Por 215 votos a favor e 208 contra, a Câmara dos Representantes impôs uma derrota política à Casa Branca e aprovou uma resolução que limita os poderes de Donald Trump de ordenar mais ataques ao Irã. Especialistas consideram sintomático o fato de quatro deputados republicanos — Thomas Massie, Brian Fitzpatrick, Tom Barrett e Warren Davidson — terem cruzado as linhas do partido e avalizado o texto durante a votação. A medida intensifica a pressão sobre o governo Trump a 153 dias das eleições de meio de mandato que podem reconfigurar a Câmara e o Senado, ambos sob controle republicano. Até o fechamento desta edição, Trump não havia comentado o revés no Capitólio. A resolução orienta o presidente a retirar as forças americanas do Irã ou a obter a aprovação do Congresso para prosseguir com a guerra. Em uma indicação de que a própria base governista previa a derrota, os republicanos chegaram a adiar a votação, de maneira abrutpa, duas semanas atrás. O texto, agora, segue para o Senado, mas não será levado à sanção presidencial.
- Trump confirma que chamou Netanyahu de "louco", mas minimiza atrito
- Irã condena ataque dos EUA a petroleiro e ameaça retaliar países da região
- Presos pelo bloqueio do estreito de Ormuz há quase 100 dias: 'Só existe uma saída'
"Estou muito feliz por termos tido a oportunidade de alguns membros do lado republicano se manifestarem. Estou realmente feliz e orgulhoso dos meus colegas democratas, porque todos os democratas, sem exceção, votaram a favor disso", declarou o deputado democrata Gregory Meeks, autor da proposta de resolução e membro do Comitê de Assuntos Externos da Câmara. A votação ocorreu horas depois de EUA e Irã voltarem a trocar disparos. Drones iranianos atingiram o Aeroporto Internacional da Cidade do Kuwait, deixando um civil indiano morto e matando outras 63 pessoas.
Professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Cristina Soreanu Pecequilo classifica a decisão da Câmara como "importante". "Para se aprovar uma resolução dessas, é preciso uma adesão de parte dos republicanos, que votaram contra Trump. Existe uma movimentação de insatisfação, por parte da bancada governista, ante a proximidade das eleições legislativas de meio de mandato", explicou ao Correio. "É um alerta para Trump de que ele precisa reavaliar a guerra, embora ele tenha dito que não se importa com a eleição ou a condução do conflito. A resolução coloca em xeque a maneira com que ele pode governar, hoje, sem contrangimento. Aliás, é um dos primeiros constrangimentos que ele sofre. Apesar da possibilidade de a resolução em nada resultar no Senado, é uma sinalização da insatisfação crescente."
Por sua vez, Roberto Goulart Menezes, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), disse à reportagem que a resolução mostra que o presidente não tem apoio total do Partido Republicano para levar uma guerra onerosa aos cofres públicos dos EUA, aos aliados no Oriente Médio e ao custo de vida no país. "Quase metade dos americanos declaram que passaram a usar menos os seus carros por conta do preço do combustível", comentou. "Com a eleição se aproximando, fica claro que o Partido Republicano contém quadros não trumpista."
Caos no terminal
O incidente envolvendo a barragem de drones no Aeroporto Internacional da Cidade do Kuwait ocorreu em meio às negociações de cessar-fogo entre o regime teocrático islâmico e os Estados Unidos. Imagens divulgadas pelas redes sociais e pelo Telegram mostraram o caos instalado no terminal de passageiros número 1 do aeroporto, com fumaça e focos de incêndio. A Guarda Revolucionária Islâmica informou que respondeu a um bombardeio contra um petroleiro iraniano e atacou um navio ligado a Israel e aos EUA, uma base aérea no Kuwait e a sede da Quinta Frota americana baseada no Bahrein. No entanto, negou que tivesse enviado drones suicidas para a região do aeroporto kuwaitiano e responsabilizou o mau funcionamento de um sistema de defesa antimísseis americano Patriot.
O Comando Central dos Estados Unidos rejeitou a acusação. "O Irã golpeou o aeroporto civil com drones em ataque deliberado, calculado e não justificado", afirmou em nota. O Kuwait informou que 17 drones iranianos e 13 mísseis balísticos foram disparados contra seu território. Os EUA também acusaram as forças de Teerã de lançarem mísseis contra o Bahrein. O exército americano respondeu com "ataques de defesa" na ilha iraniana de Qeshm, situada no Estreito de Ormuz.
Ante o risco de uma contraofensiva americana ao ataque contra o Kuwait, aliado-chave de Washington, o negociador-chefe do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, subiu o tom e advertiu que "qualquer agressão receberá uma resposta decisiva", segundo a agência de notícias Isna. No front libanês, as Forças de Defesa de Israel (IDF) prosseguem com as operações militares contra o movimento fundamentalista xiita Hezbollah. Os ataques se aproximaram de Beirute e deixaram pelo menos nove mortos no sul do Líbano, próximo à fronteira israelense.
Apesar da cautela iraniana em avaliar o diálogo com os EUA, Trump assegurou que as negociações estão indo "muito bem". O titular da Casa Branca avaliou que um acordo pode ser firmado "neste fim de semana", mas não descartou a possibilidade de fracasso. "Ouvi dizer que a negociação está indo muito bem", declarou a jornalistas no Salão Oval. "Nessa parte do mundo, um cessar-fogo significa que se atira de forma um pouco mais moderada", ironizou.
Mais cedo, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, garantiu que não houve "nenhum progresso tangível". "Foram trocadas mensagens sobre a necessidade de pôr fim à agressão contra Beirute, mas não se alcançou nenhum progresso tangível no processo de negociação", declarou. O chefe da diplomacia de Teerã ressaltou que "o retorno à mesa de negociações está condicionado à garantia dos direitos do povo iraniano, ao fim da guerra no Líbano e à redução das tensões na região".
Advertência
Araghchi também advertiu que uma ofensiva a Beirute desencadearia uma "retomada em grande escala da guerra" no Oriente Médio. "Qualquer ataque contra Beirute terá graves consequências e levará a uma retomada em grande escala da guerra. Nossas forças armadas estão preparadas para atacar Israel se Israel atacar Beirute", disse.
Pecequilo considera que os ataques ao Kuwait se inserem no mesmo padrão de ofensivas do Irã a outros aliados dos EUA no Oriente Médio. "É uma forma de colocar em xeque a segurança regional, essencial para que esses países consigam avançar em seu comércio de petróleo e para a estabilidade regional", explicou. Ela admite que o incidente no Kuwait causa preocupação sobre o tipo de Oriente Médio que nascerá da confrontação entre os EUA e o Irã, além do papel de Israel com os ataques ao Líbano.
EU ACHO...
"Sob o ponto de vista prático, a medida abre uma discussão no Congresso dos Estados Unidos em limitar não apenas os poderes de Trump na guerra, mas, sobretudo, em sinalizar a politização. Ela aponta que a guerra pode levar a uma derrota do Partido Republicano nas eleições de meio de mandato. O Congresso tem resistido a aprovar a liberação de orçamentos adicionais para a guerra."
Roberto Goulart Menezes, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB)
