções criminosas em São Gonçalo. E, por outro lado, seu pai constou como suspeito de liderar uma milícia em São Gonçalo no relatório final da CPI das Milícias da Alerj. O que tem a dizer sobre isso?
Douglas Ruas - A juíza Patrícia Acioli era muito atuante na comarca da cidade de São Gonçalo, onde meu pai teve a sua atuação como policial militar. Num dado momento, ela tomou conhecimento de que estava sendo ameaçada de morte e o presidente do Tribunal de Justiça à época colocou que ela precisaria ter uma escolta. Ela disse ao presidente do Tribunal de Justiça e ao então comandante da Polícia Militar que só confiava numa pessoa para fazer a sua escolta, que seria o então capitão Nelson, que trabalhava no sétimo batalhão na cidade de São Gonçalo.
Não era muito a praia do meu pai trabalhar em escolta pessoal de autoridade, mas a juíza foi muito categórica que não aceitaria outra pessoa por relação de confiança, porque ela sabia que se tratava de uma pessoa honesta, que verdadeiramente combatia o crime àquela época, na cidade de São Gonçalo. O meu pai aceitou e fez o trabalho ao lado dela até que fosse desmantelado todo esse plano. Tão logo foi solucionado o caso, ele retornou para o seu trabalho na Polícia Militar.
Posteriormente, a juíza teve uma morte trágica por conta de policiais corruptos que instaram contra o trabalho dela à frente do Poder Judiciário e a vida dela foi ceifada. Esse crime foi elucidado pela Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, que prendeu todos os seus executores e mandantes e submeteram à Justiça do nosso Estado.
Em relação à menção na CPI das milícias, teve um equívoco procedimental, que foram divulgados, ao final do relatório, de uma maneira anexa, todos os disque-denúncias que foram realizados [sobre milícias]. E o disque-denúncia, para quem não compreende bem a questão da segurança pública, é uma matéria bruta. São informações anônimas que chegam ao conhecimento das autoridades policiais e que elas precisam ser lapidadas, porque, lamentavelmente, elas são utilizadas de maneira a tentar denegrir a imagem de alguém, impor alguma calúnia, difamação.
E, nesse caso da menção ao meu pai, para quem conhece a cidade de São Gonçalo, é uma coisa até cômica, porque a denúncia recebida pelo disque-denúncia fala da instalação de uma milícia no bairro do Jardim Catarina, que é um bairro que sempre foi dominado pelo tráfico de drogas. E quem seriam os mandantes dessa milícia? Seria o meu pai e mais outras duas figuras da política que foram adversários a vida toda. Os três são adversários: era o Mota da Copasa [Edson da Silva Mota] e Daizinho [Aldair Corrêa]. Um foi vereador, o outro foi candidato a vereador, e sempre adversários. Os três nunca nem se falaram. Não tem qualquer relação.
Então, foi uma verdadeira piada feita através de um disque-denúncia, e não avançou, não teve qualquer investigação.
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