
Um menino de 3 anos foi retirado com vida dos escombros nesta terça-feira (30/6), seis dias após dois terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 atingirem a Venezuela, informou uma equipe de resgate jordaniana.
Um vídeo divulgado pelos socorristas mostra o momento em que a criança, identificada pela presidente interina do país, Delcy Rodríguez, como Klieber Morán, é retirada dos destroços sob aplausos e comemorações da equipe, no estado de La Guaira.
Uma das regiões mais devastadas pelos terremotos, La Guaira ainda concentra grande parte das operações de busca. Enquanto equipes nacionais e internacionais seguem trabalhando no local, muitos moradores também tentam localizar sobreviventes por conta própria.
Segundo Rodríguez, o resgate do menino de três anos demonstra que "ainda há esperança" de encontrar pessoas com vida. Ela acrescentou que abrigos já foram montados em diferentes estados do país para receber os desabrigados.
Klieber foi encontrado muito além das primeiras 72 horas após os tremores — período considerado decisivo por especialistas, já que é quando as chances de localizar sobreviventes são maiores.
A Defesa Civil da Jordânia informou que ele recebeu os primeiros socorros e foi transferido para um hospital em Caracas. Seu estado de saúde é estável.
O número de mortos pelos dois terremotos chegou a 1.943 nesta terça, enquanto o de feridos soma 10.57.
De acordo com o Comitê Internacional de Resgate (IRC, na sigla em inglês), que atua na Venezuela desde 2021, cerca de 50 mil pessoas continuam desaparecidas sob os escombros.
Embora as operações de busca não tenham sido interrompidas e alguns sobreviventes ainda tenham sido encontrados nos últimos dias, o IRC afirma que a chamada janela crítica para localizar vítimas com vida já se encerrou.
Por isso, a organização considera improvável que muitas outras pessoas ainda sejam resgatadas.
Agora, a principal preocupação é a situação dos sobreviventes, que enfrentam risco devido à falta de água.
"O que estamos vendo nos abrigos é devastador: mulheres sozinhas com crianças pequenas, sem documentos, sem medicamentos e sem saber onde estão seus companheiros ou familiares", afirmou Nicole Kast, diretora do IRC na Venezuela.
"As crianças não conseguem dormir. Cada tremor secundário provoca pânico coletivo nos abrigos, e o impacto psicológico disso vai perdurar muito depois que os escombros forem removidos."
A agência da ONU para refugiados (ACNUR) informou nesta terça-feira que a escassez de alimentos é generalizada, os serviços básicos foram interrompidos e as comunicações estão praticamente cortadas em La Guaira.
"As tensões entre as comunidades estão aumentando, já que o acesso à ajuda continua limitado", afirmou o ACNUR em comunicado publicado em seu site.
Daniela Armas, uma vendedora de 18 anos de La Guaira — que ficou ferida ao cair de uma moto durante os terremotos — afirmou à agência AFP que alguns suprimentos estão sendo distribuídos, "mas, às vezes, as pessoas quase se matam por comida... é como uma briga de galos".
O ACNUR informou que precisa de um aporte inicial de US$ 15 milhões (cerca de R$ 77 milhões) para ampliar a proteção, distribuir itens básicos e oferecer abrigo temporário a 30 mil pessoas afetadas pelo terremoto pelos próximos seis meses.
Enquanto isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou que os serviços de saúde estão sob pressão extrema.
"Há um risco crescente de surtos de doenças evitáveis por vacinação", como sarampo e difteria, devido à baixa cobertura vacinal, afirmou Christian Lindmeier.
'Pior tragédia da história do país'
Em pronunciamento nesta terça, o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodriguez, informou que cerca de 30 mil pessoas estavam nas áreas afetadas onde os terremotos ocorreram.
Ainda, de acordo com ele, entre 13.400 e 13.500 pessoas conseguiram sair imediatamente por conta própria, e 6.461 foram resgatadas até o momento.
Rodríguez classificou o desastre como "a pior tragédia da história do nosso país" e afirmou que equipes nacionais e internacionais continuam trabalhando na busca por sobreviventes sob os escombros.
Equipes de resgate dos Estados Unidos, do México e de dezenas de outros países seguem procurando sobreviventes com o auxílio de cães farejadores e maquinário pesado.
Parte da ajuda internacional já começou a chegar à Venezuela. Um porta-voz da ONU informou que, nesta terça-feira, desembarcou no país uma carga de 47 toneladas de suprimentos humanitários, incluindo kits de emergência para atendimento médico, materiais para partos seguros, cuidados neonatais e ações de prevenção de doenças.
Enquanto isso, os venezuelanos começaram a enterrar as vítimas já identificadas.
Muitas famílias, porém, ainda aguardam os corpos de parentes desaparecidos, que são presumidos mortos.
No necrotério improvisado no porto de La Guaira, Wilker Molalla contou à AFP que esperava para identificar os corpos da irmã, dos filhos dela e dos filhos de seu irmão.
"Éramos 11 pessoas na minha casa. Apenas dois sobreviveram porque estávamos trabalhando."
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